Ela diz que tem 30 anos, mas acredita-se que é apenas um lapso de uma grande memória. De fato, Helena deve ter cerca de 80 anos. Em situação de rua, é assistida por cidadãos e cidadãs que não perderam a indignação ao ver seu semelhante tendo que sobreviver no meio da violência urbana e na fase mais aguda da pandemia de coronavírus. Aliás, Helena faz parte do grupo de altíssimo risco, mas se nega a usar a máscara, por várias vezes oferecida.
Helena – nome que significa “a reluzente, a resplandecente” e ainda que reflete esperança, segundo pesquisa – quase não fala. Atualmente, fica parte do dia sentada, costurando, com seus poucos pertences, na esquina da Rua Enguaguaçu com a Jurubatuba, na Ponta da Praia, em Santos. A Reportagem tentou obter informações mas, quando vê um celular na mão de alguém que se aproxima, levanta e se afasta.
Todos os dias, ela recebe pequenas ajudas como bolachas, água, lanches entre outros alimentos que a mantém viva e aparentemente saudável. Ela ainda recebe roupas das pessoas que ajudam eventualmente com algum dinheiro. Mas Dona Helena, como já é conhecida na vizinhança, dá um destino inusitado as cédulas e moedas que lhes chegam às mãos.
O advogado Hemilton Carlos Costa é testemunha da generosidade e desprendimento da idosa em relação a dinheiro. “Um dia, cheguei no meu escritório e vi que tinha cerca de R$ 27,00 embrulhado num papel e preso à maçaneta da porta. Perguntei aos meus funcionários e todos negaram propriedade. No dia seguinte, mais R$ 15,00. Aí, me deu um estalo. Como sou um dos poucos que ela arrisca algumas palavras, perguntei se teria sido ela e, para minha surpresa, ela confirmou que deixou na minha porta para que eu desse a outra pessoa, pois consegue viver dos alimentos que as pessoas lhe dão todos os dias”, explica Costa.
GUARANÁ GELADO
O advogado diz que Dona Helena gosta de guaraná gelado. Descobriu quando, a pedido dela, comprou também remédio para dor de cabeça após Dona Helena passar o nome do medicamento usual num pequeno pedaço de papel. Costa diz que ela recebe roupas, costuradas com muito empenho diariamente, e que os comerciantes não se importam ao vê-la dormir sob suas marquises, pois Dona Helena é um exemplo de organização e asseio. “Nunca vi uma pessoa numa situação tão difícil ter o cuidado de manter tudo ao seu redor limpo e arrumado. É impressionante!”, relata orgulhoso.
Segundo Hemilton Costa, a idosa nunca se casou. “Não dei essa sorte”, afirmou outro dia ao advogado que, conseguiu descobrir que ela morava em São Vicente, em um quarto no fundo de um terreno que foi vendido para a construção de um prédio. Ela disse o endereço, mas não demonstra mágoa pela má sorte de ter que deixar o imóvel.
Hemilton Costa está, agora, tentando conseguir localizar a família e um lugar para acolhimento da idosa. “Ela merece ter um lugar para morar que reconheça sua dignidade. Ela não tem maldade alguma. Infelizmente, ela não consegue passar mais detalhes de sua vida, acredito que por conta dos pequenos lapsos de memória”, comenta, alertando que os serviços de acolhimento foram acionados pela vizinhança, mas Dona Helena ainda recebeu a assistência social pública necessária. “Quem quiser ajudá-la pode ligar no 3302-0033 e falar com a Roberta”, finaliza o advogado.
MP E DEFENSORIA
O Diário do Litoral já publicou que o Ministério Público de São Paulo (MP/SP) instaurou inquérito civil para apurar as medidas de enfrentamento à pandemia do novo coronavírus (Covid-19) da Prefeitura junto à população em situação de rua e moradores de cortiços e palafitas. A denúncia é da vereadora Telma de Souza (PT), que aponta a necessidade de ações mais eficazes para evitar o contágio da doença junto à parcela mais vulnerável da população santista.
Publicou que, em março último, a Defensoria Pública de Santos, por intermédio do defensor Thiago de Souza, ingressou com uma ação civil pública também contra a Prefeitura de Santos, visando um local adequado para isolamento domiciliar de pessoas em situação de rua com sintomas ou já com coronavírus. As ações tramitam no Judiciário.
PREFEITURA
A Prefeitura já se manifestou e garante que estão sendo adotadas uma série de medidas voltadas às pessoas em situação de rua da Cidade que envolvem a prevenção, higiene, saúde, alimentação e acolhimento, como orientação pelas equipes especializadas da Saúde. Revela que os equipamentos públicos também garantem a segurança dos internados.
Já para a população que ainda permanece nas ruas, a orientação é procurar o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, o Centro POP (Rua Amador Bueno, 446 – Centro). No local as pessoas serão orientadas quanto às medidas de prevenção contra o Covid-19 e poderão fazer a higiene pessoal e também serão ofertados lanches.
A equipe do Consultório de Rua também continua em atividade e o munícipe também pode acionar as Equipes de Abordagem da Secretaria de Desenvolvimento Social, por meio do 0800177766, que continuarão a oferecer acolhimento.
