Foram mais de 40 dias de ocupação em três escolas da Baixada Santista. Alunos da escolas estaduais Cleóbulo Amazonas Duarte e Azevedo Júnior, em Santos, e Renê Rodrigues, em Guarujá, decidiram seguir, desde a segunda quinzena de novembro, as manifestações que já ocorriam em outras unidades no Estado de São Paulo. A principal reivindicação do movimento era o fim da reorganização escolar, proposta pelo Governo.
Após intensos conflitos entre estudantes e policiais, e o fortalecimento das manifestações, na Capital, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) revogou, no dia 5 de dezembro, a reorganização escolar. Mesmo com o fim da medida, as escolas permaneceram ocupadas. Na Baixada Santista, a primeira unidade a ser desocupada foi a Rene Rodrigues, no dia 24 de dezembro. A segunda foi a Cleóbulo Amazonas Duarte, no último dia 4, após a ocorrência de furtos e vandalismo protagonizados por adolescentes alheios ao movimento. Os ocupantes do Azevedo Júnior deixaram o colégio no dia 5.
Segundo a Diretoria Regional de Ensino – Região Santos, que abrange 84 escolas dos municípios de Santos, Guarujá, Cubatão e Bertioga, o prejuízo estimado, com depredação e furtos de equipamentos, levantado após as ocupações, é de aproximadamente R$ 650 mil, sendo a maior parte na Cléobulo Amazonas Duarte.
Neste Papo de Domingo, o diretor regional de Ensino João Bosco Guimarães fala sobre o desfecho das ocupações.
Diário do Litoral – Qual a avaliação, com relação aos prejuízos, que a Diretoria faz pós-ocupação?
João Bosco – São três tipos de prejuízo. O prejuízo mais grave é o prejuízo pedagógico, pois esses 30 dias letivos sem aula não têm como recuperar. Vai se tentar agora, recuperar esse tempo todo em janeiro. Mas temos muitos alunos que fizeram vestibular, já pagaram a inscrição na faculdade e estão com o futuro cortado. Alunos, por exemplo, que conseguiram empregos e precisam provar no novo emprego que concluíram o ensino médio.
Esse movimento, além de prejudicar a reorganização, que eles diziam que ia destruir o ensino, prejudicou os próprios alunos. O Cléobulo, por exemplo, ganhou um nome muito ruim pela invasão. Temos muitos pais procurando a Diretoria porque não querem mais os filhos estudando lá. Alguns pais que têm medo dos filhos conviverem agora com alunos que depredaram e destruíram o patrimônio. Alunos que desafiaram o poder público, porque nem o Conselho Tutelar conseguiu corrigir esse rumo que tomou as invasões.
Lembrando que as invasões começaram com uma bandeira que era terminar a reorganização. A reorganização acabou no dia 4 de dezembro, e só no dia 4 de janeiro é que entregaram o prédio.
DL – Os alunos do Cléobulo disseram que a situação fugiu do controle e pessoas que não faziam parte do movimento invadiram a escola para praticar atos de vandalismo e furtos.
João Bosco – Eles tinham a posse do imóvel. Onde eles cometeram, ao meu ver, um crime? Quando viram alguém cometendo crime contra patrimônio público e não fizeram nada. A partir do momento que eles estavam aqui e viram essas supostas pessoas que eles dizem, primeira coisa é eles terem chamado a polícia ou a caseira. O problema é que, agora, as ações vão vir para eles. Eles vão ter que responder.
DL – Vocês pretendem mover um processo contra esses alunos?
João Bosco – É óbvio. Eles são os responsáveis. A Procuradoria já está encaminhando isso. A partir do momento que eles tinham a posse do imóvel, eles assumem total responsabilidade. Eles entravam e saiam das partes arrombadas da escola como eu entro na minha sala. São menores de idade e os pais foram chamados.
DL – Na reunião que o senhor cita a ata, os alunos disseram que fizeram algumas reivindicações específicas. No caso do Cléobulo, eles pediram a saída da Diretoria de Ensino do prédio da escola e o restabelecimento do sexto e do sétimo ano. Isso será atendido?
