Enquanto ainda existe uma ‘blindagem’ de quem está pagando a conta do carnaval da Escola de Samba Grande Rio (que vai homenagear Santos em 2016), o Diário do Litoral descobriu ontem que em nenhuma das duas últimas cidades em que a escola foi buscar patrocínio – Maricá (RJ) e Uberaba (MG) – houve segredo com relação a valores e nem de quem patrocinou o espetáculo. A homenagem à Santos custará R$ 15 milhões.
Em 2014, a Grande Rio homenageou Maricá ao custo de R$ 3 milhões, pagos sob protesto da população, conforme divulgado pela imprensa na época. Os moradores não se conformavam com o investimento destinado à Marquês de Sapucaí enquanto o município fluminense sofria com falta de pavimentação, problemas na educação, saúde, transporte, coleta de lixo e outros. Uma moradora chegou a dizer que a Prefeitura “só abre o bolso para coisas que não melhoram em nada a vida da população”.
Na época, a ouvidoria do Ministério Público recebeu representações de moradores de Maricá sobre o repasse para a escola de samba de Caxias. Mas, como não havia (e não há) lei que proíba o uso de verba pública com publicidade, não pôde ingressar com ação civil pública. O órgão informou, no entanto, que se o município alegasse falta de recursos para obras ou serviços básicos, poderia pedir o imediato cancelamento do acordo com a agremiação e os responsáveis poderão ser punidos por improbidade administrativa.
Em 2014, Maricá figurava como ré em ações civis públicas que cobram melhorias nas áreas da saúde, saneamento e educação. O próprio prefeito respondia a 52 ações em 1ª instância do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), grande parte por improbidade administrativa.
Não adiantou nada. No domingo de Carnaval, os quatro mil componentes da Acadêmicos do Grande Rio entraram na avenida para fazer uma dupla homenagem à cidade e uma de suas ilustres moradoras, a cantora Maysa.
Santos: custo zero e patrocínio desconhecido
A Cidade de Santos não teve as mesmas dificuldades das cidades fluminense e mineira. Ao contrário, segundo a Prefeitura, os R$ 15 milhões não saíram dos cofres públicos (leia-se bolso dos santistas), mas sim, de um investidor que somente a Grande Rio sabe quem é. A Administração Paulo Alexandre não revela a identidade do benemérito nem mesmo por intermédio da Lei da Transparência. “A Prefeitura não patrocina, nem fez aporte financeiro para a escola. As questões sobre o patrocinador devem ser encaminhadas à agremiação”, comunicou em nota oficial.
A escola de samba Acadêmicos do Grande Rio decidiu homenagear Santos no Carnaval 2016 com o enredo “Fui no Itororó beber água, não achei. Mas achei a bela Santos, e por ela me apaixonei”. O Diário do Litoral vem tentando descobrir junto à Grande Rio quem, em um ano de crise, resolveu desembolsar R$ 15 milhões para homenagear Santos. Até as 18 horas de ontem, a agremiação não retornou à solicitação.
Rio vai repassar R$ 2 milhões
Em meio à crise que assola o País inteiro, a Prefeitura do Rio, por meio da Secretaria de Coordenação de Governo, vai dobrar o repasse de recursos às escolas do Grupo Especial. Cada uma das 12 agremiações vai receber R$ 2 milhões do Município, como informou o Jornal Extra, citando coluna do Jornal O Dia.
Segundo o secretário Pedro Paulo Carvalho, é “papel da Prefeitura ajudar a manter um evento de tamanha magnitude como o carnaval”. Ele disse ainda que a Prefeitura tem capacidade de se comprometer com esses gastos.
A vereadora Teresa Bergher (PSDB) é contrária à medida. “É inadmissível que, nesse momento de crise, o prefeito dobre o valor do repasse. Esse dinheiro poderia ser aplicado na educação e na saúde, e não direcionado a bicheiros do samba”, disse a vereadora. Ela alertou que iria fazer uma representação ao Ministério Público (MP) e um requerimento de informações à Prefeitura.
Desde 2009, a Prefeitura abriu três licitações para a organização do carnaval, mas não apareceram interessados. Após parecer do Ministério Público contrário ao repasse municipal para as escolas, a Prefeitura parou de destinar verba para desfiles, em 2010. Apesar do fim dos contratos com as escolas, a Prefeitura passou a destinar R$ 1 milhão para cada agremiação em contrapartida à ações culturais, no Viradão do Momo, em 2011 e 2012. Com seu fim em 2013, o repasse foi mantido para os desfiles.
Em Uberaba, não houve jeito
Uberaba foi ‘selecionada’ pela Grande Rio para ser enredo do Carnaval de 2015. Mas a proposta dependia de um investimento de R$ 10 milhões para ser viabilizada e a Prefeitura da cidade mineira só poderia ‘embarcar no samba’ se conseguisse patrocínio. A Administração chegou a estudar a possibilidade de cortes no orçamento e até cancelar a festa local para destinar os recursos ao desfile carioca.
Em junho de 2014, segundo publicou o Jornal da Manhã, o prefeito Paulo Piau (PMDB) estava num impasse: “se a gente for fazer a festa (carnaval) em Uberaba, vai gastar mais de R$ 1 milhão. É uma decisão que precisa ser tomada. Temos que chamar as escolas de samba aqui para discutir essa oportunidade. Não podemos tirar verba de outras áreas”, revelara Piau.
No mês seguinte, o prefeito e o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico foram ao Rio de Janeiro para comunicar que não haviam conseguido os R$ 10 milhões junto à iniciativa privada. “Como existiu a determinação do prefeito de não utilizar os recursos da Prefeitura, a cidade não se tornou tema da escola carioca”, informou, em 5 de julho, o Jornal de Uberaba.
A escola entrou na Marquês de Sapucaí em 2015 com outro enredo, “a Grande Rio é do Baralho!” – um passeio pelo universo e pelos simbolismos das cartas. A tradição da pecuária zebuína, o legado do médium Chico Xavier e o sítio paleontológico de Peirópolis foram os atrativos apresentados por Uberaba.
Nota da redação
O Diário do Litoral faz questão de deixar claro que não é contra a divulgação da Cidade de Santos em eventos, sejam eles carnavalescos, culturais, esportivos, ou de quaisquer natureza. Seu objetivo na divulgação das matérias é, apenas, buscar a transparência com a ‘coisa pública’, obrigação de todo veículo de imprensa sério e independente.
