Cotidiano

Porto de Santos prepara expansão histórica que mudará a economia do Brasil; entenda

Trata-se de uma mudança estrutural, silenciosa, que pretende definir o complexo portuário santista das próximas décadas

Márcio Ribeiro, de Peruíbe para o Diário do Litoral

Publicado em 24/02/2026 às 14:24

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Decisão é considerada inédita: expandir o porto não com concreto imediato, mas com planejamento territorial / Divulgação/APS

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Nota: As informações deste texto são do canal Construction Time.

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O dia começa cedo no Porto de Santos. Antes mesmo de a cidade despertar, o som metálico das amarras ecoa pelo estuário da Baixada Santista. Guindastes recortam o horizonte ao amanhecer, navios aguardam a janela de atracação, caminhões disputam acesso e trens seguem carregados até o limite.

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Nesse cenário, cada metro quadrado conta. E quando um dos maiores portos da América Latina passa a operar no limite do próprio território, a pergunta deixa de ser “quanto crescer?” para se transformar em “onde crescer?”.

É nesse contexto que surge uma decisão considerada inédita: expandir o porto não com concreto imediato, mas com planejamento territorial. A proposta prevê uma ampliação de 12,6 milhões de metros quadrados, redesenhando o mapa portuário regional.

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Trata-se de uma mudança estrutural, silenciosa, que pretende definir o porto das próximas décadas e impactar diretamente a logística, o planejamento urbano e o futuro do maior complexo portuário do Brasil.

Um novo desenho territorial

O porto está inserido no estuário da Baixada Santista, distribuído entre as margens de Santos e Guarujá, com influência direta sobre Cubatão e São Vicente. Ao longo das décadas, o crescimento ocorreu de forma integrada à malha urbana e industrial, compartilhando espaço com vias estruturais e bairros consolidados - fator que tornou o território elemento crítico para a operação.

Atualmente, a poligonal do porto organizado abrange cerca de 7,8 milhões de m², considerando áreas terrestres e aquáticas sob gestão da autoridade portuária.

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A proposta de ampliação eleva esse número para aproximadamente 20,4 milhões de m², com incorporação de 12,6 milhões de m² distribuídos em municípios da região metropolitana.

Essas áreas incluem retroáreas logísticas, zonas industriais ocupadas e espaços estratégicos ainda não explorados. O objetivo é reorganizar fluxos, planejar novos acessos e distribuir operações de forma mais compatível com a realidade urbana e logística regional.

Mais do que ampliar fisicamente o porto, a nova poligonal redefine limites legais e cria base para atualização do Plano de Desenvolvimento e Zoneamento. A necessidade de replanejamento reflete um cenário recente de crescimento acelerado.

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Área portuária compartilhando espaço com a malha urbana de Santos e Guarujá, cenário que reforça a necessidade de reorganização territorial / Fotos: Divulgação/APS
Área portuária compartilhando espaço com a malha urbana de Santos e Guarujá, cenário que reforça a necessidade de reorganização territorial / Fotos: Divulgação/APS
Movimentação de contêineres em terminal do Porto de Santos, segmento que deve ganhar pátios maiores com a nova poligonal
Movimentação de contêineres em terminal do Porto de Santos, segmento que deve ganhar pátios maiores com a nova poligonal
Vista aérea do Porto de Santos no início das operações, com navios atracados e guindastes em atividade no estuário da Baixada Santista
Vista aérea do Porto de Santos no início das operações, com navios atracados e guindastes em atividade no estuário da Baixada Santista
Retroáreas logísticas projetadas para funcionar como "pulmões operacionais", reduzindo a pressão sobre acessos urbanos
Retroáreas logísticas projetadas para funcionar como "pulmões operacionais", reduzindo a pressão sobre acessos urbanos
Operação ferroviária integrada ao complexo santista, modelo que tende a ser ampliado com novos pátios internos e conexões dedicadas
Operação ferroviária integrada ao complexo santista, modelo que tende a ser ampliado com novos pátios internos e conexões dedicadas

Recordes e gargalos

Nos últimos anos, o Porto de Santos passou a operar acima das projeções dos próprios instrumentos de planejamento. Segundo dados do governo federal, o complexo fechou 2025 com recorde histórico de movimentação: 186,4 milhões de toneladas de cargas.

O aumento no volume de contêineres, granéis sólidos e líquidos trouxe ganhos econômicos, mas também expôs gargalos estruturais. Retroáreas, acessos viários e interfaces urbanas passaram a operar sob pressão, especialmente em regiões onde porto e cidade compartilham o mesmo espaço físico.

Além disso, revisões sucessivas da poligonal nos últimos anos geraram insegurança jurídica, com inclusão e exclusão de áreas em intervalos curtos. O cenário dificultou o planejamento de longo prazo e ampliou a incerteza para operadores e investidores.

