Por trás dos grandes shows na Baixada; conheça as histórias de Rogélio, Vanir e Bira

Três produtores e empresários da noite da Baixada Santista falam das mudanças no setor nos últimos 30 anos; crise econômica, altos cachês e nova forma de negócio alteraram o mercado

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03 JUL 2017Por Diário do Litoral11h38

As cifras que movimentam a indústria do entretenimento são altas. Quem vive da noite, por trás da produção de shows, diz que para se manter no mercado é preciso responsabilidade, credibilidade e fidelidade com o público. Na Baixada Santista, o número de casas voltadas apenas para apresentações musicais diminuiu nos últimos anos. Crise econômica, altos cachês e uma nova forma de negócio no setor são apontados como os principais fatores para a queda. Aqueles que resistem não reclamam e falam com prazer das conquistas que tiveram ao longo do tempo.

“De uns cinco anos para cá a crise financeira afetou a noite. As pessoas estão gastando menos. Nós contratamos e pagamos 50% do cachê como garantia mínima e a parceria é direto com o escritório do artista. Antigamente, o bar era da casa, mas os escritórios perceberam que tinham um produto bom na mão, então preferem locar o espaço com bar e tudo. Hoje os trâmites são feitos online, via internet e não é necessário presença física para resolver pendências, nisso os produtores locais perderam espaço”, destacou o empresário Rogélio Alves, 54 anos, proprietário de uma das maiores casas de shows da Baixada Santista, a Titanium Music Hall, em São Vicente.

História

Rogélio é do ramo da construção civil. Em 1998, após insistência de um ‘casal de forrozeiros’, decidiu abrir uma casa de shows em Praia Grande. Nasceria ali a Boulevard Chopperia, que ficou aberta por 18 anos e foi palco para grandes nomes do cenário musical. “Eles surgiram falando para deixar fazer um evento. Eu achava que isso não ia dar certo. O meu prédio era de material de construção e eu não entendia nada da noite. Mas, de tanto insistirem, fui pesquisar casas de shows em São Paulo e no litoral. Fui até o Avelinos, em Guarujá, e quando vi a quantidade de gente pensei vou adaptar o meu prédio, que está parado, e investir nisso”, afirmou.

O primeiro show da casa foi do cantor Amado Batista e do grupo de axé Companhia do Pagode, que fazia sucesso na época. “Havia uma casa concorrente na Praia Grande do mesmo segmento, mas com maior visibilidade. O resultado foi que perdi um bom dinheiro no primeiro show. Contratei um produtor de eventos e, em pouco tempo, levantei a casa. Aprendi a trabalhar e não parei mais. O que construí de patrimônio da minha família, de lá para cá, foi da noite”, destacou Rogélio.

O empresário diz que não gosta de música e afirma que esse pode ser um dos segredos que o mantém no ramo até hoje. “Casa noturna tem vida curta porque o público migra muito, gosta de novidade. Se tiver um lugar bonito e climatizado, mas abrir outro que não dá tanto conforto, eles vão para lá. Não gosto de música. As casas duram pouco porque o dono quer tocar o que ele gosta e não o que o público quer. Tudo na vida tem que ter um paladar apurado. Vivo prestando atenção no que está em evidência e no que as pessoas estão ouvindo. Não rotular um tipo de segmento é importante”, ressaltou.

Diferenças

Na noite a quase 20 anos, o empresário disse que muita coisa mudou nesse período. Se antes a divulgação dos shows dependia das rádios e de cartazes espalhados pelos muros das cidades, hoje a internet virou uma das principais aliadas. A venda dos ingressos também é diferente.

“Em 1998 os ingressos eram comprados na bilheteria e nos pontos de venda, hoje boa parte é comprado no cartão de crédito e online. Para se ter uma ideia, quando comecei os ingressos eram vendidos em lojas de CD na região, então aproveitava para ter um termômetro do que o público mais ouvia através de informações dos CDs mais vendidos”, afirmou Rogélio.

Antigamente a bilheteria era a o melhor retorno financeiro. O posto hoje é ocupado pelas bebidas. “O bar dá tanto ou mais que a bilheteria. Já fiz show que a bilheteria rendeu R$ 50 mil e o bar R$ 90 mil. O show é um produto de ilusão. Se não der certo tenho que pagar o artista de qualquer jeito. Já a bebida, se não vender, não tem problema. Fica para o outro evento. O lucro da bebida é significativo”, destacou.

