Papo de Domingo: Como falar sobre terrorismo com as crianças?

O Papo de Domingo de hoje vem alertar pais e professores sobre os cuidados necessários para tratar assuntos complexos disponíveis aos pequenos através das mídias e da internet

Em novembro, numa sexta -feira 13, o terror tomou conta dos noticiários. Ataques orquestrados mataram centenas de pessoas em Paris, na França. Um dia depois, o grupo Estado Islâmico assumiu a autoria dos atentados. Notícias ruins são pautadas diariamente em telejornais, jornais ou portais da internet. Tanta informação negativa faz levantar uma questão: como tratar destes assuntos com as crianças?

Continua após a publicidade

Diante de um questionamento inocente, um simples “por que?”, como reagir? Qual a melhor saída? Isolá-la do mundo, situá-la de como as pessoas podem ser más ou, simplesmente, deixar a escola tratar disso? A resposta é o diálogo e, sobretudo, a informação.

Mais do que nunca, a atenção deve estar redobrada já que as mídias e a internet estão muito mais acessíveis às crianças. Por isso, a junção entre a educação “de casa” e os ensinamentos escolares precisa estar presente na vida de uma criança, o que facilitará o entendimento dela para assuntos complexos como o terrorismo e a violência. Manter- se informado, tanto pais quanto professores, vai ajudar a criança a ter consciência do mundo em que vive sem que as mazelas a comprometam de alguma forma.

Continua após a publicidade

Para tratar sobre estes questionamentos, o DL teve um papo sério com a pedagoga, psicopedagoga e psicomotricista do Espaço Sondar, Silvia Maria Fernandes Simões Soares, que também atua como orientadora educacional no Colégio Coração de Maria, em Santos.

Diário do Litoral – Como o terrorismo deve ser explicado às crianças?

Continua após a publicidade

Silvia Soares – Da forma mais contextual possível, ou seja, exemplificando situações de sua realidade. A explicação deve ser conforme a faixa etária. As respostas devem ser feitas conforme suas perguntas, pois às vezes, nós adultos explicamos mais do que elas pediram, e não é necessário.

DL – Há uma faixa etária certa para começar a tratar sobre estes assuntos?

Continua após a publicidade

Silvia – É necessário respeitar o tempo e a fase da criança. A criança até seis anos deve brincar de todas as formas, pois encontra-se em desenvolvimento físico, emocional e cognitivo, embora não possamos nos assegurar que elas não vejam. É importante que na escola, o olhar do educador seja sensível e atento, caso apareçam semelhanças nas brincadeiras. Muitas vezes nossas crianças imitam o que vêem, assim como copiam os desenhos em suas brincadeiras de super-heróis. A família, também deve ter o cuidado com o que deixa na TV, a criança por não ter maturidade copia achando que é comum, aquilo que é triste. Hoje a família deve sempre observar o que chama atenção da criança e verificar, sutilmente, se ela compreende o que vê ou faz.

DL – Como as escolas devem trabalhar este assunto com as faixas etárias menores, que não aprendem ainda sobre este tipo de acontecimento histórico, mas recebem a informação de forma externa à sala de aula?

Continua após a publicidade

Silvia – Devemos responder aquilo que é questionado. Trabalhar esse assunto com os menores, numa sala de aula, possivelmente seja necessário recorrer as estratégias mais cotidianas, que ofereçam a compreensão. Os trabalhos com projetos são bem eficazes e fazem parte do currículo da Educação Infantil.

DL – A informação está altamente disseminada entre todas as faixas etárias. Cada vez mais crianças menores têm acesso às redes sociais e internet. Como os pais devem acompanhar isso, principalmente em se tratando de notícias como estas (terrorismo e guerra)?

Continua após a publicidade

Silvia – Colocar as crianças até sete anos em redes sociais e internet, ou seja nos computadores, é queimar fases que precisam se desenvolver, e despertar sentimentos e comportamentos que precisam ser amadurecidos. As crianças quando estão expostas a essas mídias ficam bem mais agitadas, devido à hiperestimulação da tela do computador, independente do programa; como também, o “corpo parado” que fica sentado nessa fase, precisa gastar energia. É compreensível que as rotinas familiares tenham se modificado. Hoje muitos pais trabalham fora, e a criança fica com um familiar ou babá, escola ou creche, e somente à noite tem contato, mesmo assim os pais precisam estabelecer regras e fazê-las acontecer. Agora, se é opção da família deixar esse contato, então o acompanhamento deve ser de perto, constante, observador e questionador, pois podem interferir nas atitudes das crianças e estas devem ser questionadas.

DL – Como os pais devem explicar sobre o assunto?

Continua após a publicidade

Silvia – Os pais devem se informar e perguntar o que eles querem saber.

DL – É saudável para o desenvolvimento escolar das crianças que elas acompanhem o noticiário diário?

Continua após a publicidade

Silvia – Sim, existem práticas pedagógicas que favorecem a leitura e interpretação de texto, conteúdos que necessitam de estímulo. Procurar uma notícia e até mesmo, assistir um noticiário pode servir, de uma forma, para estimular diálogos que incentivem as opiniões e críticas. Geralmente esta estratégia é usada com crianças a partir de nove anos, quando elas já estão apropriadas de alguns gêneros textuais. Mas esta estratégia também pode ser usada com acontecimentos de final de semana ou familiares em crianças bem menores, preparando-as para fases maiores. A notícia diária possibilita conhecer e reconhecer o mundo. A criança precisa também ver outras realidades e culturas. Quando essas notícias são dialogadas, refletidas, as crianças enxergam de outra forma o tema envolvido reproduzindo opiniões.

DL – Em quais atividades e de que forma os professores podem tratar sobre o noticiários diários com os alunos?

Continua após a publicidade

Silvia – Antes mesmo de reconhecermos a importância do respeito ao indivíduo, precisamos vivenciar algumas rotinas como: levantar combinados nas classes, estabelecer regras e discutir suas consequências, caso não sejam cumpridas; contar como foi o final de semana, incentivando a oralidade, concentração, memória dos acontecimentos, ordem dos fatos ocorridos (começo, meio e fim), prontidão necessária para a futura alfabetização; dialogar sobre nossas atitudes em classe, ou mesmo algum fato ocorrido, na escola e assim instigar o pensar nas consequências, são meios enriquecedores para nossas crianças; e oportunizar um plenário, onde ludicamente ensinamos regras: saber ouvir, hora de falar, momento de pensar, respeitar opinião, sugerir outras ideias.