Por que a fome oculta gerada por dietas de influenciadores está deixando uma geração mais ansiosa

O consumo exagerado de cafeína e energia bloqueia ou relaxa e pode desencadear taquicardia, tremores e insônia, mimetizando os sintomas físicos de um ataque de pânico

Estudos sobre o eixo intestino-cérebro revelam que uma microbiota saudável, alimentada por fibras e itens fermentados, atua diretamente na redução do estresse e na regulação emocional/Pexels

Estudos sobre o eixo intestino-cérebro revelam que uma microbiota saudável, alimentada por fibras e itens fermentados, atua diretamente na redução do estresse e na regulação emocional/Pexels

Em meio ao crescimento expressivo dos transtornos de ansiedade entre o público jovem, uma pergunta tem ganhado destaque nos consultórios de nutrição, o que esses jovens colocam no prato pode influenciar diretamente a intensidade das crises e oscilações de humor?

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A resposta, segundo a nutricionista Ana Carolina Lavio Rocha, doutoranda e mestre em saúde coletiva e professora do curso de graduação em nutrição da FMU, é sim. “Embora a ansiedade seja uma condição multifatorial, a alimentação pode contribuir tanto para a melhora quanto para o agravamento dos sintomas”, afirma.

Dietas ricas em alimentos ultraprocessados, açúcares adicionados e gorduras de baixa qualidade estão associadas a maiores níveis de inflamação no organismo. Consequentemente, esses hábitos impactam negativamente neurotransmissores fundamentais para a regulação do humor, como serotonina e dopamina.

Por outro lado, uma alimentação equilibrada, com frutas, verduras, legumes, grãos integrais e oleaginosas, fornece nutrientes essenciais para o funcionamento adequado do cérebro.

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Cafeína, energéticos e açúcar

Outro ponto importante é o consumo exagerado de cafeína, bebidas energéticas e açúcar, que é bastante comum entre os jovens. Pesquisa recente realizada pela empresa Kantar indica um aumento no consumo, alcançando 38% dos lares brasileiros. Essa alta também é registrada fora dos domicílios, como em bares, com 22% do público. Mas como essas substâncias agem no sistema nervoso?

A nutricionista explica que a cafeína bloqueia a adenosina, substância que promove relaxamento e sono. Como resultado, ocorre aumento do estado de alerta, da frequência cardíaca e da liberação de adrenalina. “Quando consumida em excesso, especialmente por indivíduos mais sensíveis, a cafeína pode desencadear taquicardia, tremores, inquietação, sudorese e dificuldade para dormir, sintomas muito semelhantes aos de uma crise ansiosa”, alerta.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria, crianças com menos de 12 anos não devem consumir cafeína. Já adolescentes entre 12 e 18 anos não devem ultrapassar 100 mg por dia (cerca de uma xícara pequena de café).

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Os energéticos merecem atenção redobrada, pois combinam altas doses de cafeína com outros estimulantes e grande quantidade de açúcar. O excesso de açúcar, por sua vez, provoca picos rápidos de glicose seguidos por quedas bruscas, gerando cansaço, irritabilidade e dificuldade de concentração, fatores que intensificam a percepção dos sintomas ansiosos.

Eixo intestino-cérebro

Hoje a ciência já sabe que intestino e cérebro mantêm uma comunicação constante por meio do chamado eixo intestino-cérebro. Essa interação envolve sistema nervoso, sistema imunológico, hormônios e substâncias produzidas pelas bactérias intestinais.

Uma microbiota saudável contribui para a produção de metabólitos benéficos e participa da síntese de neurotransmissores relacionados ao bem-estar. Além disso, ajuda a reduzir processos inflamatórios que afetam a função cerebral.

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O consumo regular de fibras, presentes em frutas, verduras, legumes, aveia, leguminosas e cereais integrais, favorece o crescimento dessas bactérias benéficas. Alimentos fermentados, como iogurte, kefir e fermentados vegetais, também contribuem para a diversidade da microbiota.

“Embora não sejam uma solução isolada para ansiedade ou depressão, hábitos alimentares que favorecem a saúde intestinal podem representar um importante aliado na promoção do equilíbrio emocional”, conclui Ana Carolina.

Os alimentos que ajudam a produzir serotonina

A serotonina, neurotransmissor associado ao bem-estar, depende da disponibilidade de nutrientes específicos. Entre os alimentos ricos em triptofano, aminoácido precursor da serotonina, destacam-se:

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  • Ovos, leite e derivados, peixes, frango
  • Feijões, lentilhas, grão-de-bico, soja e derivados
  • Castanhas, nozes, sementes de abóbora e gergelim
  • Já as fontes de magnésio incluem castanhas, amêndoas, sementes, aveia, espinafre e feijões. As vitaminas do complexo B podem ser encontradas em carnes, ovos, leite e derivados, leguminosas, vegetais verde-escuros e cereais integrais.

A especialista faz um alerta, porém “Não existe um alimento isolado capaz de aumentar a serotonina. O benefício está no padrão alimentar saudável e consistente ao longo do tempo”.

Erros comuns ao tentar ser saudável por conta própria

Diante de tantas dietas restritivas e coreografias de treino que viralizam nas redes sociais, os jovens cometem erros frequentes:

  • Excluir grupos alimentares sem necessidade, como os carboidratos
  • Consumir suplementos sem orientação profissional
  • Pular refeições
  • Adotar dietas extremamente restritivas
  • Copiar dietas de influenciadores sem avaliação individual

“Muitos jovens acreditam que quanto mais restritiva for a dieta, mais rápido será o resultado”, alerta a nutricionista.

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Dieta muito restritiva pode piorar a ansiedade

O cérebro é altamente dependente de energia, especialmente de glicose. Quando a ingestão calórica é insuficiente por períodos prolongados, o organismo entra em um estado de adaptação que compromete diversas funções fisiológicas.

Dietas muito restritivas podem reduzir a disponibilidade de nutrientes essenciais para a produção de neurotransmissores, aumentar a sensação de cansaço, prejudicar a concentração e reduzir o rendimento físico e cognitivo. Além disso, a baixa ingestão energética eleva os níveis de estresse fisiológico, favorece alterações hormonais e aumenta a irritabilidade e a ansiedade.

Em pessoas que treinam, esse cenário é ainda mais preocupante, pois o exercício aumenta a demanda energética e nutricional do organismo.

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“Quando o objetivo é melhorar a composição corporal, ganhar massa muscular ou emagrecer, a estratégia deve ser baseada em planejamento individualizado e não em restrições extremas. Saúde mental, exercício físico, sono e alimentação adequada caminham juntos”, conclui Ana Carolina Lavio Rocha.