Cotidiano
Doutor em Relações Internacionais reforça que a movimentação iraniana precisa ser compreendida dentro de uma lógica estratégica mais ampla
Um ponto estratégico para o Irã é atingir as bases americanas próximas a ele / Unsplash
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A escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã ganhou contornos ainda mais complexos após Teerã lançar mísseis e drones contra bases militares instaladas em países do Golfo Pérsico. Entre os territórios atingidos estão Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita, que, assim como o próprio Irã, integram o Brics.
A ofensiva ampliou o alcance da crise e colocou o bloco sob uma tensão inédita entre seus membros.
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Para entender melhor o conflito e suas possíveis consequências para o Brics e o Brasil, a Reportagem contatou o Dr. Fabiano L. de Menezes, coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos (Unisantos)
Para o especialista, a movimentação iraniana precisa ser compreendida dentro de uma lógica estratégica mais ampla.
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Segundo ele, “para o Irã, essa é uma guerra de sobrevivência”, o que faz com que o conflito deixe de ser apenas bilateral e passe a assumir dimensão regional.
De acordo com o especialista, os Estados Unidos mantêm bases militares em diversos países do Golfo, formando um cinturão estratégico no entorno do território iraniano.
Nesse contexto, atacar essas estruturas seria, sob a ótica de Teerã, uma resposta direta às operações coordenadas por Washington e Tel Aviv.
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“Um ponto estratégico para o Irã é atingir as bases americanas próximas a ele”, explica Menezes. Ele ressalta que Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita não participaram oficialmente dos ataques contra o Irã, mas o fato de abrigarem instalações militares norte-americanas os colocou no raio da retaliação.
A ofensiva também alcançou alvos ligados ao Reino Unido em Chipre. Ainda há divergências sobre a autoria específica desse ataque, com indícios de que possa ter partido do Hezbollah, no Líbano.
O fato de três membros do Brics estarem envolvidos direta ou indiretamente na crise marca um momento delicado para o grupo. Menezes avalia que é a primeira vez que integrantes do bloco se veem diante de um conflito dessa magnitude entre si.
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Uma reunião de ministros da Fazenda e presidentes de bancos centrais do Brics, que aconteceria em Jaipur, na Índia, foi cancelada devido à escalada no Oriente Médio.
O encontro teria a participação do presidente do Banco Central do Brasil, Gabriel Galípolo, e da presidente do New Development Bank, Dilma Rousseff.
Apesar do abalo, o professor pondera que ainda é cedo para medir impactos institucionais mais profundos.
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“Não vejo o Brics como um ator relevante para ajustar diretamente essa relação entre Emirados, Arábia Saudita e Irã”, afirma. Ele lembra que o grupo não possui mecanismos formais de sanção entre membros e que eventuais pressões devem ocorrer nos bastidores.
A ampliação dos ataques também gerou reação de países europeus. França, Alemanha e Reino Unido sinalizaram disposição para defender seus interesses, mas o grau de envolvimento direto ainda é incerto.
O maior risco, segundo Menezes, está na possibilidade de o conflito sair do controle. “Em poucos dias, já temos mais de dez países envolvidos direta ou indiretamente. Esse é o grande problema”, alerta.
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Ele cita ainda o Estreito de Hormuz, rota estratégica para o petróleo mundial, que o Irã já indicou poder fechar, cenário que elevaria a instabilidade global.
No campo econômico, o Brasil não depende diretamente do petróleo do Golfo, o que reduz impactos imediatos. O país importa fertilizantes do Irã, mas Menezes avalia que esses insumos podem ser substituídos por fornecedores como Rússia e Canadá.
O ponto mais sensível seria a alta internacional do petróleo. “A Petrobras pode até se beneficiar no curto prazo com a valorização do barril, mas isso não é algo para comemorar”, observa.
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Segundo ele, o efeito colateral tende a ser o aumento da inflação e maior pressão sobre decisões do Comitê de Política Monetária.
O especialista acredita que, diante da variável externa, o Banco Central pode rever planos de redução de juros caso a escalada continue.
Para Menezes, o eventual ganho com exportações de petróleo seria superado por um ambiente econômico mais instável e desafiador para o país.
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Ao analisar o cenário global, o professor lembra que o mundo já vive outro foco de tensão relevante: o conflito entre Rússia e Ucrânia.
Embora até agora restrita principalmente aos dois países, a guerra envolve apoio militar e financeiro de integrantes da OTAN, o que mantém a situação em estado permanente de alerta.
Ele compara o cenário a um barril de pólvora aceso. Caso a Rússia amplie seus ataques para além da Ucrânia ou países da OTAN ultrapassem a linha do suporte indireto e passem a atacar diretamente o território russo, a escalada poderia ganhar proporções globais.
No caso da atual triangulação entre Estados Unidos, Israel e Irã, o risco também existe.
Uma reação coordenada de países do Golfo, maior envolvimento europeu ou eventual entrada mais ativa de potências como Rússia e China – especialmente se perceberem que seus interesses estratégicos, como o fornecimento de petróleo, estão sendo ameaçados – poderiam alterar o equilíbrio.
Ainda assim, Menezes pondera que, apesar de o ambiente internacional estar marcado por dois grandes focos de instabilidade, não vê como provável, neste momento, uma escalada para uma Terceira Guerra Mundial.
Para ele, o cenário é de alta tensão, mas a expectativa é de que os atores envolvidos evitem cruzar linhas que tornariam o conflito incontrolável.