“Não é pedir ajuda. É pedir pelo amor de Deus”. O clamor é de um comerciante da Zona Noroeste de Santos. Ontem (19), em uma reunião realizada para discutir a falta de segurança naquela região, ele fez um desabafo e pediu soluções para o problema. O encontro reuniu representantes da Polícia Militar (PM), da Prefeitura, do Legislativo e do 5º Conselho Municipal de Segurança (Conseg) e mais de 80 pessoas do comércio local. Com cerca de 100 mil habitantes, a região conta com efetivo policial de apenas 140 homens.
“A gente só quer trabalhar e ganhar nosso dinheiro para pagar nossos impostos. Não relaxamos no nosso lazer, no nosso trabalho e no nosso comércio. O que aconteceu com o Krill (supermercado) no domingo, a gente esperava que a PM fosse fazer um ‘arrastão’ na segunda-feira. O pessoal não está procurando ajuda porque não está resolvendo e também está com medo”, afirmou o comerciante durante intervenção. Ele chamou a atenção para a dificuldade em elaborar Boletim de Ocorrência (BO) na delegacia. A reunião não contou com representantes da Polícia Civil.
Segundo o subcomandante da 6º Batalhão de Polícia Militar, Dene Guimarães Martins, nos últimos dois dias 44 policiais foram destacados para atender as áreas mais críticas. “A PM está ciente do que acontecendo. Não estamos alheiros. Diariamente temos observado as ocorrências e índices criminais. O ideal seria ter policial em cada ponto da cidade, mas infelizmente não temos. Temos um mapeamento das manchas criminais (áreas mais críticas), observamos e mandamos efetivo de forma imediata”, destacou.
Efetivo
Martins ressaltou que o efetivo da 4ª Companhia da PM, que atende a Zona Noroeste, é de 140 policiais, dois deles estão afastados por terem se ferido em confrontos. Durante a reunião, o subcomandante apresentou mapa com as regiões onde o índice de criminalidade aumentou. Entre elas vias comerciais dos bairros Alemoa, Jardim Santa Maria, Bom Retiro, Areia Branca, Jardim Castelo e Rádio Clube. Na orla, o bairro do Embaré também apresentou alta nos delitos.
“A gente sabe que o efetivo não é ideal e que não existe a sensação de segurança que desejamos. Estou reforçando com o efetivo de intervenção imediata para atender esses pontos críticos”, afirmou.
O subcomandante ressaltou que, nos últimos três meses, foram realizados 105 flagrantes. A média é de uma prisão por dia.
“Existem problemas que também nos impede de ser mais eficientes. A PM depende de outros órgãos e de outras ações também. A legislação também não ajuda. Não adianta a PM prender e a legislação soltar. A sociedade também mudou muito. Não podemos tapar o sol com a peneira”, disse.
Presente na reunião, o comandante da Guarda Municipal de Santos, Flávio de Brito Júnior, afirmou que agentes estão sendo preparados para atuar nas região que apresentam maiores índices criminais. “Estamos reforçando um grupo de guardas que vai agir em todas as áreas críticas, principalmente comerciais como a Avenida Álvaro Guimarães. Não apenas para inibir, mas fazer contato com os comerciantes e saber características dos marginais que estejam circulando na região”.
O ouvidor da Prefeitura, Flávio Jordão, disse que continua em tramitação o processo onde a Prefeitura solicita do Estado que dobre de 40 para 80 o número de policiais em Atividade Delegada. O programa permite que PMs atuem em dias de folga, recebendo do Município.
‘A insatisfação é geral’, diz comerciante
Há nove anos, Marcos Fernandes Matos administra uma avícola no Jardim Castelo. Nesse período já foi assaltado cerca de dez vezes. O último foi na semana passada. O antigo proprietário vendeu o estabelecimento depois de ser baleado. A média de ocorrências era de quatro vezes por semana.
“Chegam como cliente, na boa, um mostra a arma e os outros dois entram invadindo e abordando invadido. Levaram os pertences pessoais: celular, aliança e o pouco de dinheiro que tem. Estou redobrando atenção o máximo possível. A insatisfação é geral. Espero o mínimo de aumento de viaturas circulando principalmente no domingo, que é o dia de mais movimento”, disse Matos, que carregava nas mãos uma pasta com os boletins de ocorrência registrados. Para ele, o aumento da criminalidade na Zona Noroeste tem relação com a alta do desemprego e as drogas.
No último domingo (15), um supermercado, que fica em um dos principais corredores comerciais da Zona Noroeste, a Avenida Álvaro Guimarães, no Jardim Rádio Clube, foi alvo de criminosos. Ao menos seis homens, que agiram com armas de fogo na frente de clientes, inclusive crianças, renderam os funcionários e se apoderaram de R$ 6,5 mil de diversos caixas do estabelecimento. A ação foi registrada por câmeras de monitoramento. A Polícia Civil trabalha na identificação da quadrilha. Ninguém foi preso.
No início do mês, o proprietário do Sargento Pipoca, espaço que comercializava alimentos há pelo menos 25 anos na Zona Noroeste, decidiu encerrar as atividades após ser assaltado duas vezes na mesma semana. O estabelecimento ficava no Jardim Santa Maria.
