O que começou como um experimento científico de rotina acabou se transformando em um dos episódios mais marcantes e controversos da ciência moderna. Em abril de 1943, o químico suíço Albert Hofmann viveu, sem saber, a primeira “viagem” de LSD da história. As informações são do site BBC culture.
A experiência, que misturou fascínio, medo e alucinações intensas, abriria caminho para décadas de estudos, polêmicas e impactos culturais profundos em todo o mundo.
Um acidente de laboratório que mudou tudo
Hofmann trabalhava nos laboratórios da Sandoz, na Basileia, estudando compostos derivados de um fungo conhecido como ergot, com o objetivo de desenvolver medicamentos, especialmente para problemas circulatórios e obstétricos.
O LSD havia sido sintetizado anos antes, em 1938, mas permaneceu esquecido até abril de 1943, quando o cientista decidiu revisitar a substância.
Durante o manuseio, ele acabou absorvendo acidentalmente uma pequena quantidade pela pele e começou a sentir efeitos inesperados.
Ele descreveu sensações de tontura, inquietação e um estado semelhante a um sonho, com imagens intensas e cores vibrantes.
Intrigado com o que havia acontecido, decidiu repetir a experiência dias depois, desta vez de forma intencional.
A primeira viagem intencional e o famoso ‘Dia da Bicicleta’
Em 19 de abril de 1943, Hofmann ingeriu 250 microgramas de LSD, acreditando ser uma dose mínima. Mas o efeito foi muito mais forte do que o esperado.
Pouco tempo depois, sua percepção da realidade começou a se transformar drasticamente.
Sem conseguir permanecer no laboratório, ele decidiu voltar para casa de bicicleta, um trajeto que entraria para a história como o primeiro “bad trip” documentado.
Durante o percurso, objetos pareciam distorcidos, imóveis ganhavam vida e a realidade se fragmentava diante dos seus olhos. Em casa, o quadro se intensificou:
sensação de perda de controle
medo de estar enlouquecendo
alucinações com figuras ameaçadoras
distorção completa do espaço e do tempo
A experiência foi tão intensa que o próprio cientista chegou a acreditar que estava morrendo.
Hoje, a data é conhecida mundialmente como “Bicycle Day”, celebrada por entusiastas da cultura psicodélica.

Do laboratório à cultura mundial
Após a descoberta, o LSD passou a ser estudado por médicos e psiquiatras, que enxergaram potencial terapêutico na substância, especialmente para acessar o inconsciente e tratar transtornos mentais.
Nas décadas seguintes, porém, o uso extrapolou os limites científicos.
Nos anos 1960, a droga se espalhou pela contracultura, influenciando movimentos artísticos, musicais e comportamentais. Figuras como Timothy Leary ajudaram a popularizar o LSD como símbolo de expansão da consciência.
Ao mesmo tempo, aumentaram os relatos de experiências negativas e danos psicológicos, o que levou governos a impor restrições rigorosas.
Os riscos: quando a experiência vira pesadelo
Apesar de não ser considerada altamente tóxica do ponto de vista físico, o LSD tem efeitos profundos sobre a mente e pode desencadear episódios graves.
Entre os principais riscos estão:
crises de pânico e paranoia (“bad trips”)
perda da noção da realidade
alucinações intensas
surtos psicóticos
flashbacks semanas ou meses depois
Especialistas alertam que os efeitos variam conforme dose, ambiente e estado emocional — o que torna o uso imprevisível.

Um “filho-problema” da ciência
O próprio Hofmann manteve uma visão ambivalente sobre sua descoberta. Em sua autobiografia, ele descreveu o LSD como um “filho-problema”: uma substância com potencial científico e terapêutico, mas também capaz de causar danos quando usada sem controle.
Ele acreditava que o LSD poderia ter aplicações médicas importantes, desde que utilizado com responsabilidade e supervisão.
Um experimento que redefiniu a percepção humana
Mais de 80 anos depois, a primeira viagem de LSD continua sendo um marco na história da ciência e da cultura.
O episódio não apenas revelou uma das substâncias mais potentes já descobertas, como também levantou questões profundas sobre consciência, realidade e os limites da mente humana.
Como o próprio Hofmann concluiu anos depois: a realidade talvez não seja única, mas múltipla, instável e, em certas circunstâncias, profundamente alterável.
