Papo de domingo: O último dos pornográficos

Um dos mestres do gênero pornô da década de 80, o cineasta Mário Vaz Filho, que dirigiu “Um Pistoleiro Chamado Papaco” – atração do YouTube – solta o verbo em entrevista ao DL

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12 JAN 201410h44

Um dos remanescentes do Cinema da Boca do Lixo, famoso por dirigir diversos clássicos do pornô brasileiro nos anos 80 como Abre as Pernas, Coração e a Dama de Paus e Um Pistoleiro Chamado Papaco (1986), sucesso na Internet (tem quase 80 mil acessos no YouTube por sua mistura de pornografia e faroeste italiano) o cineasta Mário Vaz Filho (Marinho), que lançou recentemente o curta-metragem A Mulher Barata, esteve em Santos, sua terra natal, e concedeu entrevista ao Diário do Litoral. Confira:

Diário do Litoral - O cinema pornô começou na década de 80 em função da censura aos filmes que delatavam a situação nos porões?

Mário Vaz Filho (Marinho): De certa forma, sim. Mas, até 1983 não existia pornô. Era só uma espécie de simulado. Tudo era fingido. Foi uma tendência natural o pornô virar explícito, porque o Brasil copia todas as porcarias do exterior, principalmente dos americanos. O famoso filme Garganta Profunda, porém, foi realizado nos anos 70.

DL - E quando foi a virada do simulado para e explícito?

Marinho - Quando chegou o japonês Império dos Sentidos, que até foi considerado meio artístico. Tinha sexo oral bem feito, enfim. Depois, veio Calígula, que teve uma cena incluída e, por causa dela, venderam no Brasil como explícito. Na época, o diretor ficou irritado e até pediu para que seu nome fosse retirado dos créditos, pois entendia ser um épico.

DL - Lembro que esse filme chocou muita gente.

Marinho - Na época, o Ministério da Justiça liberou o filme por cerca de quatro dias somente. Foi uma loucura. Tinha sessão o dia e à noite inteira. Foi quando eu percebi o mercado das produções pornográficas, quando lançaram Coisas Eróticas, que tinha três episódios e que os produtores conseguiram driblar a censura. Esse filme foi até usado para minimizar perda de partida na Copa do Mundo. Eu achei o filme uma porcaria, mas rendeu bilheteria.

DL - Como era lidar com a censura?

Marinho - Caixinha, lógico. Os caras sempre levaram algum. Todo mundo leva, até juiz. Estamos no Brasil, cara. Um advogado na época até conhecia um juiz que liberava tudo. Lembro que um mandado de segurança para exibir custava 30 mil ingressos. Um dos meus filmes, o Círculo do Prazer, foi censurado, mas pôde ser exibido por mandado. Só no primeiro dia, foram quase cinco mil pessoas assistir.

DL - Quando acabaram as caixinhas para censura e para o magistrado?

Marinho - Em 1986, quando acabou a censura. Aí foi a desgraça dos filmes pornôs. Começou a entrar no Brasil o pornô americano. Para ter uma ideia, para fazer um filme pornô no Brasil gastava-se entre 40 e 50 mil dólares. E olha que isso não é nem uma cena dos filmes do Steven Spielberg. Empresários brasileiros chegavam a comprar 200 filmes americanos por dois mil dólares cada. Abriram até locadoras de pornô para acabar com o cinema brasileiro.

Mestre do pornô da década de 80 é o entrevistado desta semana (Foto: Luiz Torres/DL)

DL - É o imperialismo do cinema americano até no pornô?

Marinho - Sim. O americano continua mandando no Brasil. Ainda somos obrigados a engolir um montão de porcarias porque eles vendem os filmes bons no meio de lotes de porcarias. Os filmes da Rede Globo estão competindo nas porcarias. O americano descobriu as leis de incentivo brasileiras e está colocando dinheiro no bolso. Eles (americanos) têm o pior cinema do mundo, mas sabem ganhar dinheiro. Em termos de história, roteiro e fotografia perdem para o cinema europeu e asiático.

DL - Esse domínio não é só no Brasil.

Marinho – Não, no México, por exemplo, só passa filme brasileiro após o crivo dos Estados Unidos. Aliás, o cinema mexicano, que era muito bom, foi praticamente extinto em função das co-produções americanas. A estratégia foi supervalorizar os técnicos mexicanos, que de R$ 500,00 por semana, passaram a ganhar US$ 5 mil. Eles (americanos) passaram um tempo fazendo isso e depois foram embora. O resultado foi trágico: uma debandada de bons profissionais, associada com a quebra da distribuição. Conhece situação semelhante? Os americanos invadiram o mercado independente brasileiro. Ainda estamos nas mãos deles.

