Cotidiano

O que acontece a 4.300 metros de profundidade quando máquinas mineram o oceano?

Um estudo publicado na revista Nature revela impacto devastador da extração de metais para baterias em ecossistemas quase desconhecidos

Giovanna Camiotto

Publicado em 20/02/2026 às 10:10

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A área estudada fica na Zona Clarion-Clipperton, entre o México e o Havai. Testes de mineração submarina frequentemente acontecem nessa localidade. / ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons

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A exploração minerária em águas ultraprofundas tem sido apresentada como a solução estratégica para a crescente demanda global por metais críticos. Elementos como níquel, cobalto e manganês, essenciais para a transição energética e a produção de baterias de alta performance, estão concentrados em nódulos polimetálicos localizados em planícies abissais.

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No entanto, o custo ambiental dessa corrida por recursos acaba de ser mensurado com um rigor inédito: um estudo publicado na revista científica Nature Ecology & Evolution aponta uma redução de 32% na diversidade de espécies em áreas afetadas por testes de extração.

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O experimento, um dos mais abrangentes já realizados, ocorreu na Zona Clarion-Clipperton, uma vasta região no Oceano Pacífico situada entre o México e o Havaí. Durante cinco anos, equipes de pesquisadores dedicaram 160 dias ao mar para coletar amostras de sedimentos antes e depois da operação de máquinas coletoras.

Ao todo, foram extraídas 3.300 toneladas de nódulos a uma profundidade de quase 4.300 metros, permitindo à ciência observar, pela primeira vez em larga escala, a reação das comunidades biológicas a intervenções humanas dessa magnitude.

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O impacto na planície abissal

As áreas atingidas situam-se em planícies abissais, ecossistemas remotos onde a vida é sustentada por detritos orgânicos que descem das camadas superiores do mar. A pesquisa revelou que a passagem das máquinas altera drasticamente a estrutura da fauna local.

Mesmo espécies que não foram diretamente removidas sofreram variações, indicando que a perturbação mecânica e a suspensão de sedimentos fragmentam os padrões de sobrevivência desses organismos.

Nas planícies abissais, a vida se move em um ritmo extremamente lento. A remoção de nódulos polimetálicos destrói substratos que levaram milhões de anos para se formar e que servem de base para a macrofauna/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
Nas planícies abissais, a vida se move em um ritmo extremamente lento. A remoção de nódulos polimetálicos destrói substratos que levaram milhões de anos para se formar e que servem de base para a macrofauna/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
Além da extração direta, a movimentação de máquinas no leito oceânico levanta nuvens de sedimentos que podem viajar por quilômetros, sufocando organismos filtradores em áreas distantes do ponto de mineração/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
Além da extração direta, a movimentação de máquinas no leito oceânico levanta nuvens de sedimentos que podem viajar por quilômetros, sufocando organismos filtradores em áreas distantes do ponto de mineração/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
O níquel e o cobalto encontrados a 4.300 metros de profundidade são vitais para a autonomia de veículos elétricos, criando um conflito ético entre a descarbonização da economia e a preservação dos oceanos/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
O níquel e o cobalto encontrados a 4.300 metros de profundidade são vitais para a autonomia de veículos elétricos, criando um conflito ético entre a descarbonização da economia e a preservação dos oceanos/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
Como grande parte das espécies abissais ainda não possui nome científico, pesquisadores utilizam o sequenciamento de DNA para catalogar a vida marinha antes que o impacto ambiental altere o ecossistema permanentemente/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
Como grande parte das espécies abissais ainda não possui nome científico, pesquisadores utilizam o sequenciamento de DNA para catalogar a vida marinha antes que o impacto ambiental altere o ecossistema permanentemente/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) enfrenta pressão crescente de nações e empresas para liberar a exploração comercial, enquanto novos estudos científicos pedem cautela e moratórias/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons
A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) enfrenta pressão crescente de nações e empresas para liberar a exploração comercial, enquanto novos estudos científicos pedem cautela e moratórias/ROV-Team/GEOMAR/Wikimedia Commons

A riqueza biológica dessas regiões é sutil, mas vasta. Registros catalogados pelo Museu de História Natural de Londres, a partir de amostras do experimento, identificaram mais de 4.300 indivíduos pertencentes a 788 espécies distintas, em sua maioria vermes marinhos, crustáceos e moluscos de dimensões milimétricas.

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A falta de classificação taxonômica para muitos desses seres obrigou os cientistas a utilizarem análises de DNA e códigos genéticos padronizados para registrar a existência dessa biodiversidade antes que ela seja impactada.

Regulamentação e desafios futuros

Os resultados colocam em xeque o equilíbrio entre a inovação tecnológica e a conservação marinha. A macrofauna, animais visíveis a olho nu, foi a classe mais severamente atingida pelos controladores de nódulos.

Diante da evidência de danos reais, a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA) reforçou as diretrizes para a exploração em águas internacionais, exigindo avaliações de impacto ambiental e estudos de base que permitam distinguir flutuações naturais da destruição causada pela atividade industrial.

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A exploração comercial de águas profundas permanece sob vigilância rigorosa, enquanto a comunidade científica alerta que a compreensão humana sobre a resiliência desses ecossistemas ainda é limitada. O dilema agora é decidir se a urgência da transição energética justifica o sacrifício de uma biodiversidade que a ciência mal começou a nomear.

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