A frase é do menino Diego Mendes, de 11 anos, e está entre as últimas palavras que ele falou para a mãe Cristiane, pouco antes de falecer vítima de um câncer raro. A dor de perder um filho é o que a ajudante e moradora do Morro São Bento irá enfrentar neste domingo.
Cristiane Mendes, de 34 anos, foi mãe três vezes. Além de Diego, deu luz a Gustavo, de 15 anos, e a Luana, de 4. E é a caçula quem está dando forças para superar a saudade do filho do meio. A história de Diego repercutiu nas redes sociais após a mãe denunciar a falta de atendimento especializado na Santa Casa de Santos.
Entre as lágrimas de saudade e sorrisos tímidos diante de uma lembrança feliz do filho, Cristiane contou à Reportagem do Diário do Litoral sobre o drama que viveu durante quatro anos de tratamento de um câncer raro, o Tumor de Wilms, que acabou encerrando os sonhos de Diego – ele queria servir o Exército. Acompanhe:
Diário do Litoral – Como foi descobrir que o seu filho tinha uma doença tão grave como o câncer?
Cristiane Mendes – Um dia, precisei levar o Diego no hospital porque ele estava com dores fortes no abdômen. Eu achava que era apendicite, uma dor de barriga, um problema no intestino. Qualquer coisa, menos um câncer. Fizemos uma bateria de exames e o Tumor de Wilms foi constatado. O câncer estava muito avançado. Já tinha pegado 30% do fígado e o rim esquerdo por completo. Até que este momento não foi dos piores, porque o médico disse que tinha tratamento e 85% de chance de cura. Só estas informações já me deixaram mais confiante.
Diário do Litoral – E o que aconteceu depois?
Cristiane – Ele fez três meses de ‘quimio’, fez a primeira cirurgia, tirou o rim e parte do fígado. Além de o oncologista acompanhar seis meses de quimioterapia, o que eu achei muito pouco. Porque pelo que eu tinha pesquisado, casos diagnosticados com câncer ficam até cinco anos em tratamento. Eu sabia que em seis meses, pararia o tratamento. Corria o risco de voltar após um ano e foi o que aconteceu com o Diego. Quando voltou, o médico que me atendeu disse que o tratamento foi pouco porque o tipo de câncer que ele tinha costumava voltar e voltava mais agressiva. Foi o que aconteceu, o câncer atingiu o pâncreas, o baço e o pulmão esquerdo.
Diário do Litoral – Todo o tratamento do Diego foi feito pela Santa Casa?
Cristiane – O primeiro estágio – cirurgia e quimioterapia – foi feito na Santa Casa. No segundo estágio, a cirurgia também foi na Santa Casa, mas ficou o pulmão para tratar antes da terceira cirurgia. Só que na Santa Casa não tinha mais oncologista, foi quando me encaminharam para o Hospital Santa Marcelina, em Itaquera. Lá eles fizeram uma bateria de exames e passaram três meses de quimioterapia. Depois de quatro meses, eu perguntei para o médico se já não estava na hora de retirar o pulmão. Porque, pelo pouco que eu pesquisei sobre o Tumor de Wilms, eu sei que deve ser retirado o foco do câncer para o resto do corpo ser tratado. Mas eles insistiram em mais quatro meses de ‘quimio’ e, ai, necrosou, aumentou, espalhou, piorou o quadro. O que acabou caminhando para esta perca total.
Diário do Litoral – Como foi este tratamento em São Paulo?
Cristiane – Todo o tratamento foi feito com o Dr. Renato. Ele vinha uma vez por semana para Santos. Quando o Diego foi encaminhado para São Paulo descobri que ele não iria mais atender na Santa Casa por falta de pagamento. Era complicado e cansativo subir e descer sempre para fazer qualquer curativo e continuar o tratamento. Não era tão simples ir para o Santa Marcelina quanto o Diego passava mal ou pedir o transporte da Prefeitura.
Diário do Litoral – Você diz que o Diego voltou pior deste tratamento em São Paulo. Por que?
Cristiane – A complicação veio com a retirada do pulmão. Por conta de tanta quimioterapia, o pulmão ficou prejudicado. O médico me dizia que parecia uma gelatina. Então, eles não conseguiram retirar tudo. E como o câncer se alojou muito perto do coração, o Diego ficou mais fraco. Quando precisaríamos retornar com as ‘quimios’ mais fortes, não dava mais. Tudo isso por conta do tempo que eles ficaram tentando curar com a quimioterapia. Se tivessem me ouvido e retirado o pulmão logo, hoje eu poderia estar com o meu filho.
Diário do Litoral – Por que o Diego precisou passar por uma nova cirurgia?
