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A morte ainda é um tabu. Muitos não gostam nem de dizer a palavra, preferem fazer uso de eufemismo para suavizar o peso que ela traz. Quando se referem a alguém que morreu, principalmente no caso de alguém próximo ou conhecido, muitas pessoas afirmam que o morto partiu, não resistiu, desencarnou, fez a passagem, faleceu etc. Mas a morte é a única certeza da vida. Nascemos, crescemos, vivemos e um dia vamos morrer. Todos. Todavia, a morte choca porque temos medo dela. E por quê temos medo da morte? Medo da extinção? A incerteza da existência além túmulo? Se vamos para o inferno, purgatório ou paraíso? Se crendo na vida após a morte, tememos o desconhecido? Se temos um espírito que sobrevive à carne ou mesmo uma consciência imortal ou nada além de matéria é um mistério.
É fato que a morte move e perturba a humanidade. Na literatura mundial, a melhor referência à morte e à vida eterna é o poema épico A Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri, escrito, acredita-se, no século XIV, entre os anos 1.300. Posteriormente, em séculos diferentes, o poema medieval ganhou ilustrações de Gustave Doré, Salvador Dalí e Sandro Botticelli. Em A Divina Comédia, Dante explora o mundo etéreo do Purgatório, Inferno e Paraíso.
Sofremos e nos chocamos com a morte quando ela é esperada e quando não é. Diante de uma tragédia envolvendo a morte de centenas de pessoas ficamos estarrecidos.
Uma queda de avião pode ser causada por uma falha humana, mas e se uma tragédia de grandes proporções resultasse de um ato divino, das leis do universo ou da própria escolha oculta no subconsciente do infortunado? O mistério da morte coletiva é o assunto de hoje no ‘Papo de Domingo’.
Assistimos condoídos, muitos de nós, aos atentados às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York (EUA), no dia 11 de setembro de 2001. Os ataques mataram 2.996 pessoas. O dia 17 de julho de 2007 foi o fim para 187 pessoas que estavam a bordo do Airbus A320 , voo 3054 da TAM, no Aeroporto de Congonhas, e para outras 12 pessoas atingidas em terra pelo avião. Na madrugada de 1 de junho de 2009, 228 pessoas morreram na queda do Airbus A330-200, voo 447 da Air France. Em 27 janeiro de 2013, um incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (Santa Catarina) matou 242 pessoas e parou o Brasil. A tragédia tornou mais rígida a fiscalização da segurança em ambientes fechados com grande capacidade de público.
No último dia 7 de março, um Boeing 777, da Malaysia Airlines, desapareceu no ar com 239 pessoas a bordo, entre elas cinco crianças. Nove dias depois ainda não se sabe sobre o seu paradeiro. O avião partiu de Kuala Lumpur (Malásia) com destino à Pequim (China) e pode ter caído no golfo da Tailândia. Familiares de passageiros chegaram a afirmar para a imprensa que alguns dias após o desaparecimento do avião, os telefones celulares dos infortunados ainda tocavam.
Representantes de algumas religiões entrevistados pelo Diário do Litoral expressam o que acreditam sobre causa e efeito da morte coletiva.
Gnose
“De maneira geral com as mortes coletivas, existem leis superiores, cósmicas, que unem todas essas pessoas num mesmo lugar, num avião por exemplo, e assim se cumpre a lei do karma e do darma, lei de causa e efeito. Nós sofremos as consequências de todas as nossas ações”, a afirmação é do missionário gnóstico George Peel Oliveira.
Perguntado sobre se a morte trágica seria um castigo de Deus, George afirma que não se trata de uma punição, mas de uma correção de faltas anteriores. O efeito resulta de uma ação da própria pessoa.
Com base na teoria de reencarnação defendida pela Gnose, perguntei ao George sobre se todas as pessoas reunidas por uma lei de Deus para morrerem juntas estariam interligadas por seus destinos ainda que não se conhecessem na vida atual, George disse que não. O motivo de se reunirem num mesmo evento fatídico teria como causa, segundo ele, karmas semelhantes a serem cumpridos ou porque chegou a hora da morte dessas pessoas.
