O Brasil está envelhecendo rapidamente. A expectativa de vida da população já ultrapassa os 76 anos e, nas próximas décadas, o país terá uma proporção cada vez maior de idosos.
Mas, junto com a longevidade, há também um desafio cada vez mais silencioso que preocupa os especialistas: a solidão na velhice.
De acordo com pesquisas, quase metade de todas as pessoas com 50 anos ou mais dizem sentir-se solitárias em algum momento de suas vidas.
Entre os idosos, o cenário chama ainda mais atenção, pois quase 17% afirmam se sentir sozinhos com frequência, enquanto outros 31,7% convivem ocasionalmente com o isolamento emocional.
E a questão vai além do emocional, tanto que os organismos internacionais já tratam o isolamento social como uma questão global de saúde pública.
Um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a solidão está associada a aproximadamente 100 mortes por hora no mundo, o equivalente a mais de 871 mil óbitos anuais.
Grupos mais vulneráveis e dados do IBGE
Mulheres, pessoas de baixa renda, idosos acima de 80 anos, indivíduos com pouca escolaridade e aqueles que vivem sozinhos aparecem entre os grupos mais vulneráveis. No Brasil, 15,3% das pessoas com mais de 60 anos moram sozinhas.
Nas últimas duas décadas, a população idosa quase dobrou, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2000, os brasileiros com 60 anos ou mais representavam 8,7% da população.
Em 2023, esse percentual saltou para 15,6%. Com projeções para 2070 ainda mais distantes, calcula-se que quase 38% da população do país envelhecerá.
Efeitos da solidão no corpo e na mente
O isolamento social a longo prazo pode ter efeitos profundos no corpo, dizem os especialistas.
A professora Naira Dutra Lemos, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e presidente do Departamento de Gerontologia da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), observa que para os idosos a solidão pode trazer consequências reais tanto para a saúde – física, emocional e até psicológica.
Entre esses efeitos, o alto risco inclui ansiedade e insegurança, sono ruim, sedentarismo e aumento do risco cardiovascular.
Sentimentos de inutilidade após a aposentadoria, risco de depressão, declínio cognitivo mais rápido e risco aumentado de demência também são comuns.
Outras pesquisas internacionais mostram que a solidão também pode aumentar o risco de derrame, doenças cardíacas, diabetes e morte precoce.
Da mesma forma, indivíduos que estão socialmente isolados têm muito mais probabilidade de desenvolver doenças depressivas graves.
Programas gratuitos para combater o isolamento
Embora o problema esteja aumentando, os especialistas notaram que existem maneiras de reforçar os laços e restabelecer conexões sociais que estão ao alcance.
Várias dessas iniciativas, fornecidas por municípios e entidades públicas, podem facilitar a retomada de atividades pelos idosos, o aumento das amizades e a melhoria da qualidade de vida.
Uma dessas opções é o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), presente na grande maioria dos municípios brasileiros, que oferece oficinas, atividades físicas, rodas de conversa e o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV).
Outra opção são as Unidades Básicas de Saúde (UBS) que, além das consultas médicas, promovem grupos para idosos com caminhadas guiadas, dança, atividades integrativas e palestras sobre saúde.
Os Centros de Convivência do Idoso (CCI) também são bons espaços voltados para adultos mais velhos (60+), com atividades culturais, aulas de informática, danças, jogos e sessões de oficinas, que são benéficas para atividades sociais e autodeterminação.
Quanto à educação, as Universidades Abertas para a Terceira Idade (UATI) oferecem cursos gratuitos em várias instituições públicas para os idosos que desejam continuar aprendendo e se engajar com diferentes gerações.
Finalmente, se você usar o telefone para obter assistência emocional, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece serviço 24 horas com apoio emocional e serviços de escuta qualificada.
Alerta das autoridades sobre abandono
Outro ponto de atenção é o aumento das denúncias relacionadas à negligência e ao abandono familiar.
O serviço nacional de direitos humanos, disque 100, que opera 24 horas por dia, fins de semana e feriados, é gratuito para relatar casos de violência psicológica, abandono e violação de direitos.
O serviço também pode ser acessado via WhatsApp, Telegram e a plataforma digital do governo federal.
O envelhecimento de qualidade, dizem os especialistas, é resultado não apenas do cuidado médico, mas também da conexão humana.
Participar de atividades coletivas, fortalecer amizades, manter uma rotina ativa e buscar apoio quando necessário são atitudes que podem fazer uma diferença significativa para transformar a longevidade em bem-estar e real qualidade de vida.








