Os termômetros marcam 28 graus, mas a sensação térmica no ponto de ônibus da Rua Padre Anchieta, no Centro de São Vicente, é de quase 35 graus. “Quem quer água?”, pergunta o rapaz aos passageiros do coletivo. Antes que o semáforo acenda a cor verde, vende duas garrafinhas e as entrega rapidamente pela janela. Ele e outros vicentinos têm aproveitado os dias quentes para driblar o desemprego.
“Estou desempregado há três meses. Começamos a vender água na praia, em janeiro, por causa do calor. Dá para ganhar um dinheiro e pagar as contas”, disse Rafael Matheus, de 28 anos. Ele e o meio-irmão Rafael Ribeiro, de 25 anos, também desempregado, se juntaram para vender as garrafinhas de água. Ambos, que antes trabalhavam como porteiros, andam com uma caixa de isopor cada um.
Assim como a dupla, outras dezenas de pessoas aproveitam os dias de calor para ganhar dinheiro nos cruzamentos e pontos de ônibus de São Vicente. Em alguns locais o valor da garrafinha de água gelada custa R$1,00. Nos atacadistas, o preço do produto em temperatura ambiente varia de R$0,70 a R$1,00.
Os irmãos compram a água em um atacadista. Pagam R$1,00 e as revendem por R$2,00. “A gente ainda gasta com gelo. Em média vendemos quatro fardos de garrafas por dia. Dá para pagar umas continhas e comprar uma mistura”, disse Rafael Matheus. Na casa deles, onde moram cinco pessoas, a única renda fixa é proveniente do pai, que está prestes a aposentar.
Para vender o produto, os rapazes usam simpatia e criatividade. “O produto é de qualidade. Produto lacrado (mostra a garrafa para a Reportagem). A gente tenta ganhar o cliente na simpatia. Geralmente eles procuram por causa do calor. Os motoristas dos ônibus e das lotações ajudam porque muita gente que está lá dentro quer comprar”, disse Rafael Matheus. As garrafinhas são vendidas pela janela, enquanto os veículos estão parados no ponto de ônibus.
Mas os ‘Rafaéis’ não querem ficar na informalidade. A dupla pretende legalizar e ampliar o negócio. “Vamos atrás da licença e deixar tudo certinho. A ideia é vender bolos e doces também. Progredir e ter o nosso próprio negócio. No futuro a gente pensa até em ajudar outras pessoas dando emprego para elas. Somos evangélicos e a palavra do Senhor diz: Age corretamente. É isso que estamos fazendo”, afirmou Matheus.
Licença
O Diário do Litoral questionou a Prefeitura de São Vicente sobre o aumento de trabalhadores informais na Cidade – se haveria projeto voltado para contemplar os mesmos e a intenção de ampliação do cadastro de ambulantes. Em resposta, a Secretaria de Comércio, Indústria e Negócios Portuários (Secinp), informou que a atividade objeto da matéria não é permitida e que a mercadoria poderá ser apreendida pela Guarda Municipal, conforme Decreto 3697-A/2013.
Ainda de acordo com a Secinp, para obter a licença de ambulante, o interessado deverá comparecer a secretaria, que fica na Rua José Bonifácio, 404 3º andar, preencher a ficha de cadastramento e obter mais informações sobre atividades permitidas.