DL – E os filmes brasileiros comercializados com as redes de televisão?

Marinho – Olha, um dos maiores fracassos da Globo Filmes foi O Tempo e o Vento. O filme custou US$ 14 milhões e não rendeu nem cinco. Então, a saída foi colocar no ar como minissérie, para satisfazer os patrocinadores. Hoje, cineastas estão defendendo o feijão com arroz na publicidade. A Argentina está produzindo bem. Um filme argentino custa US$ 600 mil. Um brasileiro custa US$ 4 milhões. A Espanha tem cerca de 35 milhões de habitantes e o Brasil tem 200 milhões, Mas na Espanha se vende mais ingressos que no Brasil. Brasileiro vai pouco ao cinema, que está concentrado nos grandes centros. A televisão tomou conta de vez.

DL – O cinema está caro?

Marinho – Sim e a pessoa tem outras opções. Um ingresso popular no centro de São Paulo custa R$ 20. Isso ocorre porque o aluguel de imóveis que servem como cinema está caro. Não dá para manter o negócio porque ainda existem os funcionários. Dez no mínimo. Um cinema de 100 lugares não se paga. Mesmo com a tecnologia de hoje.

DL – Qual seria hoje a tendência do cinema brasileiro?

Marinho – O Brasil sempre teve um problema sério, que é o de não se produzir cinema de gênero com intensidade. Tentou- se com o cangaço, mas foram poucas produções. Depois foram os grandes crimes, mas também não vingou. O mesmo ocorreu com o pornô. De 1964 a 1978 os italianos fizeram cerca de 600 filmes de faroeste. Viraram exportação e depois enjoou. Gosto do Tarantino (Quentin), mas ele faz qualquer porcaria e ganha dinheiro. Ele é louco, mas é bom. Sabe filmar.

DL – É fácil conseguir apoio operacional?

Marinho – Só se tiver financiamento público por trás. O cara só aluga equipamento com a garantia do governo. Ainda sim, há superfaturamento nas notas fiscais. É assim que a banda toca.

DL – O mercado para o filme pornô?

Marinho – Praticamente não existe. Só se vê As Brasileirinhas. Quem assiste filmes pornôs não vai pela arte. Vai para fazer outra coisa dentro do cinema do gênero, que funciona 24 horas. Me engana que o cara entra no cinema às 6 da madrugada para ver enredo. Em São Paulo, vi uma placa na parede de uma sala que dizia o seguinte: é proibido transar dentro do cinema.

Mário Vaz Filho esteve em Santos, sua terra natal, e concedeu entrevista ao Diário do Litoral (Arte: Diário do Litoral)

DL – É fácil encontrar atores e atrizes pornôs?

Marinho – Profissionais sim. O cara se acha viril e na hora que vê luz, técnicos e tudo mais não consegue trabalhar. Em um filme meu, um casal foi filmar e a mulher foi ajudar um iniciante nos bastidores a se concentrar fazendo sexo oral com ele. O marido ficou irritado. Disse o seguinte: sexo nas gravações é profissionalismo, fora é sacanagem.

DL – Qual seu conselho para quem quer viver de cinema?

Marinho – Não faça. Eu comecei fazendo teatro numa época que tudo era romântico. A gente gostava da arte, independente de viver dela. A gente se acostumava com um padrão de vida modesto. O mesmo com o cinema. O cara quer carro do ano, morar e comer bem, enfim, um padrão de vida legal, que vá fazer outra coisa. Ele vai ralar a bunda e não vai conseguir se dar bem. Quer fazer cinema, tenha como sustento a linha comercial. Ou você faz arte ou ganha dinheiro. Sorte é apenas um elemento, assim como talento e um bom padrinho.

DL – O que é mais difícil: a falta de recursos ou o ego dos atores?

Marinho – Eu nunca comecei a filmar sem os recursos mínimos. Ator é um bicho complicado, mas dá para contornar as situações. Na verdade, o ator não manda p... nenhuma. Quem manda é a direção e a edição. O ator experiente sabe disso. No teatro, isso não acontece. Meu primeiro filme tinha como estrela a Consuelo Leandro. Na época, ela já era boa atriz. Ela só topou falar palavrão depois de muito convencimento.