João Bosco – No dia 18 de dezembro um advogado protocolizou um documento na Diretoria solicitando algumas exigências locais para que a gente pudesse negociar. Algumas delas não têm o menor cabimento. Qualquer cidadão que tenha a mínima noção de realidade sabe que o Brasil está em uma crise muito grande. Não tem justificativa tirar a Diretoria de Ensino, que está instalada em um prédio estadual, para fazer o que eles querem que é pagar aluguel. Como é que você vai criar mais despesa para o Estado sendo que você tem uma escola vazia? Se você pegar o número de alunos matriculados e frequentes na escola, não chega a 400. Quatrocentos alunos dividido em dois períodos dá uma média de 200. Duzentos alunos se você coloca 40 em cada sala dá uma média de cinco classes. O Cleóbulo tem 13 salas. Ou seja, você pode tranquilamente usar tudo que tem e ainda tem capacidade para atender mais que o dobro de demanda. Só que uma demanda que não existe.
DL – E com relação ao sexto e ao sétimo ano, que era outra reivindicação?
João Bosco – A única forma de ter sexto e sétimo ano é se tiver demanda – e não tem. Se pegar, por exemplo, o Cleóbulo ano após ano, dos últimos 15 anos para cá, o número de alunos foi diminuindo. Essa escola chegou a ter, em 2000, uma média de dois mil alunos. Quando eu vim para cá, em 2013, tinha uma média de 770. Hoje não passa de 440 alunos matriculados. Sentados assistindo aula não chega a 400.
DL – No Azevedo Júnior, a principal reivindicação dos alunos era contra a transferência gradual do Ensino Médio para a escola o Primo Ferreira, que fica ao lado.
João Bosco – Isso não vai mais acontecer. Quando o governador suspendeu a reorganização isso tudo já foi eliminado. Hoje eu consigo entender o que há por trás desse movimento, que não é um movimento de estudantes. Quando você conversa com eles, em todas as reuniões que a gente fez, percebese que foram manipulados. É público e notório. Sem querer os alunos soltam que tal partido ajudou com x reais, tal sindicato trouxe x reais ou alguma outra coisa. E apoio dos advogados também. Porque você não tem um movimento de estudantes com tanto apoio jurídico assim. Diziam que o movimento era a favor da educação, porém quando eu entro nas escolas invadidas só vejo destruição. Vejo mais de dois mil alunos, quando você soma os alunos das três escolas, impedidos de ter acesso aos bancos escolares. São dois mil alunos que até agora não terminaram o ano letivo.
DL – Como vai proceder essa reposição das aulas?
João Bosco – Não é bem uma reposição. A gente chama de continuidade do ano letivo, porque o ano letivo ainda não terminou. Provavelmente vá até o final deste mês. Em alguns casos, possivelmente invada o mês de fevereiro. O ano letivo de 2016 está previsto para iniciar em 15 de fevereiro. Vamos fazer o possível para que essas três escolas também iniciem nesta data. Só depois vamos falar em férias para os docentes em junho e outros descansos.
DL – Como será, daqui para frente, a relação com os alunos que participaram das ocupações nessas três escolas? Durante as ocupações, os alunos também abordaram a questão da educação ser mais inclusiva e participativa.
João Bosco – Antes da ocupação, desde outubro, antes em se falar em reorganização, estávamos montando um ano letivo para 2016 totalmente diferente do que montamos até agora. Estamos prevendo um novo início de tudo, porém esses alunos vão ter que repensar o que fizeram. Porque você construir a tua prática de aluno sobre o terrorismo não é correto. Se por um lado a gente acredita que a reorganização nem sempre traria o que é de melhor, como eles dizem, o processo que eles desencadearam em ser contra também não é o correto. Me parece que para esses alunos o que é importante é que ‘tem que ser como eu quero senão eu viro a mesa’, mas a vida não é assim. Aqui na escola é a parte acadêmica. O aluno quando vem para escola já tem que trazer de casa uma carga de valores morais. É o respeito, a tolerância, o confiar no outro, o respeitar o parecer do outro. É trabalhar a igualdade e a tolerância em todos os níveis. Penso que no currículo oficial do Estado de São Paulo, que já tem isso, os temas transversais, cada vez mais os professores em sala de aula vão ter que fazer esse trabalho. Por mais que você chame a comunidade para vir para dentro da escola, eles não vêm. Parece-me que a população está alheia ao que ocorre nas escolas.
