Pesquisa não encontra casos de microcefalia ligados ao zika na região

Hospital Ana Costa e Instituto de Medicina Tropical apresentaram primeiros dados preliminares na região

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25 MAR 2017Por Diário do Litoral10h00
Expedito Luna apresentou um histórico sobre o zika vírus, a evolução pelo planeta e dados de outras pesquisas já realizadas por diversos grupos de estudo ao redor do mundoExpedito Luna apresentou um histórico sobre o zika vírus, a evolução pelo planeta e dados de outras pesquisas já realizadas por diversos grupos de estudo ao redor do mundoFoto: Bruno Gutierrez/DL

Uma pesquisa realizada em parceria entre o Hospital Ana Costa, através do Centro de Pesquisa Dr. Jayme Rozenbojm, e o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo (FMUSP) não detectou nenhum caso de microcefalia em mães com suspeitas de ter contraído o zika vírus na Baixada Santista.

Os dados ainda são preliminares e foram os primeiros a serem divulgados pela parceria. O anúncio foi feito ontem, em um auditório do hospital, em Santos. Eles fazem parte do projeto “Prevalência e Características Clínicas e Virológicas de Infecção Congênita pelo zika vírus em Corte de Puérperas zika Vs Soropositivas”, conhecido também como projeto zika vírus.

“A primeira boa notícia é que estamos trabalhando, tentando achar o vírus, desde julho, e não achamos. Para a comunidade santista, para a população, para as grávidas, a boa notícia é que não tivemos nenhum caso de má formação congênita associado à zika”, disse Expedito Luna, docente do Instituto de Medicina Tropical da USP.

A pesquisa iniciou em julho de 2016 e seguirá até o meio de 2018. Fazem parte 933 mulheres, sendo 734 puérperas (que acabaram de ter o filho) e  259 gestantes, das quais 96 já deram a luz.

Diagnóstico

O dr. Evaldo Stanislau Affonso de Araújo, diretor do Centro de Pesquisa Dr. Jayme Rozenbojm, explicou os tipos de testes feitos para detectar a suspeita por zika vírus.

“Existem duas coisas que a gente pode procurar. O vírus ou o anticorpo contra o vírus. Quando a gente encontra o vírus, tem que ser por uma técnica chamada PCR. É um teste muito específico. A fase em que o vírus está presente, normalmente, é muito pequena. Temos que colher num determinado momento, a quantidade de vírus pode ser maior ou menor. Ou você pode procurar o anticorpo contra o vírus, que é outra técnica. Temos o IgG, que é um anticorpo que tem uma durabilidade maior e marca uma exposição já prévia. O IgM tem uma durabilidade menor e marca uma exposição recente a uma infecção, de uma maneira geral”, comentou.

Stanislau também disse que a alta incidência de casos de dengue na região prejudica na hora de avaliar os casos de zika.

“Embora tenhamos tido percentuais altos de positividade de anticorpo contra zika, o que vemos é que existe uma dificuldade, porque a dengue – e aqui é uma área que tem muita dengue, cruza e de repente o anticorpo que lemos como zika é por causa da dengue”.

“O IgG determina uma exposição mais prévia e o IgM mais recente. Nenhum IgM foi positivo. Então, caso elas tenham tido zika, já foi um pouco mais para trás. Não pegamos nenhum caso por PCR. Ou seja, o vírus não estava lá em nenhuma delas. Terceiro, nenhuma dessas que deu anticorpo positivo teve bebê com má formação. Então, há evidências de que realmente não tá tendo zika, embora algumas tenham apresentado, supostamente, anticorpos anti-Zika, mas que isso não é um teste definitivo”, completou Camila Malta Romano, pesquisadora científica do Insitituto de Medicina Tropical, que também explicou que sintomas de dengue e zika se confundem muito.

O representante do hospital Ana Costa alertou que, por serem dados preliminares, eles ainda podem sofrer alterações, mas que o levantamento apresentado até o momento mostra que a microcefalia não é problema tão grande.

“O estudo está em curso. Grande parte dessas pacientes que estão sendo atendidas ainda tem materiais biológicos que serão analisados e que poderão modificar esse resultado preliminar. Então, numa primeira amostra, podemos falar que numa área como Santos, Baixada Santista, que tem muita dengue, os casos que temos visto de anticorpos positivos para zika podem ter um cruzamento. Temos que ter certa cautela. Mas nos casos 700 e tantos casos que nasceram não vimos nenhuma microcefalia. A segunda informação de tranquilidade é essa. Aparentemente, a microcefalia não é um problema tão grande. Mesmo que a gente registre algum caso posteriormente, não vivemos uma epidemia de microcefalia”, analisou Stanislau.

Crítica

Camila Romano apresentou uma ressalva sobre a orientação de realizar testes de sorologia em todas as grávidas. Na visão da pesquisadora, ainda não há um processo 100% confiável para identificar o vírus da zika.

“Nós usamos um determinado kit de uma determinada empresa. Isso pode ser feito de diversas formas. Um laboratório pode desenvolver o próprio método para fazer o teste, ele pode adquirir de outra empresa. E a sensibilidade e especificidade em dizer que tem o anticorpo ou o anticorpo é contra aquele vírus varia de teste para teste. De repente, começa a chover um monte de mulheres provavelmente positivas, vai ter um desespero enorme, vão passar a gravidez inteira preocupadas. Essa gravidez de fazer teste de sorologia para todas as grávidas, acho que ainda não tem um teste bom para dizer para a gestante que ela pode ficar tranquila porque não tem ou para se preocupar porque tem”, comentou.

Preocupação

A epidemia de zika que se expandiu, principalmente no Nordeste, a partir de 2015, passou. De acordo com Expedito Luna, a diminuição de casos se dá porque muitas pessoas foram infectadas, e hoje, o mosquito transmissor não encontra mais pessoas que não tenham sido contaminadas.

De acordo com o docente, a preocupação, agora, é cuidar das crianças com microcefalia.

“O problema lá no Nordeste é o cuidado com esses bebês. Você tem centenas de bebês demandando uma assistência muito especializada e o SUS tem limitações. O Nordeste enfrenta, hoje, é a dificuldade em cuidar desses bebês”, analisou o representante do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo.