Papo de Domingo: ‘Que 2016 seja um ano de solução’

Com uma mensagem de esperança para dias melhores em 2016, o bispo diocesano de Santos, Dom Tarcísio Scaramussa, nos mostra que é possível acreditar em um futuro sem crises

A ceia de Natal deste ano pode não ter sido a mais farta. Os 365 dias que passaram foram intensos do começo ao fim de 2015. Os noticiários preocuparam os brasileiros: aumenta o desemprego, aumenta impostos, reduz salários, aumenta o índice da fome. Com um ano tão conturbado, como esperar que 2016 seja diferente?

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Diante da crise econômica e política que abala o País, a Igreja Católica se manifesta mostrando que a corrupção – enraizada na cultura popular brasileira – pode ser repensada se formação e conscientização política forem inseridas dentro da doutrina das comunidades.

Os efeitos que a crise nos trouxe estão nítidos nas ruas. Mais moradores de rua, mais dependentes químicos, mais pessoas buscando os serviços assistencialistas nas igrejas. No entanto, o entrevistado do Papo de Domingo de hoje, bispo Dom Tarcísio Scaramussa, não acredita em solução milagrosa para os problemas do Brasil. Para ele, a resolução está em diálogos e no fim da busca por interesses próprios.

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Diário do Litoral – A Diocese de Santos prepara alguma mudança para 2016 dentro das comunidades?

Dom Tarcísio Scaramussa – Nós estamos dando sequência ao nosso plano de evangelização, que prevê, para os próximos quatro anos, uma intensificação da ação missionária da Igreja. Concretamente, nós estamos preparando os programas e projetos para realizar isso. Este ano, por exemplo, instauramos o Tribunal Eclesiástico, justamente para aplicar na Diocese tudo aquilo que o papa Francisco está pedindo através de seu Motu Proprio para que as comunidades acompanhassem mais de perto as questões sobre nulidade matrimonial. Significa que agora as pessoas podem fazer todo o encaminhamento junto à Diocese, antes era em São Paulo. Nós também estamos prevendo para fevereiro do próximo ano de criar o vicariato para dimensão social da evangelização, para as questões sociais e políticas. É uma iniciativa que dará uma nova estrutura de incentivo, de formação e de acompanhamento para as questões relativas ao aspecto social e que também articule todas as obras sociais e também para formação política. No mais, vamos buscando colocar em prática todas as urgências das ações evangelizadoras da Igreja no Brasil: são as cinco urgências. De modo particular, na nossa quinta urgência, Igreja – Casa de Defesa e Promoção da Vida, então nós vamos dar atenção particular aos cinco polos que nos já são tradicionais aqui na nossa realidade. São as necessidades mais importantes como, por exemplo, a questão do Porto e tudo o que está em torno como os caminhoneiros, marítimos; a universidade e o jovens; da miséria e da fome; a questão dos idosos; e a questão do turismo para que possamos trabalhar nisso quanto Igreja.

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DL – O papa chegou a dizer, após os ataques terroristas a Paris, que o mundo vive um momento muito complexo para se comemorar o Natal. O senhor concorda? 

Dom Tarcísio – Não sei se ele falou neste sentido – de que a realidade de tanta violência nos impediria de comemorar o Natal. Eu entendo que o pronunciamento dele foi no sentido de “mais uma vez chegamos ao Natal, que é um tempo de luz, vivemos drama, guerras e violência exacerbada. Para mim, o Natal é uma resposta para esta realidade humana”. Com isso, o papa vem dando uma mensagem de esperança, porque Cristo veio ao mundo por causa dessa desumanidade, veio trazer a esperança. Se a gente parar para pensar, este é o sentido da mensagem dele: mais uma vez Cristo vem a nós e nós estamos em conflito. Nós temos dificuldades para acolhê-lo. Mas o Natal é sempre um tempo de esperança. Deus nos deu a garantia de o mal já está vencido.

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DL – A Igreja sempre procura se posicionar diante dos fatos políticos e dos acontecimentos do País. Vivemos uma das mais sérias crises econômica e política no Brasil. Como a Diocese de Santos trata sobre o assunto nas comunidades da Baixada?

