Passarela é ‘vendida’ antes da aprovação da Câmara

Reportagem do DL flagrou que Grupo Mendes apresenta maquete com passarela aos compradores

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07 DEZ 201215h34

Das três alternativas, uma. A direção do Grupo Mendes deve ter bola de cristal; muita confiança no poder de persuasão do prefeito João Paulo Tavares Papa (PMDB) ou um grande lobby junto à Câmara de Vereadores de Santos, capaz de impor suas vontades antes que elas tenham amparo legal.
 
Isso porque o projeto de lei, de autoria do prefeito Papa, com o objetivo de regulamentar o uso de espaços aéreos (passarelas) em áreas públicas de Santos, mal foi encaminhado ao Legislativo para aprovação e o Grupo já está “negociando” o futuro Praiamar Corporate dotado do equipamento ligando o empreendimento ao Praiamar Shopping.  

Ontem, a reportagem esteve no escritório de negócios do Grupo e, se passando por um futuro comprador, ouviu de um dos vendedores que o empreendimento corporativo tem passarela como um de seus principais atrativos de venda. A confiança da aprovação da lei é tanta que até a maquete do prédio já conta com o futuro acesso.

E mais, o primeiro item do panfleto promocional garante a “mordomia” ao comprador que, segundo informado, poderá sair do conforto de seu escritório no Praiamar Corporate e chegar à praça de alimentação do Praiamar Shopping, sem pisar no asfalto da Rua Guaiaó, no bairro da Aparecida, onde estão os empreendimentos.

Conforme publicado ontem no Diário do Litoral, projeto do prefeito Papa, levado à discussão em uma audiência pública, no meio da tarde da última quarta-feira, na Câmara de Vereadores, não conseguiu convencer as quase 40 pessoas que estiveram presentes no encontro. O projeto, com pedido de urgência, deve ser levado à votação antes do recesso parlamentar.

Na audiência, vários participantes acreditavam que o projeto tinha um único objetivo: viabilizar a construção de uma passarela, interligando os dois empreendimentos do Grupo. Portanto, a desconfiança dos participantes da audiência foi confirmada ontem pelo DL.

Opiniões

Um dos que arriscaram a intenção foi o representante do Sindicato dos Arquitetos do Estado de São Paulo, Rafael Paulo Ambrósio. “Essa proposta visa somente criar maior valorização imobiliária para os empreendimentos onde serão instaladas as passarelas. A passarela que será instalada no Shopping Praiamar é para um prédio do Mendes de uso particular”.

Irritada com a proposta, a vereadora Cassandra Maroni (PT), chegou a chamar o projeto de cínico. “Vai ligar um empreendimento privado a outro do mesmo empreendedor, portanto, não há interesse público. A ideia é que a classe alta não precise mais colocar seu pezinho junto com o pobre que passa na rua”, disse.  

O funcionário público José Marques Carriço revelou que o grande risco do projeto é que ele abrangerá toda a cidade quando, no fundo, é para beneficiar um empreendimento específico. “Vai atingir as avenidas Ana Costa, Conselheiro Nébias, Pedro Lessa, Afonso Pena e vários canais, permitindo passarelas de 7,5 metros de altura. Isso é extremamente deletério (prejudicial)”.

Maquete e panfleto dão garantia de instalação de passarela (Foto: Luiz Torres/DL)

Projeto se apresenta como público

A engenheira Eliana Mattar, coordenadora de Políticas Urbanas do Município, foi muito sabatinada pelo pequeno público presente, principalmente pela vereadora Cassandra Maroni (PT). A audiência foi conduzida pelo vereador Roberto de Jesus (PMDB).

O prefeito Papa informou que o projeto visa promover a melhoria das passarelas existentes na área portuária e permitir a construção de outras em 21 vias da Cidade, sobre logradouros públicos. Porém, para a maioria dos participantes do encontro, não há nenhum ponto no texto do projeto voltado para esse fim.

Em síntese, o projeto permite a construção de passarelas na área portuária e nos principais corredores de desenvolvimento urbano.  Estabelece a cobrança, por parte do poder público, de uma taxa do uso do espaço aéreo na ordem de R$ 17 mil por passarela, que poderá ser construída respeitando a distância mínima de 500 metros entre uma e outra e terá 3,5 metros de largura.

As passarelas seriam cobertas e fechadas e teriam que se submeter a normas técnicas de segurança e ambientais. Os empreendedores teriam cinco anos de permissão do uso do espaço, renovável no final de cada período. As passarelas já existentes na área portuária teriam que se adaptar ao projeto, que só se tornará lei após a aprovação da Câmara e sanção do prefeito Papa.