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A proposta atual consolida estudos técnicos concluídos em 2024 e submetidos à consulta pública em 2025. O objetivo declarado é dar previsibilidade, coerência territorial e base legal ao crescimento futuro.

Etapa decisiva

A ampliação ainda está em fase administrativa. A revisão da poligonal passou por audiência pública e por consulta nacional conduzida pelo Ministério de Portos e Aeroportos no primeiro semestre de 2025, recebendo 29 contribuições formais analisadas pela Secretaria Nacional de Portos.

Após análise preliminar, o material técnico foi devolvido à Autoridade Portuária de Santos (APS) para consolidação e ajustes finais.

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O passo seguinte é a publicação de portaria ministerial que oficializa os novos limites do porto organizado. Somente após esse ato a nova poligonal terá validade legal e poderá ser incorporada aos instrumentos de planejamento.

O que muda na prática

Com a oficialização, áreas hoje sujeitas a restrições legais e de licenciamento poderão receber obras portuárias e retroportuárias.

Entre as primeiras estruturas previstas estão grandes retroáreas logísticas, concebidas como “pulmões operacionais”. Elas poderão abrigar pátios de caminhões, áreas de consolidação e desconsolidação de cargas, centros de inspeção e triagem, reduzindo a pressão sobre acessos urbanos e o entorno imediato dos terminais.

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No segmento de granéis líquidos, regiões como a Alemoa poderão comportar novos tanques, bacias de contenção ampliadas, casas de bombas, plataformas rodoviárias e ramais dedicados, formando conjuntos operacionais mais concentrados e seguros.

Para granéis sólidos, a expansão permitirá pátios mais profundos, correias transportadoras mais extensas e layouts menos fragmentados, reduzindo interferências cruzadas e manobras internas complexas.

No setor de contêineres, a ampliação territorial viabiliza terminais com pátios maiores, mais pilhas, vias internas amplas e integração mais eficiente com a ferrovia, algo hoje limitado pela falta de espaço.

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Também estão associados à nova poligonal projetos de acessos estruturais, como perimetrais adicionais, viadutos dedicados, passagens em desnível e conexões diretas entre terminais e rodovias, separando de forma mais clara o tráfego portuário do urbano.

A expansão ainda sustenta propostas ligadas ao aprofundamento do canal de acesso, geralmente discutidas como evolução do patamar operacional. Capacidade, segurança da navegação e eficiência passam a caminhar juntas quando o porto amplia seu território.

Além dos grandes terminais, abrem-se oportunidades para armazéns alfandegados, centros logísticos, oficinas de manutenção, bases operacionais e instalações industriais leves voltadas às cadeias logísticas.

A dimensão da expansão

O crescimento previsto é de 162% em relação à área atual. Os 12,6 milhões de m² incorporados equivalem a cerca de 1.760 campos de futebol padrão FIFA. Somadas área atual e nova área, o porto passaria a ocupar espaço equivalente a quase 2.800 campos de futebol, entre áreas operacionais, retroáreas, acessos e zonas aquáticas.

Em termos urbanos, é como incorporar um bairro inteiro de porte médio voltado exclusivamente à logística.

No cenário internacional, mesmo ampliado, Santos não alcança gigantes como o Porto de Rotterdam, que possui cerca de 125 km², mas deixaria de operar com limitação territorial típica de portos urbanos compactos.

Para comparação, o Porto de Los Angeles declara aproximadamente 30 km² de área. Mesmo após a ampliação, Santos ainda seria menor, mas passaria a integrar uma ordem de grandeza compatível com grandes hubs internacionais.

No contexto nacional, o complexo ampliado superaria, em área organizada, a soma de diversos portos brasileiros de médio porte.

Impactos econômicos e planejamento de longo prazo

A ampliação cria condições para crescimento sem repetição de gargalos passados. Com mais território sob gestão portuária, torna-se possível planejar expansões com antecedência, distribuir melhor os tipos de carga e reduzir conflitos com áreas urbanas sensíveis.

Do ponto de vista econômico, novas áreas permitem arrendamentos de longo prazo, atraem investimentos privados e ampliam a capacidade de atendimento do comércio exterior brasileiro. Cada projeto destravado implica geração de empregos, fortalecimento de cadeias de fornecedores e aumento de arrecadação.

Mais do que crescer em volume, o porto busca crescer com previsibilidade, atributo fundamental para um ativo logístico que sustenta parcela significativa da economia nacional.

A ampliação de 162% ainda não se traduz em canteiros de obras visíveis, mas representa uma decisão estrutural. Antes do concreto, vem o planejamento. Antes da expansão física, o espaço legal que a torna possível. É dessa forma que o maior porto do Brasil se organiza para continuar crescendo.

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