Papo de domingo: “A Baixada não teve do atual governador o respeito que ela merece”

Ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha visitou a redação do Diário do Litoral e concedeu entrevista onde aborda questões como saúde e segurança pública

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23 MAR 201401h15

Ex-ministro das Relações Institucionais (Governo Lula) e da Saúde (Governo Dilma Rousseff), o médico Alexandre Padilha visitou cidades da Baixada Santista para realização de diagnósticos. As visitas integram a Caravana Horizonte Paulista, na qual o PT colhe dados para apresentar na campanha pela disputa ao Palácio dos Bandeirantes, em outubro. Padilha foi o ungido pela legenda da estrela vermelha para tentar acabar com os 20 anos dos governos tucanos. Na tarde de sexta-feira, ele visitou o DL e concedeu a seguinte entrevista, onde aborda questões como saúde e segurança pública. 

DL - O senhor deu uma declaração, em Cubatão, sobre a necessidade de se ampliar o número de cursos de medicina. O senhor estava se referindo a cursos públicos ou privados?

Alexandre Padilha – Os dois.

DL – Mas isso não vai contra orientação dos conselhos de Medicina?

Padilha – Eu enfrentei essa resistência. A resistência que nós tivemos a coragem de enfrentar para aprovar a lei do Programa Mais Médicos foi por três grandes motivos, primeiro porque nós criamos um programa que garantiu a presença de médicos nos bairros mais pobres das nossas cidades, apenas para aquelas unidades de Saúde onde nós não conseguimos números de médicos brasileiros suficientes. E essa Caravana Horizonte Paulista só reafirma o quanto foi correto esse programa e a velocidade de implantação. Em menos de um ano, mais de 13 mil médicos estarão atendendo já a partir de abril. Passamos em cidades como Praia Grande, com mais de 20 médicos; Cubatão, três e mais 11 estão chegando até abril. O impacto é exatamente onde não conseguimos fixar o profissional médico. São médicos com muita qualidade, tanto brasileiros, como de outros países, que estão vindo com o compromisso de atender de forma humanizada, acompanhar os pacientes de segunda a sexta-feira nos postos de saúde. Outra resistência é exatamente com relação à ampliação de vagas de medicina no País.

DL - Mas há uma crítica de que isso poderia diminuir a qualidade do ensino. Como o senhor vê isso?

Padilha - A lei que criou o Mais Médicos tem critérios muitos claros de ampliação dos cursos de medicina com a qualidade nos cursos. O Brasil tem poucas vagas de cursos de medicina. Tem muitas escolas, é verdade, mas são escolas com poucas vagas. A lei do Mais Médicos criou critérios de acompanhamento de qualidade para ampliarmos o número de vagas e também propondo um teste chamado Teste de Progresso.

DL - Como ele funcionará?

Padilha - Será para avaliarmos a qualidade das escolas, mas não apenas as que vão surgir, mas as atuais também. Nos segundo, quarto e sexto ano serão feitas provas que serão aplicadas aos estudantes. Caso o estudante tenha um desempenho aquém do que se espera, poderá não se permitir o vestibular no próximo ano para reforçar a qualidade. A questão da qualidade não está vinculada a abrir mais escolas ou não. Também tem de ser das que já existem. E a terceira resistência foi a questão de ampliar as vagas de Residência Médica, de especialização, para formar mais cirurgiões, mais neurologistas, mais pediatras, especialidades que o Brasil precisa cada vez mais. Nós tivemos a coragem de enfrentar essas resistências. O Mais Médicos é agora uma lei e o Governo Federal vai implementar esse programa, e o Governo do Estado de São Paulo pode ajudar muito na implementação apoiando os médicos, mobilizando em suas universidades estaduais abrindo a possibilidade de ampliação não só na área de medicina, mas da área de Saúde , e ampliando fortemente o acesso das residências médicas nos hospitais estaduais. Eu sou daqueles que acreditam que vai ter mais chances de o médico estar comprometido com a população que mais precisa, na periferia de uma cidade, quando se der a oportunidade para um jovem da periferia de cidades como Santos ou de outra cidade da Baixada de entrar no curso de medicina. Por isso é importante abrirmos mais cursos de medicina, tanto públicos como de faculdades privadas. Até porque desde 2011 nós criamos uma regra que permite ao estudante que fizer medicina em uma universidade privada ter o curso custeado pelo Ministério da Educação, através do Fies, e depois de formado, ao invés de pagar de volta para o Ministério da Educação a dívida que ficou, se ele for trabalhar no SUS, vai receber e fazer uma residência que o SUS mais precisa, deixa, desconta da dívida e, depois da especialização, se ele for trabalhar no SUS, além do salário da Prefeitura, vai descontar o tempo trabalhado.