Dom Tarcísio – Nós (padres) temos momentos de partilha nos conselhos, onde nós refletimos sobre muitos temas e sobre o momento em que estamos vivendo. Nestas reuniões também repercute o posicionamento da Igreja sobre o Brasil. Sobre a nossa realidade, nós levamos em consideração o último pronunciamento da CNBB, divulgado no final do ano passado, justamente sobre esta realidade. Procuramos difundir as notas da CNBB porque ela representa a Igreja no Brasil. A CNBB ressalta, primeiramente, que nós estamos vivendo este momento de crise muito forte, mas que não aconteceu de repente. A crise é consequência de falta de vontade política. Há muito tempo se fala de reforma tributária, de reforma judiciária e de reforma política. E o que acontece? Os interesses impedem qualquer reforma até que chega o momento em que a crise se avoluma. Com a crise econômica, a crise política foi inevitável. E tem um agravante: uma corrupção que não é só dos políticos, é da sociedade. A gente vê no mundo empresarial, a gente vê na realidade das pessoas, cada um querendo tirar o máximo proveito das pessoas mesmo que não seja de acordo com a lei. Isso dificulta a solução dos problemas. Com a crise, quem mais sofre são os mais pobres. Saúde sucateada, Educação sucateada, cidades sem infraestrutura. Uma sociedade muito carente. Isto cria a sensação de incapacidade de se resolver as coisas, de falta de vontade daqueles que teriam poder para arrumar alguma coisa. É quase uma situação de desesperança para o povo. Refletindo isso, a gente procura trabalhar em nossas comunidades para que eles reflitam isso. Mas também não dá só para esperar que os políticos façam a mudança, eles não vão fazer. É preciso que a gente comece a trabalhar a partir da nossa realidade. Nós temos comunidades em várias periferias da Região. A gente precisa dar força, dar voz, apoiar as lutas do povo para que possamos construir uma nova realidade. É preciso conscientizar o povo sobre a questão política, para que eles possam entender melhor toda esta realidade e para que, futuramente, possam votar melhor. Isso tem consequência, nós estamos vivendo as consequências. Também devemos apoiar e incentivar os católicos para atuarem de uma forma diferente na política, participando de conselhos que não são de política partidária, mas são uma presença de força para criar políticas públicas e questionar a falta delas. E também políticos que atuem nos vários partidos para exercer com coerência, de acordo com a sua fé, a ação política em vista do bem comum. É processo longo, mas a gente não receia e não tem ilusões que vai ter uma solução miraculosa, de uma hora para outra. Mas acredita que são sementes que podem crescer para gerar uma nova realidade. A Igreja continua trabalhando a consciência dos fiéis para que continuem comprometidos e também para que não desanimem. A Igreja não tem um partido, mas as pessoas de Igreja atuam na sociedade, nos partidos e na política, então que seja uma participação coerente.

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DL – A crise econômica tem afetado muitas famílias com o desemprego e outros problemas. A Igreja atua em várias frentes na questão social e de solidariedade. A busca por serviços deste tipo oferecidos nas comunidades (doação de cestas básicas, por exemplo) aumentou no último ano?

Dom Tarcísio – Algumas paróquias sentiram esta diferença. Mas o que a gente tem visto mais é insegurança com relação a emprego, aumento em desemprego e a questão de bolsas de estudos. Pessoas que antes conseguiam pagar seus estudos, mas que desempregadas não conseguem mais e buscam ajuda. Naturalmente, as coisas estão aumentando neste sentido. Com o desemprego, a fome – que já estava quase superada – irá aumentar. Este é um aspecto que vemos na Pastoral da Criança. Anos atrás, ela cuidava mais da questão da fome e da subnutrição, salvando muitas crianças. Hoje, praticamente, não há mais esta necessidade porque há políticas que atenderam estas necessidades mais básicas da população. A preocupação agora da Pastoral da Criança é com relação aos problemas gerados pela má alimentação com a obesidade. Agora, não sei se com essa crise, este número da fome pode aumentar novamente. Eu tenho percebido que tem aumentado o número de pessoas na rua, tem aumentado o número de pessoas com dependências químicas. São problemas que a crise vai agravando.

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DL – Qual mensagem de esperança o senhor deixa à comunidade para que o próximo ano seja melhor do que 2015?

Dom Tarcísio – Cristo é quem traz esta mensagem de esperança. Ele veio ao encontro da nossa humanidade, ou melhor, da nossa desumanidade, mas Ele não olha os nossos pecados. Em Sua Misericórdia, Ele nos perdoa, Ele nos abraça e Ele também nos quer misericordiosos. Então, eu imagino que o próximo ano, apesar das dificuldades que nós estamos vivendo e talvez por causa destas dificuldades tão agudas, elas vão nos comprometer mais para que dialoguemos mais e procuremos soluções comuns a todos, deixando de lado nossos egoísmos e interesses particulares. Justamente, para ver o melhor para todos. Essa esperança que Cristo nos traz, vamos abraçá-la como compromisso de vida e assim nós poderemos colaborar para o crescimento desta vida no meio de nós. Que o próximo ano seja de soluções. 2015 pode ter sido marcado por um ano de crises, conflitos e problemas insolúveis. Então, que 2016 seja um ano de diálogos, de entendimentos e de soluções com passos concretos para cada problema que vivemos este ano.