‘O rap me salvou duas vezes’: conheça a trajetória do vicentino ‘Servo R’

Depois de se identificar com o estilo musical por causa das letras sobre racismo, rapper constrói carreira e se livra das drogas

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19 NOV 2018Por Da Reportagem17h01
Servo R segue em carreira solo cantando e levando mensagens positivas a internos da Fundação CasaServo R segue em carreira solo cantando e levando mensagens positivas a internos da Fundação CasaFoto: Divulgação/PMSV

Foi ouvindo o rap do Racionais Mc’s que, aos 18 anos, Renato Augusto Alves da Silva se interessou pelo gênero musical. Gostava das músicas que falavam sobre a vida na comunidade e, principalmente, das que denunciavam o racismo e a discriminação. A inspiração o levou a compor e ao grupo Novos Mc’s, muito conhecido na Baixada Santista nos anos 90. A consagração veio no Sacerdotes Mc’s, após chegar ao fundo do poço ponto das drogas. O grupo com vertente gospel fez sucesso no Brasil, e nele o músico atuou por 17 anos. Na mesma vertente, agora, o vicentino, conhecido também como Servo R, segue em carreira solo cantando e levando mensagens positivas a internos da Fundação Casa.  
 
“Antigamente o rap vinha nessa linhagem, falar sobre racismo, política e vida social dentro da quebrada, na sociedade. Essa foi minha primeira identificação com o estilo. Aprendi a rimar e entrei para os Novos Mc´s nos anos 90. Alguns momentos foram marcantes. Abrimos seis vezes o show dos Racionais Mc’s. Ganhamos muitos títulos de premiações feitas pela própria comunidade do Rap”, lembra.
 
A identificação com o rap por meio das músicas de Racionais Mc’s fez Renato encontrar no microfone a possibilidade de falar sobre a sua própria realidade e de sua comunidade.

“Cantar é um desabafo de situações, que em uma conversa, em um diálogo você não conseguiria expressar tudo que está sentindo. No rap, a expressão rimada, falada com ritmo e poesia, faz a pessoa parar, prestar atenção nas suas palavras e consequentemente refletir. Posso falar, por exemplo, sobre o olhar diferenciado para cor da pele, que, às vezes, não consigo falar na cara da pessoa”, destaca Servo R.
 
Suas rimas são inspiradas em situações vivenciadas ao longo da vida, como o uso de drogas, direcionando a mensagem na letra para aqueles que estão se tornando dependentes químicos. “Já fui um usuário e sei muito bem como isso pode prejudicar a vida. Então, em algumas músicas pergunto o que é a droga? É a perda da família, da dignidade, da sua identidade. A perda de tudo que você construiu. Então não vale a pena”.  
 
Drogas

A primeira música que cantou com o grupo Novos Mc´s foi “Relato de um viciado”. “A letra dizia o seguinte: Nós aqui em cima estamos cantando, mas você aí embaixo pode estar usando". O rapper não sabia que, um tempo depois, se encontraria como usuário de drogas. Começou com a bebida e acabou no crack. Durante anos viveu o tormento de ser um dependente químico. Neste período deixou a música. Foi internado em na ala psiquiátrica de hospitais, por três vezes tentou o suicídio, teve um afundamento craniano e o que considera mais doloroso: a separação da esposa, que não aguentava mais viver naquela situação. Aos 27 anos, Renato decidiu ir para a igreja e encontrou um lugar que pudesse trazer paz e ajudasse na recuperação. O que ele não sabia é que se identificaria com o Rap novamente.
 
“Fui a um retiro da igreja e soube que um grupo de Rap iria cantar. Era o Apocalipse 16. Falei, Rap Gospel, tá louco? Mas quando ouvi entendi qual era o meu chamado. Consegui encontrar dois parceiros. Montamos o Sacerdotes Mc's e voltei a cantar. O rap me salvou duas vezes”, afirma.
 
Legado - Se o rap dá voz aos excluídos da sociedade, Renato procura seguir o legado. Ele realiza trabalho voluntário que consiste em visitas para conversar e cantar para os meninos da Fundação Casa do bairro Humaitá. Foi em uma dessas visitas que os menores inspiraram uma das músicas do seu novo álbum. Intitulada “Dinheiro Fácil”, a faixa aborda como os valores ganhos de forma ilegal acabam rápido e podem custar caro.
 
“Dois mil no bolso, quatro mil na balada, dez mil na mão se desfaz como areia soprada. Esse trecho eu escrevi a partir das respostas que eles deram quando perguntei como era gasto o dinheiro roubado. Depois perguntei o que sobrou e eles disseram: nada. Fiz isso para eles entenderem que não tem porque roubar e aí surgiu a música falando sobre isso e das consequências que pode trazer”, conta o rapper.
 
O novo CD, que está previsto para ser lançado no próximo ano, é dividido em temas: “Entendi que além do rap trazer o desabafo através da música, pode abordar temas polêmicos. Então cada música um conceito. Por exemplo, “Mundo Gira” fala sobre quatro jovens, um morador de rua e um homem de Deus. Os quatro jovens em situação financeira boa tentam matar o morador de rua, mas não conseguem porque o homem de Deus ajuda o morador e prega a palavra. Aí vem a virada. Esse morador de rua aceita Jesus, volta a caminhar, reconquista a sua dignidade. Os quatros jovens se aprofundam na droga, chegam no crack e em determinado momento, são eles as pessoas em situação de rua. Mas na hora de ter a vingança, o ex morador de rua não faz o mesmo, pelo contrário, ele estende a mão. São músicas que falam de respeito, amor ao próximo”, explica.
 
Mas não deixa de lado a questão do desabafo. Com ajuda dos internautas vai compor a letra da faixa “Eu não aguento mais”.  Ele vai disponibilizar na sua página do Facebook, uma enquete com a pergunta “O que você não aguenta mais?”, com as respostas, irá compor a letra da música e produzi-la. Também vai lançar “Vida sobre vida”, que fala como um ser humano pode dar vida a outro, ao mesmo tempo em que tem a capacidade de tirá-la. Ao todo serão nove músicas, todas terão clipes, sendo que dois já estão disponíveis na internet. Seguindo sua filosofia de que “Uma geração tem responsabilidade por outra geração”, Servo R procura semear o bem usando o Rap como transmissor da mensagem.  
 
Rap

O gênero advindo da Jamaica na década de 60, o rap se espalhou pelos bairros mais pobres de Nova Iorque, nos Estados Unidos (EUA), ganhando popularidade na década de 80 no Brasil, com a ascensão dos primeiros grupos. A princípio, o estilo foi muito discriminado, pois era música cantada e ouvida entre pobres e negros da periferia, já que eram um dos meios que encontraram para expor sua realidade social. Atualmente tem mais espaço na mídia e entre outras classes sociais.  Porém, em muitos lugares, o gênero musical ainda é visto com desprezo.

“Até na igreja o Rap Gospel sofre preconceito. Julgam nossas roupas e esquecem de entender a letra.  As pessoas costumam julgar o rap pela capa, quando é muito mais que isso. A letra tem conteúdo, é preciso ouvir e absorver”, concluí.