Papo de Domingo: ‘Esse procedimento é uma visão míope da Língua’

Titular da cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele é autor de várias das principais gramáticas da Língua Portuguesa

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01 MAR 201510h15

Não é comum o uso formal, por escrito, dos pronomes “tu” e “vós” em nosso dia a dia. Duvido que tu, leitor, achaste algum texto jornalístico recente, por exemplo, que utiliza tempos verbais empregando tais pronomes.

Na edição do último dia 15, o Diário do Litoral mostrou a visão da professora Maria Carolina Stivaletti, que defende o fim do ensino da conjugação verbal em relação aos dois pronomes. (Clique aqui para ler) 

Neste Papo de Domingo, o professor Evanildo Cavalcante Bechara oferece um contraponto sobre a questão. Titular da cadeira número 33 da Academia Brasileira de Letras (ABL), ele é autor de várias das principais gramáticas da Língua Portuguesa.

Bechara classifica o método como “uma visão míope da língua” e defende o foco do ensino na Gramática ao invés da interpretação de texto.

Diário do Litoral - Professor, qual sua opinião sobre a exclusão do “tu” e “vós” na Língua Portuguesa?

Evanildo Bechara - Em primeiro lugar, isso foi uma novidade que os linguistas e sóciolinguistas sugerem que o professor deve ensinar aos alunos, principalmente das primeiras séries, somente a língua que eles conhecem. Ora, isso didaticamente é um absurdo. Você ensinar ao aluno a língua que ele conhece é chover no molhado. Você tem que ensinar ao aluno, não só fixar a língua que ele traz de casa, mas também determinadas potencialidades que a língua tem. Resumidamente, o que quero dizer é que o professor tem que apresentar ao aluno a língua em toda a sua potencialidade.

DL - Qual a importância de saber a conjugação dos verbos nesses pronomes?

Bechara - O verbo deve ser conjugado em todas as pessoas. Se fosse assim, você também não ensinaria o aluno a usar o futuro porque geralmente nós não usamos o futuro na língua falada. Você diz “amanhã vou ao cinema”, você não diz “amanhã eu irei ao cinema”. Esse procedimento é uma visão míope da língua. A maioria das grandes gramáticas conjuga o verbo em todas as formas. Se fosse assim, você não ensinaria o mais que perfeito, porque você só utiliza em expressões do tipo “tomara que chova”, “tomara que caia”. Isso é uma visão míope da língua.

“Você ensinar ao aluno a língua que ele conhece é chover no molhado

DL - Quando empregamos o “tu” atualmente?

Bechara - Em todas as regiões do Brasil, os pronomes “tu” e “vós”, de um modo geral, não pertencem a língua real do aluno, eles então acham que o professor não deve ensinar a conjugação de verbos com “tu” e ”vós”. No Rio de Janeiro, por exemplo, o “tu” não é totalmente excluído da língua deles porque o carioca mistura o “tu” e “vós”. Quando, por exemplo, você usa o “tu” em situações em que você procura afastar a pessoa com quem você fala. Por exemplo, se você fala com um amigo, você diz “você”. “Você vai hoje ao cinema?”. Mas se for fazer uma reclamação ao aluno, geralmente você usa o “tu”, dizendo assim “tu pensas o que?”. Dizer que no Rio de Janeiro não se usa o “tu” é um exagero de expressão. Ele não é tão usado como o “você”, mas ele aparece em determinadas situações estilísticas da língua.

DL - E no caso do “vós”?

Bechara - Quanto ao pronome “vós”, se você não ensina o aluno a conjugação, ele não vai saber dizer o “Pai- Nosso” porque a oração tem o “vós”. “Pai-Nosso que estás no céu. Santificado seja o vosso nome”. Você tirar do aluno a possibilidade de ele conjugar corretamente o verbo, em todas as suas formas, é você tirar do aluno a possibilidade dele conhecer a língua em toda a sua extensão. Esse procedimento não deve ser usado. O que não se recomenda é, como muitos livros antigos colocavam entre os seus exercícios, dar um texto que está no tratamento “você” e passar para o tratamento “tu” e “vós”. Isso é realmente exigir do aluno uma situação, um emprego linguístico, de que ele não faz uso.

DL - Um dos argumentos utilizados para a exclusão seria que, antigamente, somente o Direito e a Igreja Católica utilizavam a conjugação de “tu” e “voz”. E não utilizam mais...

Bechara - Isso não procede. Nos textos jurídicos aparece o “vós”. Acontece que, geralmente, nos termos jurídicos, aparecem os pronomes de tratamento, que pedem que você use como se o tratamento fosse de 3ª pessoa. Por exemplo, um advogado fazendo uma minuta a um juiz, dirá “excelentíssimo senhor juiz da vara tal. Venho ao seu conhecimento ou a sua pessoa” e não “a vossa pessoa”.

DL - Como o senhor enxerga os empregos de “tu” e “vós” na língua?

Bechara - É como nosso guarda-roupa. Esses professores que pensam assim devem estar imaginando exatamente da seguinte maneira. “Eu só vou abrir o guarda-roupa para tirar o meu short, o meu tênis”. Não, você tem o short e o tênis, mas ao lado você tem a roupa que ele vai usar para ir a uma cerimônia de maior importância, que não vai nem de short e nem de tênis. Muitos desses professores, também por imitação dos linguistas e sóciolinguistas americanos, como no Inglês, que na sua gramática, conjuga o verbo de uma maneira em que reúne pessoas do discurso, 1ª, 2ª, etc. Eles também acham que no Português devem fazer a mesma coisa.

DL - Qual a sua opinião sobre o ensino da língua focado na interpretação de texto?

Bechara - Ensinar o aluno a só ficar na interpretação é emudecer o aluno. A interpretação é um exercício de compreensão de texto. Na compreensão, o aluno não põe em atividade a sua língua falada. De modo que é também um ensinamento capenga. Se você, por exemplo, vai ensinar uma criança a andar na rua, você não só vai ensinar ela a andar na rua, mas também a se proteger dos perigos que eventualmente possam aparecer. O aluno vai para escola para aprender o que não sabe e não para repetir o que já sabe.