Descoberta inesperada revela sobrevivência silenciosa no litoral paulista / Public Domain Pictures
Continua depois da publicidade
Uma planta considerada desaparecida há mais de cem anos foi reencontrada na Ilha de Alcatrazes, no litoral norte de São Paulo. O registro surpreendeu pesquisadores e trouxe de volta aos holofotes uma espécie que parecia ter sumido definitivamente.
A redescoberta envolve a Begonia larorum, planta exclusiva da ilha que não era observada desde a década de 1920. Primeiro surgiu um único exemplar; depois, uma pequena comunidade foi localizada em um ponto remoto do território.
Continua depois da publicidade
Além do impacto científico, o caso levanta novas perguntas sobre como espécies raras conseguem resistir a mudanças ambientais severas. O local onde ela sobreviveu pode guardar respostas importantes para a conservação da biodiversidade.
O reencontro ocorreu durante uma expedição de pesquisadores da Unicamp e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro à Ilha de Alcatrazes. Até então, a espécie só era conhecida por amostras coletadas nos anos 1920 pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt.
Continua depois da publicidade
Os resultados foram divulgados na revista Oryx The International Journal of Conservation, que destacou a raridade da planta e os riscos à sua sobrevivência. Por décadas, especialistas consideraram que ela havia desaparecido da região.
A pesquisa integra um projeto financiado pela Fapesp iniciado em 2022 para mapear a flora local. Segundo o professor Fábio Pinheiro, em entrevista à Folha de S. Paulo, faltavam dados atualizados sobre as espécies vegetais da ilha, o que tornava a investigação ainda mais relevante.
Primeiro surgiu um único exemplar; depois, uma pequena comunidade foi localizada em um ponto remoto do território / Reprod./G. Sabino/Cambridge UniversityEm fevereiro de 2024, o botânico Gabriel Sabino encontrou apenas uma planta em meio ao sub-bosque da face sul da ilha. Sem flores visíveis, a identificação exigiu análise cuidadosa e conhecimento prévio das descrições antigas.
Continua depois da publicidade
“Eu fiquei surpreso. Encontramos um indivíduo só, sem flor, e conseguimos fazer cinco clones”, relatou o pesquisador à Folha de S. Paulo. As mudas foram cultivadas em laboratório, garantindo a preservação inicial da espécie.
Novas incursões ao local, meses depois, revelaram uma população com 19 indivíduos, a maioria já em fase de reprodução. A equipe comemorou o achado, que permitiu coletar amostras e reunir informações inéditas sobre a begônia.
A ilha faz parte de uma área protegida sob gestão do ICMBio, dentro da Estação Ecológica Tupinambás. Mesmo assim, o território sofreu intervenções humanas no passado, incluindo atividades militares e incêndios.
Continua depois da publicidade
Essas perturbações favoreceram a expansão de plantas invasoras, possivelmente restringindo a begônia a zonas mais inacessíveis. A população descoberta vive justamente em um trecho pouco frequentado, o que pode ter evitado sua extinção.
Agora, os cientistas defendem a inclusão da espécie na lista de ameaçadas da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Além do valor ecológico, ela pode ajudar a compreender como plantas insulares reagem às mudanças climáticas, funcionando como um indicador do futuro ambiental.
Os próximos estudos devem investigar genética, polinização e adaptação ao solo rochoso e seco. Para os pesquisadores, cada dado obtido amplia as chances de proteger não apenas a Begonia larorum, mas também outras espécies que permanecem escondidas na ilha.
Continua depois da publicidade