Cotidiano
A medida, que já passou pelo Senado, permite a cobrança de taxas para veÃculos que circularem em áreas centrais ou em horários de pico
O objetivo oficial é arrecadar recursos para baratear as passagens de ônibus e metrô, que já chegam a R$ 7,70 em algumas capitais / Nair Bueno/DL
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O bolso do motorista brasileiro pode sofrer um novo impacto em breve. Tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados o Novo Marco Legal do Transporte Público, um projeto de lei que autoriza prefeituras a criarem o chamado 'imposto do congestionamento'.
A medida, que já passou pelo Senado, permite a cobrança de taxas para veÃculos que circularem em áreas centrais ou em horários de pico. O objetivo oficial é arrecadar recursos para baratear as passagens de ônibus e metrô, que já chegam a R$ 7,70 em algumas capitais.
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Infográfico detalha o fluxo planejado pelo Novo Marco Legal: cobranças de motoristas financiando a redução das tarifas de ônibus e metrô.Se aprovado, o projeto não cria o imposto automaticamente, mas dá 'carta branca' para que prefeitos implementem:
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Taxa de Congestionamento: Cobrança por circular em vias travadas ou centros históricos.
Taxas para Apps: Contribuições extras sobre viagens de Uber e 99.
Estacionamentos: Novas taxações sobre vagas públicas e privadas.
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Taxa de Poluição: Cobranças baseadas na emissão de ruÃdos e gases de veÃculos.
Cenário comum nas capitais: projeto de lei busca desestimular o uso do carro e investir no transporte coletivo como soluçãoO sistema de transporte público no Brasil enfrenta uma crise financeira aguda. Com a queda no número de passageiros e o aumento do diesel, o Governo busca fontes alternativas de custeio para evitar o colapso do sistema e o aumento desenfreado das tarifas.
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CrÃticos do projeto alertam que a medida pode se tornar apenas mais um peso no orçamento do cidadão, sem garantia de que o ônibus ou o metrô realmente melhorem. Além disso, há o receio de que as taxas aplicadas aos aplicativos sejam repassadas integralmente ao valor das corridas para o passageiro final.
A ideia de taxar o congestionamento não é inédita e se baseia no conceito de "pedágio urbano", aplicado com sucesso em metrópoles como Londres, Estocolmo e Singapura. Na capital britânica, a medida conseguiu reduzir o tráfego em cerca de 20% logo nos primeiros anos.
No entanto, o desafio brasileiro é distinto: enquanto essas cidades reinvestiram massivamente na pontualidade e no conforto dos trens e ônibus antes de cobrar do motorista, o projeto nacional corre o risco de inverter a lógica, tributando o cidadão para tentar salvar um sistema que já opera no limite da precariedade.
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CrÃticos alertam para o 'efeito dominó': novas taxas podem ser repassadas integralmente ao consumidor, sem garantia de melhoria no serviço públicoA maior preocupação de quem não possui carro próprio recai sobre as plataformas de transporte, como Uber e 99. Especialistas alertam que, caso as prefeituras decidam por contribuições extras sobre essas viagens, o custo será inevitavelmente repassado ao consumidor final.
Isso cria um paradoxo social: a taxa, que visa incentivar o transporte público, pode acabar encarecendo a única alternativa viável para quem vive em regiões onde o ônibus é escasso ou inseguro durante a noite, punindo justamente a parcela da população que depende da mobilidade compartilhada.
Um dos pontos centrais da polêmica é a garantia de destino dos recursos. CrÃticos e órgãos de defesa do consumidor questionam se o montante arrecadado será, de fato, carimbado para o subsÃdio das passagens e melhoria da frota.
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Sem mecanismos rÃgidos de fiscalização e contas segregadas, o temor é que o 'imposto do congestionamento' se transforme em um dispositivo para fechar buracos no caixa geral das prefeituras, perdendo sua função ambiental e de mobilidade para se tornar uma ferramenta meramente arrecadatória.
Embora o Governo Federal e o Congresso articulem o Novo Marco Legal, a palavra final será local. O projeto funciona como uma 'caixa de ferramentas' jurÃdica: ele autoriza a cobrança, mas não a impõe. Isso transfere uma pressão imensa para as prefeituras, que precisarão equilibrar a necessidade de caixa para o transporte com o desgaste eleitoral de criar novos tributos.
Em anos de pleito municipal, a tendência é que o projeto enfrente resistência nas câmaras de vereadores, tornando a implementação um jogo de xadrez polÃtico entre a solvência do sistema e a popularidade nas urnas.
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