A nova fase das investigações conduzidas pela Polícia Federal contra o ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL-RJ), colocou sob os holofotes o seu atual e opulento endereço.
O político foi alvo de mandados de busca e apreensão em uma cobertura de luxo na Zona Sudoeste carioca, um espaço que contrasta de maneira acentuada com o histórico financeiro modesto declarado ao longo de sua trajetória pública.
Nesse contexto, as autoridades descobriram que a propriedade milionária foi adquirida por uma empresa recém-criada por um antigo secretário de sua própria gestão.
O aprofundamento das apurações levanta questionamentos sobre a verdadeira posse do imóvel, cruzando dados de operações bilionárias envolvendo fundos estaduais de pensão e repasses suspeitos durante as eleições passadas.
O interior da mansão suspensa
Localizada no condomínio Península, um reduto tradicional da Barra da Tijuca preferido por celebridades, a residência chama a atenção pela exclusividade.
O imóvel passou por uma grande reforma recentemente e conta com mais de 300 metros quadrados de área útil.
A estrutura dispõe de uma área de lazer repleta de plantas e uma piscina cercada por vidros, tudo estrategicamente posicionado no centro do complexo rodeado pela Lagoa da Tijuca.
De acordo com avaliações de mercado, uma cobertura com essas características custa até R$ 5,6 milhões.
Os custos de manutenção são igualmente elevados, com a taxa condominial variando entre R$ 3,2 mil e R$ 6,2 mil, além de um imposto predial anual superior a R$ 13 mil.
Para quem opta pela locação na região, os valores mensais oscilam entre R$ 12 mil e R$ 30 mil.
A polêmica compra por aliados políticos

A documentação imobiliária aponta que o apartamento foi comprado por R$ 3,5 milhões pela J3 Real Estate Participações.
A escritura foi registrada em meados de junho de 2023. O detalhe crucial é que o CNPJ da companhia foi aberto menos de dois meses antes pelo advogado Mauro Farias e pelo sócio Ronaldo Tormenta Pereira.
Farias foi titular da pasta de Transformação Digital no governo do próprio investigado, gerenciando um orçamento superior a R$ 1 bilhão até deixar o cargo, a pedido, em dezembro de 2024.
A defesa do ex-governador argumenta que o local é apenas alugado, justificando que a mudança ocorreu ao longo deste mês porque o proprietário do apartamento anterior, situado no mesmo bloco, solicitou a desocupação em 30 dias.
Os advogados relatam desconhecer a identidade do verdadeiro dono e não apresentaram o contrato de locação do novo lar.
Durante a operação autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, o político estava acompanhado da esposa e da sogra, momento em que colaborou com os agentes e teve dois aparelhos celulares apreendidos.
O contraste com as finanças declaradas
O conforto da atual residência esbarra na evolução patrimonial apresentada à Justiça Eleitoral. Ao entrar na política como vereador em 2016, o ex-mandatário declarou não possuir bens.
Em 2018, na condição de candidato a vice-governador, relatou possuir um apartamento e um veículo que somavam R$ 270 mil. Já no pleito de 2022, informou possuir pouco mais de R$ 194 mil em aplicações financeiras e um apartamento no bairro do Itanhangá.
O salário líquido recebido no comando do poder executivo até março deste ano girava em torno de R$ 16 mil, valor semelhante ao que ganhava na Câmara Municipal carioca.
Por outro lado, os registros indicam movimentações financeiras controversas. O político solicitou o pagamento de R$ 142 mil aos cofres públicos referentes a 206 dias de férias não gozadas durante seu mandato.
Contudo, ele realizou diversas viagens de lazer no período, incluindo uma estadia de quase um mês nos Estados Unidos em junho de 2025 para acompanhar o Mundial de Clubes da Fifa.
O cerco das investigações federais
As ações policiais recentes integram os desdobramentos do caso Master, focado em aportes suspeitos realizados pela estatal de águas Cedae e pelo Rioprevidência, órgão responsável pelo pagamento de 235 mil beneficiários.
Sob o comando de Deivis Marcon Antunes, indicado por lideranças do partido União Brasil, o fundo de pensão transferiu volumes expressivos para a instituição financeira de Daniel Vorcaro. O banqueiro teve o negócio liquidado após ser preso por fraudes financeiras.
As autoridades calculam que as movimentações somaram quase R$ 1 bilhão até julho de 2024, seguidas por novas aplicações superiores a R$ 2 bilhões.
A investigação apura o pagamento de propinas, a criação de fundos fictícios para inflar o valor do banco e manobras para esconder a origem dos recursos.
Além desse escândalo e de uma operação anterior ocorrida em meados de maio focada em fraudes no setor de combustíveis ligadas à Refit, o histórico eleitoral também está sob rígido escrutínio.
O Ministério Público Eleitoral apontou que uma empresa fornecedora destinou R$ 2,6 milhões de forma ilícita para a P5 Soluções na campanha de 2022.
Essa companhia pertencia justamente a Mauro Farias e seu irmão Rafael Thompson de Farias, que também atuou como secretário de Governo na mesma gestão estadual, configurando suspeita de malversação de gastos públicos.
