O segredo das cócegas que deixou até Darwin intrigado finalmente ganhou explicação

Charles Darwin dedicou parte de sua pesquisa a esse fenômeno porque estava convencido de que as cócegas estavam ligadas à antecipação do prazer e ao comportamento social

Quando uma pessoa tenta fazer cócegas em si mesma, o cérebro já sabe o que acontecerá antes do toque, impedindo esse reflexo.

Quando uma pessoa tenta fazer cócegas em si mesma, o cérebro já sabe o que acontecerá antes do toque, impedindo esse reflexo

Basta alguém encostar em determinadas partes do corpo para provocar uma explosão de risos, espasmos involuntários e até sensação de falta de ar. Axilas, costelas, barriga e sola dos pés estão entre as regiões mais sensíveis às cócegas.

Mas há uma parte intrigante que os cientistas têm obcecado por décadas, e é por isso que ninguém consegue fazer cócegas em si mesmo.

A resposta está em nosso cérebro e baseia-se em um tipo complexo de sistema de antecipação que permite às pessoas prever o que seu corpo fará, mesmo que não possam controlá-lo exatamente.

Quando uma pessoa tenta fazer cócegas em si mesma, o cérebro já sabe o que acontecerá antes do toque, impedindo esse reflexo.

O cerebelo e a eliminação do fator surpresa

Segundo estudos em neurociência, uma região chamada cerebelo desempenha papel fundamental nesse processo. Responsável pelo controle dos movimentos voluntários, ela consegue prever as consequências de cada ação realizada pelo próprio corpo.

Quando uma pessoa move a mão para tocar sua própria pele, essa parte do cérebro envia um sinal antecipado ao córtex somatossensorial – que interpreta as sensações de toque.

Portanto, o cérebro sabe que o estímulo não representa uma ameaça ou surpresa para o corpo, a resposta sensorial é drasticamente diminuída.

É a surpresa que faz as cócegas funcionarem, porque quando alguém toca alguma área vulnerável do nosso corpo, o cérebro não pode prever com precisão a intensidade, velocidade ou tempo desse toque, estimulando uma resposta involuntária.

A origem evolucionária como mecanismo de defesa

Hoje, elas podem estar associadas ao jogo e relaxamento, mas muitos cientistas insistem que as cócegas evoluíram como um mecanismo de defesa dos ancestrais.

Ao sentir um toque improvável em áreas sensíveis, o sistema nervoso emite um alerta para preparar o corpo para uma reação rápida. Isso poderia ter fornecido aos nossos ancestrais os meios para prever perigos potenciais, incluindo organismos, insetos, parasitas ou agressões físicas.

Assim, os sentimentos geralmente acompanham movimentos súbitos, músculos que respondem com reflexos imediatos ou reflexos automáticos.

A ciência reconheceu duas categorias de cócegas.

As cócegas, de acordo com o conhecimento científico, podem ser amplamente divididas em duas categorias, sendo a primeira a knismesis (um tipo de formigamento ou arrepio) que é um toque leve, como um inseto andando ou uma pena dançando na pele.

Geralmente não envolve risos e a ação principal é voltada para o alerta e defesa contra pequenos organismos e objetos apresentados pelo ambiente.

Já a segunda categoria é a gargalesis, caracterizada pela cócega intensa que provoca risadas incontroláveis, contorções e dificuldade de permanecer parado.

Esse tipo de reação costuma ocorrer apenas quando outra pessoa realiza o toque e está associado não apenas à defesa física, mas também à socialização e ao fortalecimento de vínculos afetivos.

Por que o riso nem sempre é divertido

Embora o riso seja a resposta mais típica, os especialistas alertam que rir em uma sessão de cócegas nem sempre equivale a prazer. Estudos demonstram que a resposta involuntária do sistema nervoso ao riso após as cócegas é a razão pela qual muitas pessoas ainda riem mesmo quando estão desconfortáveis, angustiadas e até com dor.

Por esse motivo, os neurocientistas sugerem respeitar as limitações individuais e dos outros e parar rapidamente quando houver um pedido para parar.

O fator social e os estudos de Charles Darwin

O naturalista britânico Charles Darwin dedicou parte de sua pesquisa a esse fenômeno porque estava convencido de que as cócegas estavam ligadas à antecipação do prazer e ao comportamento social.

No entanto, de acordo com sua teoria, a reação seria mais forte onde houvesse confiança entre as pessoas, razão pela qual as cócegas são mais frequentemente feitas entre membros da família, amigos próximos e parceiros.

Exceções e o veredito do cérebro

Em condições normais, a resposta para se alguém consegue fazer cócegas em si mesmo é não.

Porém, alguns estudos sugerem que pessoas com alterações específicas na percepção sensorial ou em determinadas funções cerebrais podem apresentar respostas diferentes ao autotoque.

Mesmo assim, para a grande maioria das pessoas, o cérebro continua vencendo a batalha, uma vez que ele prevê o movimento, elimina a surpresa e impede que as próprias mãos provoquem aquela explosão de risadas que só outra pessoa consegue desencadear.