Presidente de sindicato da limpeza do Litoral é preso após investigação sobre ameaças durante greve

Investigação da Polícia Civil aponta suspeita de extorsão, coação e uso de intimidação armada contra trabalhadores da limpeza urbana durante paralisação que afetou cidades da Baixada Santista

Armas encontradas em posse do sindicalista Fuzil, de Santos

Armas foram encontradas na casa de André e em cofre camuflado na sede do sindicato (Divulgação/Polícia Civil)

A polícia prendeu, na manhã desta quarta-feira (13), em Santos, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana (Siemaco) da Baixada Santista, André Domingues de Lima, de 53 anos.

Conhecido como “Fuzil”, ele é alvo de investigação por suposto envolvimento em um esquema de extorsão, coação e terrorismo sindical durante a greve dos coletores de lixo que afetou cidades da região em março deste ano.

Segundo a Polícia Civil, as investigações começaram após denúncias feitas por trabalhadores durante o movimento grevista. A partir dos relatos, foi instaurado um inquérito policial e solicitadas medidas de busca e apreensão, posteriormente autorizadas pela Justiça.

A polícia localizou André em uma residência de alto padrão no bairro Embaré, em Santos. Durante as buscas feitas tanto na casa do sindicalista quanto na sede do sindicato, os policiais apreenderam armas de fogo, munições e equipamentos táticos.

De acordo com a investigação, os agentes encontraram na residência uma pistola calibre .380, além de carregadores e munições com registro vencido.

Já na sede do sindicato, os agentes localizaram um revólver calibre .38 dentro de um cofre camuflado. Segundo a polícia, o registro da arma estaria vinculado a um armamento anteriormente furtado. Eles também apreenderam uma pistola Glock calibre 9 mm sem registro, além de munições e coldres táticos.

O Siemaco Baixada Santista se posicionou a respeito da prisão do presidente:

Polícia aponta “postura intimidatória”

A forma como os armamentos estavam armazenados chamou atenção dos investigadores. Segundo a Polícia Civil, as armas estavam prontas para uso imediato, guardadas em coldres, o que indicaria uma postura voltada à intimidação.

Em nota, a investigação afirma que os elementos encontrados reforçam a suspeita de “utilização de métodos violentos e postura intimidatória para forçar paralisações e exercer domínio sobre a atividade sindical”.

A Justiça decretou a prisão preventiva de André Domingues de Lima, que também foi autuado no caso. Outras pessoas ligadas ao caso ainda devem prestar depoimento nos próximos dias.

A reportagem entrou em contato com o sindicato durante a tarde desta quinta-feira, mas não obteve respostas. Nos perfis oficiais das redes sociais, o órgão se manifestou. Confira o posicionamento na íntegra:

“O SIEMACO Baixada Santista vem a público prestar esclarecimentos acerca do cumprimento do mandado de prisão e de busca e apreensão expedido pela Justiça Pública em desfavor de seu presidente, Sr. André Domingues de Lima.

Desde o conhecimento da decisão judicial, todas as providências legais e necessárias estão sendo tomadas, em conformidade com os princípios que norteiam o Estado Democrático de Direito, que asseguram a ampla defesa, o contraditório e o devido processo legal.

Cabe ressaltar que o Sr. André Domingues de Lima é líder sindical e presidente do SIEMACO Baixada Santista há mais de 14 anos, estando em seu quarto mandato, nunca antes tendo qualquer tipo de problema judicial, notadamente na esfera criminal, não tendo sido preso ou processado anteriormente, sempre buscando, com afinco e ardor, conquistar os interesses dos trabalhadores pertencentes à categoria que, tão dignamente, representa, o que lhe rendeu, inclusive, o título de Cidadão Emérito da cidade de Santos, concedido pela Câmara Municipal, no ano de 2023.

Nesse sentido, solicitamos à imprensa e à sociedade que aguardem com serenidade o desfecho do caso, evitando julgamentos precipitados que possam comprometer a honra e os direitos fundamentais do Sr. André Domingues de Lima, que, no momento, vem colaborando ativamente para a apuração da verdade.

No momento oportuno, durante a instrução processual, todos os elementos probatórios necessários serão apresentados, demonstrando sua inocência frente às acusações que lhe foram imputadas, reafirmando a confiança na justiça.

Estamos à disposição para esclarecimentos adicionais, respeitando sempre os limites éticos e legais que envolvem o caso. Qualquer informação adicional será devidamente comunicada pelos canais oficiais”.

Greve afetou seis cidades da Baixada Santista

A paralisação dos trabalhadores da limpeza urbana ocorreu em março e afetou diretamente os serviços em Santos, São Vicente, Cubatão, Praia Grande, Guarujá e Bertioga.

Durante os dias de greve, diversos bairros registraram acúmulo de lixo e interrupções na coleta. As divergências relacionadas ao Programa de Participação nos Resultados (PPR) motivaram o movimento. Trabalhadores e sindicato alegavam falta de transparência nos cálculos e redução nos valores pagos pelas empresas responsáveis pelo serviço.

As negociações envolveram audiências no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Santos. Uma proposta intermediada pela Justiça chegou a ser apresentada aos funcionários, mas acabou rejeitada em assembleia.

Mesmo diante da insatisfação, os coletores decidiram encerrar a paralisação dias depois, retomando integralmente os serviços de limpeza urbana em toda a Baixada Santista.

Quem é “Fuzil”

Conhecido no meio sindical como “Fuzil”, André Domingues de Lima atua há anos no movimento trabalhista da região. Ele é filho de Alberico Rodrigues, ex-presidente do Sintraport, tradicional sindicato ligado ao Porto de Santos.

Segundo relatos públicos já feitos pelo próprio sindicalista, ele cresceu acompanhando discussões sobre direitos trabalhistas e organização sindical. André começou a atuar no Siemaco no início dos anos 2000 como assessor de base e, posteriormente, foi eleito presidente da entidade.

Nos últimos anos, ganhou notoriedade por liderar mobilizações da categoria na Baixada Santista, incluindo reivindicações salariais e ações durante a pandemia da Covid-19, quando defendeu prioridade na vacinação para trabalhadores da limpeza urbana.