Cotidiano

Praia brasileira com areia radioativa intriga cientistas e atrai turistas do mundo todo

Encontrada também em Meaípe, ela é tão rara que aparece apenas em poucos cantos do mundo, como China, Índia, Austrália e algumas regiões do Brasil

Ana Clara Durazzo

Publicado em 18/11/2025 às 08:30

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A areia escura que dá nome ao local é do tipo monazítica, formada por sedimentos naturalmente ricos em minerais pesados, terras raras e elementos radioativos em baixa intensidade / Divulgação

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Localizada a cerca de 58 quilômetros de Vitória, Guarapari é famosa pelo mar cristalino, pelas mais de 50 praias e pela extensa faixa litorânea que recebe milhares de turistas o ano todo. Mas é na Praia da Areia Preta, no coração da cidade, que mora seu maior mistério e um dos motivos que fizeram o município conquistar projeção internacional.

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A areia escura que dá nome ao local é do tipo monazítica, formada por sedimentos naturalmente ricos em minerais pesados, terras raras e elementos radioativos em baixa intensidade, como o tório.

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Encontrada também em Meaípe, ela é tão rara que aparece apenas em poucos cantos do mundo, como China, Índia, Austrália e algumas regiões do Brasil.

Em Guarapari, contudo, sua concentração é excepcional: 32 vezes maior do que a registrada em Porto Seguro (BA), segundo medições recentes.

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Da crença popular aos estudos científicos

A fama terapêutica da areia preta não é nova. Nos anos 1950 e 1960, pessoas viajavam de longe para se deitar sob o sol capixaba e cobrir o corpo com os grãos escuros — acreditava-se que a prática ajudava a aliviar dores nas articulações, reumatismos e problemas musculares. Entre os visitantes ilustres, estão Garrincha e Elza Soares, que buscaram tratamento natural para dores crônicas.

Décadas depois, a lenda ganhou respaldo acadêmico.

Pesquisas conduzidas pelo físico nuclear Marcos Tadeu Orlando, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), confirmaram o potencial terapêutico das areias monazíticas de Guarapari.

O estudo identificou elementos como ilmenita, granada, zirconita e diversas terras raras. Juntos, eles criam um ambiente singular que pode estimular o sistema imunológico.

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A explicação está na combinação de fatores ambientais:

spray d’água que vem das ondas;

magnetismo natural da areia;

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temperatura local, mais elevada;

e, principalmente, a liberação de radônio, um gás originado da areia.

Essa interação gera uma radiação natural de baixo nível, considerada saudável e capaz de estimular as defesas do organismo — um mecanismo que os pesquisadores comparam a uma 'vacina'.

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'Baixos níveis de radiação estimulam a defesa do corpo. Em Guarapari, a dose é pequena, mas suficiente para aumentar a imunidade. Ela não cura; ela previne', explica o professor Marcos Orlando.

Mas afinal: a areia é radioativa? 

Sim, mas sem perigo, segundo os pesquisadores.

O tório presente nas areias de Guarapari é radioativo e faz com que os grãos emitam um leve brilho, semelhante a adesivos fosforescentes. No entanto, sua radiação é considerada segura, medida em becquerel por quilo, e não representa ameaça à saúde. A ausência de urânio, elemento mais perigoso, reforça a segurança do local.

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Além disso, especialistas alertam que tirar a areia da praia elimina qualquer efeito terapêutico, já que seu benefício depende do ambiente — temperatura, radiação natural e umidade do mar.

Que doenças podem ser prevenidas?

Apesar de não ter poder de cura, turistas e moradores procuram as praias monazíticas principalmente para buscar alívio ou prevenção de:

reumatismos

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artrites

mialgias

nevralgias

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dores musculares

Estudos mais recentes também investigam a possibilidade de a areia contribuir na prevenção de câncer de pele. Em pesquisa conjunta com a Universidade da Colômbia, resultados preliminares mostraram regressão de tumores cutâneos em ratas expostas à areia monazítica.

Fenômeno raro: Brasil é potência em terras raras

Embora existam registros de areias monazíticas em outros países, Brasil e Austrália concentram as maiores quantidades do mundo. No território brasileiro, elas ocorrem principalmente:

no Espírito Santo (maior concentração do país)

na Bahia

no Rio de Janeiro

No Espírito Santo, além de Guarapari, outros estudos investigam o litoral de Anchieta, no Sul do estado, para verificar se as propriedades terapêuticas se repetem.F

Enquanto a ciência avança para decifrar por completo seus efeitos, as areias monazíticas seguem como símbolo do encontro entre natureza, saúde e mistério — um patrimônio raro que faz de Guarapari um destino único no mundo.

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