Papa terá de enfrentar crise e definir novos rumos

O substituto de Joseph Ratzinger terá de definir o que deve e o que pode ser reformado nessa instituição milenar

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02 MAR 201315h35

O novo papa assumirá uma Igreja em crise. O substituto de Joseph Ratzinger terá de definir o que deve e o que pode ser reformado nessa instituição milenar. Será obrigado a enfrentar grandes desafios. Há os religiosos, como o de reafirmar o rumo teológico da Igreja e reanimar a religião católica em uma Europa cada vez mais secular. Existem os temporais, como o de adaptar o governo dessa instituição ao crescimento de fiéis no Terceiro Mundo e reformar a administração da Cúria de Roma e de sua burocracia, além de combater de forma eficaz os casos de pedofilia e de corrupção. Deve ainda enfrentar os temas ligados à moral, à família e à sexualidade. Tudo isso para manter a fé católica como uma realidade inteligível em um mundo em transformação.

O primeiro dos desafios do novo papa será determinar o que não se altera na Igreja, aquilo sobre o qual não se deve transigir em matéria de fé. Os teólogos dizem que esse ponto é o papel central desempenhado por Cristo na fé e o da Igreja como o instrumento divino para a salvação. "O próximo papa vai reforçar essa linha", afirmou o frei e professor de Teologia Clodovis Boff.

Para ele, um papa pode reexaminar moral sexual, família ou a posição sobre a homossexualidade. "Mas sempre pressupondo Cristo como o ponto de onde parte o diálogo." Portanto, é pouco provável que o caminho para uma possível reforma seja uma doutrina como a do cristianismo anônimo do teólogo Karl Rahner. Ele enxerga a substância da fé mesmo entre aqueles que não se dizem cristãos. Basta que seja autêntica e ali estará presente a graça. Se Cristo pode existir sem ser confessado, central não seria mais a fé, mas a ética. Bastaria ser justo e bom para encontrar a salvação - um cristianismo palatável a ateus e agnósticos. Difícil é conciliá-lo com uma fé que deve ser exposta. "E deve ser mantida até diante do perigo da morte e do martírio", diz Clodovis.

A primeira reunião dos cardeais, que antecedem o conclave, acontecerá nesta segunda-feira (4) (Foto: Divulgação)

O segundo desafio é o fato de a crise da Igreja ser acompanhada pela erosão do eurocentrismo. Não só o Velho Continente, mas sua filha cultural dileta, a América, assistem à descentralização econômica, social e cultural e à ascensão das potências asiáticas. Esse período é marcado pela descristianização da Europa, por uma fobia da religião, com o fechamento de templos e venda de objetos sacros como souvenirs da época em que fazia sentido chamar a Espanha de "catolicíssima" - o mesmo valia para Irlanda ou Áustria.

"É verdade que o cristianismo e o catolicismo estão em crise, em parábola descendente, mas não é só eles, a própria cultura europeia vive essa crise", diz Clodovis. Essa cultura em que a racionalidade secularizada é hegemônica não responderia a demandas humanas. Isso ocorria, segundo os teólogos, porque ela exclui o transcendente e, ao negar a espiritualidade, abandona parte da inspiração, da emoção e da vitalidade humana.

Essa razão moderna secular busca em uma lógica do aceitável, na comunicação e no diálogo, a construção de uma ética que pode ser compartilhada por todos os homens a fim de fugir da subjetividade de uma moral baseada nas escolhas ditadas apenas pela consciência individual. Mas ela sofreria as consequências de um secularismo incapaz de suprir a necessidade de esperança que têm os homens. "Para muitos, a saída foi assumir essa frustração, essa situação de desespero, esse amor estoico ao destino fracassado", afirma Clodovis.

Mas o que deve o novo papa fazer para enfrentar essa crise? "Certamente deve preparar a Igreja para o fim do eurocentrismo", diz Clodovis. À crise cultural, soma-se a das vocações, da formação de padres na Europa. Cada vez mais marginal no continente, o cristianismo cresce no Terceiro Mundo. É para lá que muitos acham que a Igreja deve se voltar. É nele que se buscam hoje padres para manter abertos templos na França, na Itália e na Alemanha, de onde saíram gerações de religiosos para evangelizar outros continentes.

