Os guaranis da Aldeia Aguapeú de Mongaguá

No maciço do Aguapeú, em Mongaguá, próximo ao bairro Vera Cruz, moram os índios guaranis

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04 MAR 201322h54

Na aldeia, coberta pela mata, 12 famílias — cerca de 80 pessoas — residem em malocas individuais distribuídas pelo morro. A miscigenação não é permitida e assim eles mantêm viva a cultura indígena herdada de seus ancestrais e garantem sua linhagem. A aldeia Aguapeú é uma das poucas da região onde não há mistura de raças. “Não proibimos, mas se uma índia quiser casar com um homem da cidade ela tem que deixar a aldeia”, afirma o cacique Davi da Silva Karairataendy.

Reservados, os guaranis tem pouco contato com a população da Cidade e sobrevivem da venda do artesanato produzido pelas índias. As peças — brincos, colares, chocalhos, bibelôs — são feito com sementes e bambus colhidos na própria mata ou comprados na Cidade. Segundo Davi, os índios guaranis se instalaram no morro do Aguapeú, em 1930, porém, a área só foi reconhecida, em 1994 e demarcada, em 1998. O acesso à aldeia é feito de barco pelo rio Aguapeú, no bairro Vera Cruz.

Na aldeia, alguns falam a língua portuguesa. Idioma que aprendem somente após os sete anos de idade. Até então, todas as crianças crescem conhecendo apenas o guarani. As crianças frequentam a escola construída pelo Governo, na própria aldeia. “Aqui eles estudam de 1a a 4a série. Se quiserem continuar os estudos devem ir para a cidade”, diz o cacique.

Elisa de Castro Jaxuka, 30 anos é artesã. Muito vaidosa, de cabelos acobreados, ela diz que as índias gostam de pintar os cabelos, usar roupas da cidade, mas não na aldeia. “A gente gosta de pintar os cabelos, mas aqui na aldeia usamos os brincos de pena, pulseiras de nossa cultura. Preservamos nossa tradição”, afirmou Elisa.

Apesar da cultura arraigada e da preservação dos costumes, as culturas indígena e ocidentais se mesclam e o principal indício são seus nomes de batismo. Davi tem quatro filhos. Todos eles herdaram o sobrenome Silva, mas o último nome é escolhido pelo Pajé”, explicou Davi exemplificando citando o seu nome Karairataendy — que em guarani significa a luz do fogo.

Apesar de cada família viver individualmente em sua casa, todos se reúnem diariamente às 18 horas, na casa de rezas, segundo Davi. “Cremos em Deus assim como os brancos que na nossa língua chamamos de Nhaderu. Outro costume do povo guarani é a dinastia entre os caciques. A liderança da aldeia passa de pai para filho. “Meu pai era cacique assim como meu avô, mas isso é aqui nesta aldeia. Em outras acontece também de o cacique ser escolhido por votação”. Davi explicou que seu filho tem a opção de aceitar ou não ser cacique. Em caso de negativa, ele pode nomear outro filho ou algum de seus irmãos, mas tem que ser sempre alguém da mesma família.  

No mês em que se comemora o Dia do Índio, o cacique deixa uma mensagem para todos. “Cheemá avya va ipa cova e jajyre oreara ore query oreboete. Em português quer dizer que estou muito feliz no mês do nosso dia. E que as pessoas vejam o índio como uma pessoa a ser respeitada”, concluiu. As crianças aprendem desde cedo sobre a união de seu povo num mundo de várias etnias. Umas das canções que aprendem em seus rituais diz “Vamos continuar todos juntos olhando para o mundo”.