População de rua denuncia abordagem truculenta em São Vicente

Equipes estariam expulsando moradores da área central e oferecendo passagens para ida a São Paulo

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09 FEV 2017Por Rafaella Martinez08h00
Prefeitura afirma que a abordagem social da Assistência Social é sempre pautada pelo respeito à condição humana e pelo diálogo e promoção da qualidade de vidaPrefeitura afirma que a abordagem social da Assistência Social é sempre pautada pelo respeito à condição humana e pelo diálogo e promoção da qualidade de vidaFoto: Rodrigo Montaldi/DL

“Eles passam de madrugada, acordando no grito ou na porrada. Falam que não pode mais dormir no Centro, porque isso prejudica o comércio. A gente sempre teve uma regra de acordar cedo e sair para não prejudicar as lojas, mas agora está complicado. Falam para a gente dormir em lugares mais afastados e temos medo de fazer isso justamente porque não sabemos o que pode acontecer com a gente nesses lugares. Se nós recusamos nos oferecem passagens para São Paulo. Querem limpar o problema. As pessoas saíram do Centro, quem ajudava deixou de ajudar porque não vê mais ninguém. Invisíveis nós sempre fomos, mas agora parece que a meta é fazer com que a gente não exista mais”.

A fala foi transcrita integralmente de um diálogo com um homem em situação de rua que preferiu não se identificar no sábado (28) às 3h17 na Praça do Correio, em São Vicente. A situação foi narrada por outras oito pessoas e confirmada por moradores dos prédios da Praça 22 de Janeiro, no Gonzaguinha. De acordo com todos os denunciantes, a equipe que passa veste uniforme azul com os dizeres ‘abordagem de rua’.

Questionada, a Prefeitura de São Vicente se limitou a dizer que a abordagem social realizada pelas equipes da Secretaria de Assistência Social é sempre pautada pelo respeito à condição humana e pelo diálogo e promoção da qualidade de vida. A Administração não respondeu, no entanto, se a referida equipe faz parte do quadro fixo de agentes da Assistência Social.

O fato é que as praças, anteriormente ocupadas por até três dezenas de pessoas durante as noites estão vazias. O motivo para a debandada, no entanto, parece estar na contramão da assistência social.

“Sexta-feira passada um pessoal estava dormindo ali na (Rua) João Ramalho quando a galera passou cedinho. Foram três homens e uma mulher. Eles acordaram com violência quem estava dormindo e levaram embora um carrinho de uma moça que estava passando, sem mais nem menos. Falam que não importa para onde vamos, mas que temos que sair da área central”, aponta o catador de materiais recicláveis Carlos Roberto, de 57 anos.
Martins Meneguel, de 63 anos, também confirma a informação. “Sempre fui muito bem atendido no Centro POP. Não estamos entendendo essa abordagem”, enfatiza.

Na Praça Barão, onde muitas pessoas dormiam anteriormente, vimos marmitas recém-abandonadas, como se a saída de lá tivesse acontecido de forma repentina e autoritária há pouco tempo. Moradores encontrados em outros trechos afirmaram que no dia 28 a referida equipe havia passado pelo local por volta das 22h.

O Diário do Litoral seguirá acompanhando de perto essa situação.

Moradores também relatam ocorrências

Morador de um prédio na Praça 22 de Janeiro, o microempreendedor Alberto Scrafani afirma que já presenciou uma das abordagens.

“Chegaram com violência, usando a perna para dar chutes e acordar o pessoal. Eu estava na sacada e gritei que não era daquele jeito que tinha que ser e gritaram algumas grosserias para mim. É um absurdo, desumano”, desabafa.

João Roberto, ex-morador de rua e atualmente conselheiro da Assistência Social de São Vicente afirma que as abordagens acontecem em todos os horários, mas principalmente na parte da noite. Ele também afirma que, em alguns casos, as equipes oferecem translado para São Paulo sem respeitar os procedimentos legais.

“Não é só colocar a pessoa numa Kombi e mandar embora. A Assistência Social tem procedimentos específicos, como a emissão de documentos e contato com a família. Estão fazendo de qualquer jeito para estancar o problema. É uma vergonha”, afirma.

São Vicente não possui um número exato de moradores de rua na cidade, mas informou que mensalmente atende em média 180 pessoas nos equipamentos sociais.

Abordagens têm ressocialização como objetivo, afirma Prefeitura

Em nota, a Prefeitura de São Vicente, por meio da Secretaria de Assistência Social, informou que o objetivo das ações de abordagem é promover de forma imediata a inserção de moradores de rua nas redes de serviços socioassistencias ofertados no município, como o Centro POP, o serviço de acolhimento, consultório de rua, atendimento hospitalar e ambulatorial, CAPS entre outros.

Diz ainda que desde o início do ano, a abordagem é realizada em locais de maior concentração como Praça Coronel Lopes, Praça 22 de Janeiro, Praça Barão do Rio Branco.

O recâmbio, quando realizado, se dá a partir do desejo do beneficiário. Se aceito, é realizado contato com familiares ou serviço de referência para a concretização da ação.

Questionada sobre a denúncia de violência e apreensões, disse que não há excessos por parte da equipe de abordagem de rua, que trabalha diariamente.

“A orientação da Seas é justamente para que o educador social estabeleça vínculos sem utilizar-se de qualquer forma de violência. Dessa forma, objetos de posse dos atendidos também devem permanecer com os mesmos”. Denúncias podem ser feitas pelo telefone (13) 3569-2294.