Por apostila, alunos da EJA são obrigados a sair de casa em Praia Grande

Educação está forçando os estudantes a pegarem apostilas nas escolas

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07 AGO 2020Por Carlos Ratton08h00
Faixas exigem a presença dos alunos da EJA em Praia GrandeFoto: Divulgação

Em Praia Grande, durante a pandemia, cerca de 1.500 alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) estão sendo obrigados a sair de casa e pegar as apostilas de estudos nas quatro unidades de ensino que oferecem o curso se não quiserem perder o semestre.

Um exemplo é uma faixa afixada na Escola Municipal Albert Einstein. Mas o procedimento atinge também as unidades municipais de ensino São Francisco de Assis, José Padim Mouta e Roberto Shoji. No Facebook, professores estão até alertando a retiradas das atividades e avaliações na escola, para serem corrigidas e validadas para aprovação. Os alunos fazem provas semestrais. Por conta da pandemia, o encerramento do semestre letivo será no próximo dia 16.

A situação está ocorrendo principalmente porque os alunos têm dificuldades em se adaptar ao estudo online. Ela foi representada (denunciada) no Ministério Público (MP), pelo professor Odair Bento Filho.

O educador quer que o MP impeça retenção escolar ou cancelamento de matrículas no momento de pandemia, pois não acredita ser justo serem penalizados sem oferecer uma forma segura de estudar. Além disso, argumenta que o Conselho Nacional de Educação recomenda evitar reprovação este ano.

"A cidade já registrou mais de 6 mil casos de Covid-19 confirmados, 155 óbitos e a Secretaria de Educação adota esse procedimento, porque a maioria do alunos não consegue acessar as plataformas digitais, não tem Internet em casa e nem celulares com acessos rápidos. São alunos de baixa renda e que também não conseguem ler textos em formatação pequena porque são idosos. Por isso, sair de casa, ficar em ônibus cheio e até ir a pé pegar apostilas e depois levar a prova é perigoso", explica Odair Bento.

Interferência

O professor lembra que a situação precisa de uma interferência do MP pois a EJA atende alunos, em sua maioria, de baixas classes sociais que encontram na Educação a oportunidade de uma vida melhor. O contingente também é formado por alunos da faixa etária de 18 a 50 anos, que trabalham e sabem que somente com o ensino médio concluído poderão galgar melhores espaços no mercado de trabalho e obter melhores condições para viver.

O educador argumenta ao MP que os alunos da EJA, por natureza, sofreram com o desemprego, com a redução salarial, com o auxílio emergencial, sendo que alguns nem receberam. "Esse cenário reflete no desempenho estudantil pois, na Educação, as variáveis sócio-econômico-familiares influenciam na aprendizagem. E, ainda, por termos alunos com idades avançadas, é necessário manter o isolamento total como medida protetiva", afirma o educador.

Evasão

O professor lembra que dados nacionais apontam que a reprovação no momento de pandemia pode aumentar a evasão escolar. "No caso da EJA, a evasão já é muito grande por conta do tempo que a pessoa ficou fora da escola, por falta de autoestima, de condições financeiras e até pelo cansaço do trabalho, visto que as aulas são noturnas. Se manter a avaliação tradicional, mais pessoas vão desistir de estudar", acredita.

Ele insiste que a Rede Municipal, por intermédio de seus regimentos, adota equivocadamente baixa frequência na EJA como meio de cancelar a matrícula do aluno faltoso. "No campo da empatia, durante uma pandemia, deveríamos reavaliar tal procedimento. Essa prática, certamente, não seria adotada na educação regular. Estamos num momento grave. Totalmente crítico. As escolas públicas não podem, nesse momento, debater reprovação escolar", finaliza.

Prefeitura

A Prefeitura Praia Grande, por intermédio da Secretaria de Educação (Seduc), informa que está debatendo o tema. Desta forma, a Seduc busca uma resolução com o objetivo de evitar maiores transtornos para os alunos da Eja. Revela ainda que é importante explicar que a disponibilização do conteúdo impresso tem como objetivo oferecer um material didático que possa funcionar como base para os alunos seguirem com seus estudos neste período de pandemia.