Imagine caminhar pela orla de Santos e encontrar dezenas de gatos andando pelos jardins da Orla, caçando ratos em plena luz do dia. Por mais improvável que pareça, essa cena era comum na cidade no fim dos anos 1980, durante uma das iniciativas mais curiosas da história santista: a Operação Tom & Jerry.
Criada pelo então prefeito Oswaldo Justo, a ação apostava em um princípio simples da natureza, usar o predador natural dos ratos para combater uma infestação que há anos atormentava moradores e turistas na orla da praia.
A estratégia ganhou repercussão nacional, virou manchete em jornais de todo o Brasil e até hoje é lembrada como uma das medidas mais inusitadas já adotadas por uma administração pública.
Uma cidade tomada pelos roedores
Para entender o surgimento da Operação Tom & Jerry, é preciso voltar aos anos seguintes à ditadura militar. Durante décadas, Santos enfrentou sérios problemas de limpeza urbana e controle de pragas.
Os jardins da orla, que hoje formam o maior jardim de praia do mundo, eram frequentemente ocupados por ratos atraídos por restos de comida e problemas de saneamento.
Mesmo as constantes campanhas de desratização e o uso de venenos não conseguiam resolver o problema de forma definitiva.
Em 1986, denúncias apontavam que ratos mortos estariam sendo enterrados na areia da praia.
O episódio gerou indignação pública e aumentou a pressão por uma solução mais eficaz.

A inspiração que veio da própria orla
Contrário ao uso excessivo de raticidas por considerar que eles poderiam afetar pássaros e outros animais, Justo decidiu apostar em uma alternativa ecológica.
Segundo relatos da época, a inspiração veio de uma moradora que costumava passear com seus gatos na orla e observava os felinos caçando ratos naturalmente.
O prefeito acreditava que a cadeia alimentar poderia restaurar o equilíbrio ecológico dos jardins da praia. A frase que marcou a iniciativa virou o grande símbolo da operação:
“O predador do rato é o gato.”
Primeiro, alguns testes foram realizados entre os canais 1 e 2. Como os resultados iniciais pareceram positivos, a prefeitura decidiu ampliar a ação para toda a orla em 1988.
A imprensa logo apelidou a iniciativa de Operação Tom & Jerry, em referência ao famoso desenho animado do gato e do rato.

Quando os felinos viraram funcionários públicos
O sucesso inicial foi imediato. Em diversos trechos da praia, a presença de ratos diminuiu significativamente, e muitos moradores passaram a apoiar a iniciativa.
A população começou a alimentar os felinos, idosos adotaram alguns deles informalmente e os gatos passaram a fazer parte da paisagem oficial da cidade.
A repercussão foi tão grande que Santos ganhou destaque nacional, com reportagens em jornais e revistas de grande circulação.
A prefeitura chegou a construir pequenos abrigos para os animais e houve até uma proposta de vereadores para que os gatos recebessem coleiras de identificação, funcionando como verdadeiros servidores públicos em serviço.
A sugestão, claro, virou motivo de piadas na cidade.
O abandono e o efeito colateral inesperado
Mas o plano que parecia perfeito começou a apresentar problemas complexos. Ao tomar conhecimento da operação, muitas pessoas passaram a abandonar seus gatos domésticos nos jardins da praia, acreditando que estariam ajudando a prefeitura. Em pouco tempo, a população felina cresceu muito além do esperado.
Com centenas de gatos vivendo na orla, surgiram preocupações graves relacionadas à saúde pública.
Especialistas passaram a associar a presença dos animais à disseminação do Ancylostoma braziliensis, o verme causador da larva migrans cutânea, popularmente conhecida como bicho geográfico.
Além disso, a captura e o manejo dos animais tornaram-se difíceis. Os gatos se escondiam nos canteiros, reproduziam-se rapidamente e passaram a exigir políticas urgentes de castração e controle populacional.
O encerramento da operação e o legado ecológico
Em 1989, a prefeita Telma de Souza assumiu a administração municipal e decidiu encerrar a operação.
A nova gestão passou a recolher os gatos da orla e a investir em medidas sanitárias tradicionais, como vermifugação, castração e programas de adoção responsável.
A decisão provocou protestos de defensores dos animais e dividiu opiniões entre os santistas na época.
Mais de três décadas depois, a Operação Tom & Jerry continua sendo uma das histórias mais curiosas da Baixada Santista.
Embora tenha sido criada para combater ratos de forma natural, a iniciativa acabou gerando um novo desafio urbano, que foi controlar a população de gatos que passou a dominar os jardins da praia.
Ainda assim, a operação ficou marcada como um símbolo de criatividade e de uma época em que Santos buscava soluções pouco convencionais para problemas urbanos complexos.
