Cotidiano

O ‘Van Damme’ da entrada de Santos

George Freitas, o Marreta, trabalha há 19 anos vendendo bombons no semáforo da Via Anchieta

Publicado em 09/07/2016 às 09:07

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George Freitas também é conhecido como Guile, personagen interpretado por Van Damme no filme Street Fighter / Rodrigo Montaldi/Diário do Litoral

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Todas as tardes, George de França Freitas, 49 anos, oferece gentilmente seus bombons aos motoristas que param no último semáforo da Rodovia Anchieta, na entrada de Santos. A rotina é a mesma há 19 anos. Musculoso e muito parecido com Jean Claude Van Damme, o vendedor, que é conhecido por Guile, personagem vivido pelo ator no filme Street Fighter, não passa despercebido e coleciona admiradores.

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“Tenho 19 anos de farol, desde os 30 anos. Achei que não compensava trabalhar em um emprego formal e quis ser dono do meu próprio negócio. Escolhi o bombom porque é algo fácil e todo mundo gosta. Não falto nenhum dia”, disse George, que além de Guile também é conhecido como Marreta, apelido que prefere ser chamado. Sua vida profissional começou aos 14 anos, quando trabalhou com carteira fichada como entregador em uma drogaria.

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A Reportagem entrevistou Marreta na mureta da rodovia. Muitos motoristas que passavam faziam questão de chamar a atenção dele acenando e gritando frases: “Guile, tá ficando famoso”, disse um deles. Alguns pararam para comprar seus bombons e demonstraram conhece-lo há muito tempo: “Conheço ele desde o tempo que vendia na balsa”.

“Vendia nas portas da balada e também na balsa. Tem gente que compra comigo e eu conheço desde criança. Agora só vendo aqui. Já ganhei muito dinheiro, mas nos últimos anos fico mais difícil”, afirmou Marreta. Segundo ele, a média de vendas era de R$ 3 mil mensais. Atualmente sua renda não passa de R$ 1 mil.

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A baixa nas vendas fez Marreta passar por alguns apuros. Durante três meses, ele morou embaixo do elevado, que fica próximo ao farol onde trabalha. “O aluguel de um quartinho você não paga menos de R$ 400. O pessoal não acreditava que eu fui morar embaixo da ponte só porque andava bonitinho. Não é porque moro embaixo do viaduto que tenho que andar esculachado. Para ser morador de rua tem que andar com uma garrafa de cachaça na mão? Não mexo com drogas, não bebo”, afirmou.

História

Marreta voltou a morar com mãe. Deixou sua casa aos 22 anos. Não se aprofundou muito nos motivos, mas disse que gostava bastante de baladas. Tem dois irmãos mais novos os quais se refere com muito carinho. “Um deles é advogado. Ajudei a minha mãe a criar os meus dois irmãos para ela trabalhar. Trocava fraldas, dava papinha”, destacou.

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Criado no bairro José Menino, em Santos, o conhecido ambulante teve uma infância pobre. No semáforo onde fica convive com meninos que fazem malabarismo em troca de moedas. “Eles querem ter o que eu queria quando era mais novo e não tinha condições de ter. No meu caso era um carrinho de controle remoto. Eles querem celular. Sempre aconselho eles a ficar no caminho do bem, a praticar esporte”, afirmou.

E o esporte é uma das paixões de Marreta, que apesar de não se considerar vaidoso, frequenta rigorosamente a academia de musculação, onde mantém o físico semelhante ao dos seus ídolos do cinema Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. “Eles não têm só músculos. Têm uma filosofia de vida. Não sou vaidoso. Só prefiro estar com um ‘frasquinho bonito’ (o corpo) do que com um Camaro amarelo. Quero que as pessoas gostem de mim pelo que eu sou e não pelo que eu tenho”, afirmou.

Futuro

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Marreta não é casado. Disse que ficou nervoso quando uma página do Facebook publicou sua foto dizendo que trabalhava no semáforo para pagar a faculdade da filha.

“Fiquei nervoso. Eu não tenho filhos. Vendo no semáforo porque gosto e porque preciso é meu trabalho. Teve gente que não quis nem mais comprar comigo porque achou que estava cheio da grana. Perdi até uma paquera que achava que eu era casado”, afirmou. “Inclusive escreve que estou buscando uma namorada”, destacou para a Reportagem.

O vendedor, que é fã da Legião Urbana e da banda Malta, parou na quinta série do ensino fundamental. Disse que além do esporte gosta de matérias jornalísticas, fazer trilhas e de apreciar a natureza. Destacou que um dia pretende cursar a faculdade de Psicologia. “Não é para me entender não. É para entender o mundo”, destacou.

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Neste ano ele vai encarar um novo desafio: disputar uma vaga na Câmara Municipal de Santos. “Toda época de eleição me procuram. Esse ano decidi entrar na política. Quem sabe dar mais esporte e educação para essa molecada que fica no farol”.

Sobre a ‘fama’ e dos inúmeros conhecidos anônimos ele diz: “Não sou só amigo de quem compra. A gente tem que ser amigo de todo mundo. Fui no pronto-socorro e o médico me reconheceu falou: ô do bombom. Para ser feliz a gente não precisa pensar na colheita, apenas em plantar”.

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