A entrevista concedida ao Diário do Litoral pelo diretor Regional de Ensino, João Bosco, publicada no Papo de Domingo do último dia 10, causou indignação à direção do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp). No Papo de Domingo de hoje, a diretora executiva estadual do órgão, Sonia Maciel, sai em defesa das ocupações que ocorreram na Baixada Santista contra o processo de reorganização da rede estadual de ensino, revelando que o Governo Geraldo Alckmin deveria ter a humildade de aprender com os acontecimentos, realizar um processo democrático de debates e atender os verdadeiros anseios da comunidade. Disse mais: “a ordem era criminalizar as ocupações”.
Diário do Litoral – Uma questão diferente na ocupação aqui foi a de que a Diretoria de Ensino fica no mesmo prédio da Escola Estadual Professor Cleóbulo Amazonas Duarte?
Sonia Maciel – Sim e isso causou um equívoco. A ocupação ocorreu na escola e não interferiu na área da Diretoria de Ensino, que foi transferida para a unidade sob a alegação que a escola estava esvaziada. Se chegou a essa situação é porque as escolas têm pouco a oferecer aos alunos. Há uma imensa falta de professores. Há salas com 65 alunos e isso foi denunciado na Secretaria Estadual de Educação. A lei que limita a até 40 alunos não vem sendo respeitada.
DL – A Diretoria alega que houve prejuízos por conta das ocupações. Houve de fato?
Sonia – A matemática não está sendo muito boa. Falar que houve um prejuízo de R$ 650 mil na Diretoria de Ensino. Ora, três ou quatro fechaduras de portas danificadas, em que se gasta em média R$ 40,00 para recuperar, não chega nem perto do valor denunciado. Na verdade, houve prejuízos de papéis que trarão problemas na questão das aposentadorias dos professores, que estão paradas por conta de falta de funcionários. A tramitação para um professor se aposentar leva de três a quatro anos.
DL – Foi alegada a existência de furtos.
Sonia – Sim, alegaram que foram furtados cinco tablets. Na verdade, essas ocupações serviram para mostrar à sociedade como estavam sendo gerenciadas as escolas públicas. Merendas vencidas por falta de condições ideais de armazenamento de pacotes furados por ratos, livros aos montes estocados, ou seja, não foram distribuídos. Já foi mostrado caminhões de lixo recolhendo material nas escolas. Isso sim foi comprovado e gerou prejuízo. E mais, se os tablets foram furtados, por que não houve registro policial da ocorrência?
DL – O diretor disse que algumas pessoas que ocuparam as escolas não eram alunas. Isso ocorreu?
Sonia – Sim e a direção foi comunicada pelos próprios alunos que perceberam, de madrugada, elementos estranhos pulando o muro da diretoria da escola que não tomou qualquer providência. A Apeoesp não participou diretamente das ocupações, mas apoiou os alunos na questão jurídica e alimentar.
DL – A Direção Regional disse que irá processar os alunos. Como a Apeoesp vê essa situação?
Sonia – Essas ameaças não têm nexo. É preciso recordar que a Justiça Estadual condenou a reorganização proposta pelo Governo. O Tribunal de Justiça atendeu ação, impetrada pelo Ministério Público e Defensoria Pública, mandando suspender o processo e determinando um amplo debate sobre a educação. É como disse a presidente da Apeoesp Maria Izabel Azevedo Noronha: “Podemos discutir qualquer aspecto das ocupações, mas é inegável que elas foram uma resposta da comunidade à falta de diálogo e às políticas inadequadas do Governo Estadual. Vamos apoiar e defender juridicamente a posição dos alunos”.
DL – A senhora acredita que houve alguma iniciativa para tentar desmoralizar a iniciativa dos alunos?
Sonia – No final de novembro, houve uma reunião da Secretaria Estadual de Educação em que as conversas, que acabaram vazando, davam conta de que a ordem era criminalizar as ocupações. Promover a destruição para incriminar os alunos. E isso ocorreu em algumas escolas. Em Osasco, tivemos que socorrer uma situação, bem como em uma escola no Interior. Aqui no Cleóbulo, tivemos que sair de madrugada e apelar à Promotoria Pública. A Direção de Ensino nos disse que um ônibus de fora da cidade chegou com vários elementos para ocupar a escola. Ora, ninguém anotou a placa e chamou a polícia! Não é estranho isso? O único preso foi um ex-aluno que foi expulso da escola e se infiltrou aos demais estudantes que ocuparam o prédio. Depois, foi falado que roubaram fiação. Meu Deus, aluno pode fazer tudo, menos roubar fiação.
DL – Qual a versão da Apeoesp sobre a ocupação?
Sonia – A Apeoesp, sindicatos da região e pais de alunos que passavam as noites no entorno do prédio não viram qualquer ato que desabonasse os alunos. Quando perguntávamos aos estudantes o que eles estavam precisando, a resposta era a seguinte: material de higiene, comida, tinta, cal e material para limpar a escola. Temos fotos de alunos raspando o limo e limpando os banheiros. Se houve um prejuízo de R$ 650 mil, a Direção de Ensino terá que provar. Não se pode tirar férias no auge da ocupação e depois alegar que houve depredação do patrimônio.