Mas, George afirma que o espírito só terá consciência de sua morte física se tiver entendimento para isso. Se não tiver, ainda que amparados por seres superiores em sua nova condição de existência, vagam como se hibernassem sem consciência alguma até o despertar.
“Quando a pessoa desencarna, o corpo físico e o corpo vital são separados do corpo astral. E se o corpo astral é muito mecânico, a pessoa não tem consciência de que desencarnou, e seu corpo astral ficará inconsciente durante um certo tempo sem saber que desencarnou”, afirmou o missionário gnóstico.
Igreja Anglicana
Para o reverendo da Igreja Anglicana de Santos, pároco Leandro Antunes Campos, uma tragédia onde morrem várias pessoas, como na queda de um avião, por exemplo, ou na guerra, resulta unicamente da ação do homem, e não de Deus. Deus nos fez para a vida. A morte como fruto da guerra ou de um acidente trágico é uma interrupção no curso natural da vida.
Independentemente de uma morte natural ou abrupta, para a Igreja Anglicana todas as pessoas que morrem descansam no Senhor, são acolhidas no reino de Deus. “A morte é a Páscoa dos cristãos anglicanos. É uma passagem para uma vida plena. Não há sofrimento (no Paraíso), mas um encontro com Deus, de forma extremamente amorosa”, afirmou o reverendo Leandro Campos.
“A Igreja convoca todas as pessoas para que possam ter pensamento positivo, para que consigam superar esse momento de dor”, concluiu o reverendo.
Vale ressaltar que o propósito desta matéria não é doutrinário, apenas levar aos leitores as interpretações da morte por religiões diversas. Tentamos contatar também representantes da Igreja Católica Apostólica Romana, Judaismo, Igreja Ortodoxa, Seicho-no-ie e Umbanda, mas não conseguimos retorno dos membros até o fechamento da reportagem. Cabe aos leitores tirarem suas próprias conclusões sobre o inevitável e derradeiro destino de todos nós.
Espiritismo
Seguidor da Doutrina Espírita codificada por Allan Kardec, José da Conceição de Abreu, o Zezinho, que também é coordenador do Movimento Inter-religioso, afirma que nada acontece por acaso. Ninguém morre antes da hora. “Para o Espiritismo o acaso não existe. Quem estava nesse avião (Malaysia Airlines) ou em outra situação qualquer de morte coletiva, é porque tinha que estar”.
Zezinho explica que, no Espiritismo, as pessoas sofrem correções de suas ações no futuro ou em outras vidas. O resgate de sua alma, no entanto, não seria uma punição cruel de Deus, mas uma correção permitida pela Misericórdia e Justiça Divina. Logo, assim como na Gnose, em caso de mortes coletivas, as pessoas envolvidas estariam juntas para resgatar faltas cometidas num outro momento, sem que necessariamente teriam experimentado juntas as mesmas “maldades”.
Segundo Zezinho, sempre que há um desencarne, espíritos socorristas vão ao encontro do espírito da pessoa recém-falecida e o acolhe. Num desencarne coletivo ocorre o mesmo. Cada uma das pessoas é acolhida, as que têm consciência de sua morte do corpo físico e também aquelas que não percebem que morreram ou não aceitam a nova condição de vida.
Budismo
O professor do Centro Budista Kadampa Samrim, Luiz Carlos Quadros Smith, explica que tudo o que acontece é fruto de nossas ações. Os efeitos (karma) são nossas experiências de vida. Cada pessoa teria um karma individual e um karma coletivo e criariam suas causas para morrer, sem a interferência de leis do Universo ou mesmo de um deus.
Ainda segundo o professor Luiz Carlos, todas as ações neutras, boas ou ruins gerariam efeitos que serão experimentados na vida atual da pessoa ou nas próximas reencarnações.
“No Budismo, tudo o que nos acontece é resultado de nossas ações”, afirmou o professor Luiz Carlos.
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