Espaço

Há resistências, no entanto, a essa mudança de centro do poder na Igreja - fazê-la é outro desafio para o novo pontífice. Para o historiador Kenneth Serbin, o modelo monárquico de governança da Igreja trabalha a favor do eurocentrismo, impedindo que nações com grande número de católicos tenham boa representatividade no conclave, caso do Brasil. "Em vez de 5, o Brasil devia ter 20 cardeais votantes e a chance de ter um papa. Mas quem tem o poder não quer abrir mão dele."

Para ele, a renúncia de Bento XVI abre espaço para que se cogite um pontífice sul-americano, africano ou asiático. "Mesmo porque o futuro do catolicismo está nos outros continentes, não na Europa, que, daqui a cem anos, pressinto que possa ter uma maioria islâmica ou secular", acrescenta Serbin.

Qual seria o efeito de um papa não europeu? Teólogos e estudiosos da Igreja imaginam que ele daria força ao cristianismo e, partir daí, a Europa teria mais condições de se reconverter. "Um missionário tem de vir de fora, deve ser estrangeiro", diz Clodovis. Foi da margem, de fato, que essa religião surgiu. Pedro escolheu Roma porque era o centro do império, mas não era um grande filósofo nem um patrício. Mesmo Cristo era um profeta saído da periferia do mundo. Em suma, "santo de casa não faz milagre", concluiu Clodovis.

Cúria

Para Serbin, o momento atual, com a renúncia de Ratzinger, traz à luz uma crise de liderança que não se resolverá com o novo papa, mesmo que ele seja carismático como João Paulo II. Ela impõe mais um desafio ao futuro pontífice. "Se o novo papa não aproveitar esse momento de crise para reformar a Igreja, será um fracasso."

Ele defende a convocação de um novo concílio, um Vaticano 3.º. "Se a ideia parecia inviável há um mês, agora já não é." O concílio poderia mudar a forma de governo da Igreja. "Paulo VI chamou vários sínodos, uma prática que foi caindo em desuso, até desaparecer com Bento XVI."

Assim, a descentralização do poder pode ser uma saída para o novo papa enfrentar a crise temporal da Igreja. Ela não se limita à reforma da Cúria de Roma, mas também à própria forma de administrar. Ele deve ter pulso para pôr a casa em ordem.

"Joseph Ratzinger foi um papa que cuidou do essencial da Igreja, lutou para que o mundo e a cultura se abrissem à transcendência e à Igreja para Cristo como um navio que lança ao mar tudo o que é supérfluo em meio à tempestade a fim de salvar o principal. Aristóteles dizia: ‘Salve o principal, que o principal salva o resto’", diz Clodovis.

Enquanto preservava o essencial, o temporal lhe escapava pelos dedos como mostrariam escândalos de pedofilia, intrigas e corrupção revelados pelo vazamento de documentos do papa no caso Vatileaks.

Na América Latina, muitos esperam um papa cujo olhar para a razão seja mais intenso que o dirigido à fé. São teólogos como o padre João Batista Libânio, que preferem o acento posto na razão, que descobre a injustiça e afirma a centralidade de Cristo e nele, a dos pobres. Apenas um outro matiz, outra receita para levar essa barca.

"O papa deve interpretar a fé cristã para a cultura atual", diz Libânio. O Evangelho deve existir, diz ele, no nível da existência e da inteligência; o testemunho deve ser esclarecido por uma fé que entusiasme as pessoas. "O homem-bomba dá testemunho, mas ele não é inteligível", lembra.

Adaptar-se ao seu tempo, reformar-se. Para o historiador Serbin, isso significa discutir sem medo o que não é dogma, mas doutrina ou conceitos morais, como o controle de natalidade e o papel da mulher na Igreja. Mostrar que o "chretién n’est pas un crétin", que o cristão não é um cretino ou um ingênuo em um mundo em profunda mudança, cada vez mais aberto ao aborto, ao uso de contraceptivos, ao divórcio, ao casamento homossexual, a uma vida hedonista e ao relativismo cultural será, por fim, o último, mas não o menor dos desafios do novo papa.