Cristiane – Depois de toda a exposição na imprensa, um médico me apareceu a noite no quarto do Diego e disse que ele teria que passar por uma novo procedimento cirúrgico no coração para a retirada de um líquido. Foi tudo muito rápido e foi onde tudo aconteceu, meu filho foi embora na tentativa de tirar este líquido. Para mim, esta foi uma oportunidade que eles tiveram de acabar com tudo isso. Tudo bem, a situação do Diego era grave. Mas eu achei muito estranho um médico aparecer às nove horas da noite para avisar de uma cirurgia no outro dia, alegando que ele poderia ter uma parada cardíaca a qualquer momento. O Diego estava conversando e comendo.
Diário do Litoral – Você acredita que esta cirurgia complicou o estado do Diego?
Cristiane – Quando ele desceu (do centro cirúrgico da Santa Casa), ele já tinha partido. Eles tentaram animar, mas ele já tinha partido. Eles sabiam que este procedimento seria o fim do Diego. E mesmo assim eles fizeram, eles não me deixaram tentar removê-lo para outro hospital. Como estava muito grave e eu sabia, eles deram um basta. Eles tinham que ter transferido o Diego.
Diário do Litoral – Como o Diego reagiu quando soube que teria que passar por uma nova cirurgia?
Cristiane – Eu não falei para ele assim que soube. Esperei o dia amanhecer para contar. Quando ele viu os médicos da equipe cirúrgica, ele me perguntou: ‘mãe, o que é que vão fazer agora?’ Ai eu falei que ele precisava passar por uma nova cirurgia para não ter uma parada cardíaca. Ela só me responde: ‘agora chega, mãe’. Ele me perguntou se eu deixaria ele ir. Eu tive que explicar que os médicos estudaram para isso. Ele ficou muito nervoso. Antes de ele entrar para a cirurgia, eu perguntei: ‘Diego, você vai voltar?’ Ele falou: ‘Não, mãe, cansei de lutar. Eu não aguento mais’. Ali eu pensei em pedir para ele ficar, mas achava que estava sendo egoísta de pensar assim. Devido ao quadro que ele se encontrava, eu sabia que tinha que aceitar o que Deus tinha para ele dali para frente. Então, eu perguntei o que eu ia fazer com as coisas dele e ele me pediu para dar tudo. Eu me despedi dizendo ‘ Deus te abençoe, meu filho, eu te amo muito’. Foi a última vez que a gente se falou.
Diário do Litoral – O que você acha que faltou para o Diego?
Cristiane – Eu sempre pedia para os médicos darem toda a atenção necessária para o Diego. Eu lutei quatro anos por isso e, no final, não tive a atenção que precisava. Eu queria que um médico especialista tivesse acompanhado o Diego.
Diário do Litoral – Quem indicou a última intervenção?
Cristiane – A última cirurgia foi recomendada por um cardiologista. O Diego precisava de um cardiologista desde o primeiro dia que foi internado na Santa Casa (16 de abril), mas ele só apareceu depois que fomos à imprensa e pedimos a remoção dele. Combinamos com o hospital que não faríamos nenhum procedimento antes da remoção. Mas, eles decidiram operar.
Diário do Litoral – Assim que o Diego foi internado, quais foram os primeiros procedimentos?
Cristiane – Assim que o Diego foi internado, eu mostrei a última tomografia dele para a equipe médica e disse que ele tinha uma massa no lugar onde foi retirado o pulmão. Entreguei a quimioterapia que estava fazendo em casa, que estava no décimo dia. Este foi o tratamento que o Santa Marcelina recomendou por conta da fraqueza do coração dele. Ele foi internado com febre, dores no tórax e com o coração acelerado. Quando aumentava a febre, o coração dele disparava. Mesmo assim, mesmo com este quadro, ele não recebeu o atendimento de um cardiologista.
Diário do Litoral – Que nota você daria para o atendimento que serviço público de saúde durante estes quatro anos?
Cristiane – Eu acho que 5. No começo foi bem, mas depois foi decaindo.
Diário do Litoral – Nesta última internação, a nota seria 5 também?
Cristiane – Não. Seria zero. É muita burocracia, muito obstáculo, e esqueceram que ali se tratava de um ser humano indefeso que precisava de ajuda. É preciso dar mais valor ao ser humano. Pode ter acabado com o sofrimento dele, mas o meu está apenas começando. No Dia das Mães, eu não vou ter o Diego para me abraçar. Está certo que eu pedi para Deus tomar uma providência, mas ao mesmo tempo eu sinto que um homem tomou a providência. Não esperou a natureza vir como deveria ser.