Sucesso

Diante do sucesso da Boulevard, em Praia Grande, Rogélio resolveu investir em outro espaço, dessa vez em São Vicente. Há oito anos inaugurou a Fantastic Chopperia, que foi reformulada recentemente e recebeu o nome de Titanium Music Hall. A casa recebe grandes shows de todos os segmentos e é considerada uma das principais da região, com capacidade para até cinco mil pessoas. O estabelecimento gera 160 empregos diretos. O segredo para o sucesso, segundo o empresário, é prezar pela segurança do público e manter uma boa imagem no setor.

“Temos todos os alvarás, emitimos nota fiscal eletrônica. Somos a única casa com alvará da Polícia Federal, que é difícil ter, pois eles exigem e fiscalizam todas as garantias de segurança que a casa oferece e consta nos laudos e na planta do prédio. Tomar conta do público com muita segurança é um dever de quem vive da noite. Ele tem de se sentir seguro. Nós somos uma empresa de verdade”, afirmou. No escritório da casa noturna, o empresário trabalha com o filho e secretárias que o acompanha há anos.

Os prejuízos da noite também foram destacados por Rogélio à Reportagem. “Numa noite o que é perder dinheiro para você? Perder R$ 50 mil numa noite é normal e rotineiro nesse ramo. Perder R$ 300 mil é não é normal. É muito ruim. Não dá para ser amador. A noite é um bom negócio, mas é preciso de experiência e crédito. No meio ter conceito é bom. A imagem de bom pagador é tudo”.

O show dos cantores Wesley Safadão e Nego do Borel, dois dos artistas mais caros da atualidade, realizado durante a última temporada de verão, no kartódromo de Praia Grande, foi produzido pelo empresário. O evento, considerado sucesso de público e estrutura, custou mais de R$ 1 milhão.

“Empresário costuma reclamar, mas eu não gosto. Dificuldades têm, mas prefiro não vê-las. Não me arrependo de ter entrado no ramo. Também trabalho com a construção civil, mas o que construi de patrimônio da minha família, de lá para cá, foi da noite. Trouxe grandes nomes da música para Praia Grande e São Vicente. Há muito preconceito. Aquele bairrismo de tudo se concentrar em Santos foi quebrado e me orgulho disso. O povo tem que sair e divertir. É direito dele”, destacou Rogélio.

Vanir: Da MPB ao pagode dos anos 90 em Santos

Os olhos do empresário e produtor da noite Vanir Matteo brilham ao lembrar sua trajetória. Passou por grandes gravadoras de discos e, entre as décadas de 1970 e 1980, ajudou na divulgação e lançamento de grandes nomes da música brasileira no estado de São Paulo. No auge do pagode, nos anos 1990, o escritório que montou em Santos foi responsável pelos shows dos principais grupos do gênero na Baixada Santista.

“Jorge Bem Jor, Vinicius de Moraes, Toquinho, Maria Medalha, Trio Mocotó, João Nogueira, Caetano Veloso, Gal Costa, Sidney Magal, Alcione, Emílio Santiago. São tantos os nomes. Eles eram da gravadora e a minha missão era divulga-los nas rádios. Lembro do dia que Elis Regina morreu. Estava na Rádio Clube de Santos com Jair Rodrigues e todos queriam falar com ele”, ressaltou Vanir, que passou pelas gravadoras Polygram, RGE e Companhia Industrial de Discos (CID) como divulgador e vendedor de LPs. 

Com o fechamento da Polygram, após 20 anos de gravadora, ele perdeu o emprego e mudou-se para Santos. “Um amigo me convidou para ser sócio em posto de gasolina, como a família da minha esposa na época morava aqui decidi aceitar o desafio”.

O posto ficava localizado em um importante ponto da Avenida Ana Costa. Vanir conta que os artistas que ajudou a divulgar, quando vinham a Santos passavam pelo estabelecimento. Um circo, montado ao lado do local, motivaria o empresário a largar o ramo de combustíveis e voltar a trabalhar com a música e o entretenimento. “Na época o posto fez a promoção do show da Xuxa, na Vila Belmiro. O Tanah (Correia) trouxe um circo e o contato com os artistas me fez se envolver novamente no ramo”.

Já era década de 1990 quando montou a empresa Solução Eventos. O escritório, no período, foi responsável pela produção de grandes shows como Roupa Nova e de grupos de pagode, que tiveram grande ascensão na época. “Fui representante do Exaltasamba por 25 anos no litoral. Me fortaleci nesse segmento e lancei grupos locais como Tempero, Matéria Prima e Grupo Família que fizeram sucesso fora da região. Sem contar os shows do Sensação, Art Popular, Os Travessos, Katinguelê, Soweto, Raça Negra”, relembrou.

Vanir destacou que para se firmar na noite e com produção de shows é preciso parceria, conceito e fidelidade para com o público. “Hoje estou inserido em um grupo de empresários do samba do Brasil inteiro. O mercado sobe e desce e é preciso preservar o nome. Produção é responsabilidade. Envolve divulgação do evento, imagem do artista, preocupação com todos os detalhes da retaguarda do show. São poucos que continuam nisso por muito tempo. Manter bons relacionamentos é essencial”.