DL - Há alguma indicação do partido em mudar o pagamento dos médicos cubanos?

Padilha - Em primeiro lugar, o que ouço são elogios à atuação dos médicos cubanos. Todas as cidades em que vamos acompanhar o trabalho há elogio por parte dos pacientes, por parte dos meus colegas médicos que estão no SUS. Porque não tem nada mais frustrante para um médico que está em um plantão, ter de deixar de atender um caso mais grave para atender outro mais simples. Ouvi que depois da chegada dos médicos cubanos reduziu o encaminhamento de casos mais simples, entãoeles podem se dedicar aos casos mais graves. Ouvi elogios dos prefeitos de todos os partidos, que estão apoiando a vinda dos médicos. São mais de 13 mil médicos atuando. Se um ou outro médico quer ir para os Estados Unidos, isso é opção dele. Temos que respeitar essa opção. Mas isso não vai impedir um programa que está atendendo mais de 50 milhões de brasileiros que não tinham médicos em seu bairro. Tudo o que puder ser aprimorado, deve ser aprimorado. Eu, por exemplo, ainda antes de sair do ministério negociei aumento de recursos direto do Ministério da Saúde a esses profissionais. Agora, o Programa Mais Médicos foi vitorioso, está atendendo a população e o nosso foco é exatamente atender as pessoas que não tinham médicos.

DL - O senhor citou, em Praia Grande, a demora do Governo do PSDB na realização de projetos na área de Transportes. Há outro setor do Governo do PSDB também muito criticado, que é o da Segurança Pública. Só para ilustrar, na noite de quinta-feira tivemos em Santos uma rebelião na cadeia anexa do 5º DP de Santos por conta da superlotação. Já há algum esboço de programa, no PT, nessa área?

Padilha - Quanto a esse problema que você citou das cadeias e lotação dos presídios, 35% dos presidiários no Estado de São Paulo são pessoas com penas provisórias, ou seja, não tiveram concluído o julgamento de suas penas. Uma ação mais forte do Governo do Estado com o Poder Judiciário para acelerar uma definição dessas penas pode significar a redução de lotação dos presídios, tirar a pessoa que está lá à serviço do PCC (Primeiro Comando da Capital), sendo conquistada pelo PCC, e que poderia estar cumprindo sua pena de uma forma mais adequada. Essa é uma primeira ação que pode ter um impacto muito positivo. Segundo, nós queremos uma polícia mais presente nas ruas para defender as pessoas. Nós estamos construindo nessa caravana proposta de reestruturação da distribuição de policiais, dos distritos policiais e das viaturas em todo o Estado de São Paulo porque os critérios não estão claros. Por que uma cidade tem mais delegacia do que outra? Por que uma cidade tem mais distrito do que outra?

DL - A Baixada Santista é prejudicada porque tem movimento sazonal não só na temporada de verão. Isso atinge especialmente Praia Grande.

Padilha - É isso que ocorre. Não há um preparo para o aumento sazonal da população. E é preciso também uma reestruturação interna para garantir um maior número de policiais nas ruas, fazendo as ações que tem de ser feitas. Há uma parcela significativa de policiais hoje ocupados em funções administrativas, dentro do batalhão, dentro do quartel.

DL - Mas um governo, em quatro anos, consegue mudar isso em uma instituição centenária como a polícia?