Há três anos, Vanir fechou o escritório, que foi transferido para o smartphone. Hoje atua na divulgação de artistas e eventos em uma casa de show em Praia Grande e no Salão de Mármore do Santos Futebol Clube, às segundas-feiras. “A internet veio para ajudar. Tudo o que preciso posso resolver por aqui. As dificuldades estão maiores. A crise econômica afetou muito o setor. Os cachês não condizem com o poder aquisitivo da população. Mas mesmo com as dificuldades não me arrependo. Minha vida é a noite e não penso em fazer nada além disso”, afirmou.

Bira: Fitas K7, Furacão 2000 e uma história na noite

O empresário e produtor Ubiraci de Araujo, de 52 anos, o Bira, trabalha na noite há 27 anos. Apesar de comandar uma casa de eventos eclética e promover shows de artistas variados, ele tem uma história forte com a introdução dos shows de funk, nos anos 1990, na Baixada Santista. Assim como Rogélio e Vanir, ele também destaca a crise no setor e as mudanças que houve ao longo do tempo.

“A crise afetou todos os setores, mas a diferença é que o cachê aumentou muito. O escritório do artista cobra mais alto para ele mesmo fazer. Pegam um produtor local para divulgar, porque com a internet as pessoas chegam em qualquer lugar. A bebida virou atração. Se não tiver é complicado fazer virar um evento e ganhar com bilheteria”, explicou Bira.

Bira trabalhava na extinta Cosipa quando decidiu migrar para a música. “Gravava fitas de música em casa para vender. Para a produção de eventos foi um pulo. Não parei mais. Meu primeiro show foi com o Sampa Crew. Eles estavam começando. Trabalhei com a Zimbabwe e o Racionais MCs”, lembrou.

A relação com o funk surge quando ele vai ao Rio de Janeiro, levar os MCs Jorginho e Daniel para gravar um CD. “Foi a primeira dupla de Santos a gravar. Eles gravaram com o produtor da antiga Furacão 2000. Era meados de 1994 e 1995. Lá descobrimos o Catra e o trouxemos pela primeira vez na Baixada Santista. Fizemos o primeiro baile funk aqui. Não era funk de apologia a drogas e que explora sexualmente a mulher. Os shows do Claudinho e Buchecha no clube Jabaquera (clube) foi nós que trouxemos”, destacou.

Bira montou a rádio comunitária Digital FM, que ficou conhecida como emissora funk apesar da programação diversificada. “Era muito ouvida. Cheguei a receber a visita gerente da companhia de telefone na época dizendo que a chuva de ligações que recebíamos estava congestionando as linhas. Acabou sendo fechada pela pressão das grandes rádios”, afirmou.

Bira relembra o baile da Furacão 2000 que realizou no Atlético Clube, em Santos. “Ficou lotado. Não cabia mais ninguém. O pessoal ficou lá fora. A Baixada Santista era a capital do funk fora do Rio de Janeiro. Hoje, os MCs mais caros são de São Paulo capital. No Rio de Janeiro o top é o Nego do Borel. A Baixada Santista também perdeu espaço e o funk enfraqueceu”, afirmou.

Outro momento destacado pelo produtor foi do show da Legião Urbana, o último da banda com Renato Russo, em Santos. “Trabalha na Reggae Night na época. A casa teve que construir um camarim de R$ 140 mil para receber o show. As exigências são muitas. Tudo tem que estar impecável. É aí que as casas não aguentam”, afirmou Bira.

Nome

O produtor ressalta a importância de preservar o nome na noite. Apesar da forte relação com a história do funk na Baixada Santista, hoje Bira comanda uma casa de eventos no Centro de São Vicente, a Barcelona, e é um dos responsáveis pelo evento Beach Color, além da produção de grandes shows.

“Em 27 anos tive o cuidado de preservar meu nome. Na noite ninguém fala mal de mim. Tem gente que acha que vender show é fácil, que vai vender na porta, na rua, mas não é. Tem ter muito cuidado. Já vi gente perder tudo o que tinha nisso. Tem que ter responsabilidade”, destacou.

Para Bira, o que falta na Baixada Santista é um grande espaço para eventos. “Hoje não temos muitos locais que comportem um público grande. O empresário que investir em uma casa com capacidade para 10 mil pessoas, com estrutura boa, pode cruzar os braços que os próprios artistas vão procurar. Os artistas hoje negociam o próprio evento e querem ser sócio dele. A Baixada merece esse tipo de espaço”, afirmou.