Padilha - Se for o governador, do jeito que está, não muda. Porque não tem coragem, não tem vontade para mudar essa estrutura. O PT tem mostrado a vontade de ser dinâmico. Muita gente perguntava: em um ano é possível colocar 13 mil médicos no Brasil? Nós mostramos que é possível. Tem que ter vontade. Tem que ter determinação para enfrentar um problema grave como o da Segurança Pública. Estávamos costumados a ouvir relatos de pessoas que moravam na Capital, ou em um grande cidade, e que tinham o sonho de se aposentar e ir para o Litoral porque queriam viver tranquilo. O que eu tenho mais ouvido nessa caravana são relatos de quem vive em pequenas cidades, ou no Litoral, são relatos da sensação de falta de segurança.

DL - O prefeito de Praia Grande, Alberto Mourão (PSDB), por exemplo, tem feito pedidos sucessíveis para o Governo do Estado para que mande mais policiamento. Há outras cidades consideradas perigosas no Litoral, como São Vicente. Como se reverte isso?

Padilha - O atual governador, o tempo todo em que governou esse Estado, não respeitou e não deu a prioridade para a Baixada Santista. A prioridade que essas cidades merecem. Aqui está o coração do desenvolvimento do Estado.

DL - Há condições de trazer policiamento rápido para a Baixada, em um eventual Governo do PT?

Padilha - Nós defendemos a restruturação e distribuição dos efetivos das polícias Militar e Civil. Tem de se considerar o tamanho da população fixa e o tamanho da população sazonal. E não basta fazer apenas Operação Verão e no Carnaval. A Baixada Santista não teve do atual governador, o tempo todo em que ele governou o Estado, o respeito que ela merece. O Turismo, por exemplo, requer segurança pública.

DL - Para um partido como o PT que deseja acabar com a hegemonia do PSDB, que governa o Estado de São Paulo há 20 anos, como estão as conversas com outros partidos para formação de chapa, a busca de um nome para vice?

Padilha – Em primeiro lugar, as tratativas estão sendo feitos sobre programa de governo. Essa Caravana Horizonte Paulista está circulando cada região do Estado de São Paulo, conversando com todos os partidos políticos, inclusive os que fazem oposição ao Governo Federal. Estive com o prefeito do DEM de Bertioga (Mauro Orlandini), estive com o prefeito do PSDB em Itanhaém (Marco Aurélio Gomes) discutindo as propostas para a região, estive com vereadores em Mongaguá. Discutimos com empresários, com trabalhadores, o PT quer discutir com quem não pensa igual ao PT, com quem pensa diferente do PT para construirmos um projeto consistente para o Estado de São Paulo, a partir de cada região.

DL - Dificilmente sairá uma chapa pura (governador e vice do PT)?

Padilha - O PT amadureceu ao longo desses anos. Fui ministro das Relações Institucionais do Governo Lula, fazia a articulação com todos os partidos, inclusive com a oposição. É esse o PT amplo que conversa com todos, que é o PT que vai ganhar o Governo do Estado de São Paulo. Estamos fazendo a caravana dessa forma, construindo o plano dessa forma e vai ter uma aliança política ampla e vai ganhar no Estado.

DL - Pelo que se nota de seus discursos hoje, em Praia Grande e em Cubatão, dá para perceber que a campanha do PT será baseada na falta de velocidade nas ações do Governo do Estado. É isso?

Padilha - Falta ao Governo do Estado hoje alguém que tenha coragem, dinamismo e que acompanhe a velocidade do povo paulista.

DL - Seu sucessor no Ministério da Saúde, Arthur Chioro, começou patinando com questionamentos referente a uma empresa dele e com o episódio de ter levado a esposa, em uma ação no Carnaval, no avião da FAB (Força Aérea Brasileira). O senhor acredita que ele fará uma boa gestão no ministério?

Padilha - Eu torço para que o ministro Artur Chioro não só faça uma boa gestão, mas muito melhor do que a minha. Torço para que a Saúde no País possa avançar cada vez mais. O ministro Arthur Chioro já mostrou, nas experiências que teve, quando foi secretário em São Vicente, quando foi secretário de São Bernardo, o respeito que ele tem com a coisa pública, a qualidade e sua experiência e sua qualidade como gestor. Torço para que ele seja um excelente ministro da Saúde e faça mais do que eu fiz.