O mundo pode perder 4.000 geleiras por ano, o ‘ponto sem retorno’ já tem data

Estudo alerta que o equivalente a todos os Alpes pode desaparecer em 12 meses; veja as regiões mais afetadas

Alpes, Andes e Norte da Ásia devem ser as regiões mais afetadas nas próximas décadas.

Alpes, Andes e Norte da Ásia devem ser as regiões mais afetadas nas próximas décadas. | Reprodução/Getty imagens

Em setembro de 2019, uma cerimônia incomum reuniu centenas de pessoas nos Alpes suíços, o funeral da geleira Pizol. Com cerca de 700 anos, ela havia sido reduzida pelo aquecimento global a alguns fragmentos de gelo isolados.

Entre os presentes estava o glaciologista Matthias Huss, da ETH Zurique, que testemunhou aquele momento simbólico de despedida. Agora, um estudo publicado na revista Nature Climate Change dá contornos ainda mais graves a essa tendência.

Liderado por Harry Zekollari, glaciologista da Vrije Universiteit Brussel, e com a participação de Matthias Huss, a pesquisa adverte que, se as emissões de gases de efeito estufa continuarem no ritmo atual, o planeta poderá perder até 4.000 geleiras por ano em meados deste século, o equivalente a ver todos os glaciares dos Alpes desaparecerem em apenas doze meses.

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Os cientistas analisaram mais de 200.000 geleiras do planeta e modelaram o ponto em que cada uma se tornaria pequena demais para ser considerada uma geleira, definido como menos de 0,01 km² ou 1% de seu volume original no ano 2000.

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As projeções dependem criticamente do cenário de aquecimento:

  • Com aquecimento limitado a 1,5 °C, meta cada vez mais distante, o pico de desaparecimento ocorreria por volta de 2041, com cerca de 2.000 geleiras perdidas anualmente.
  • Num cenário catastrófico de 4 °C, o pico desloca-se para meados da década de 2050, intensificando-se para 4.000 por ano, uma taxa de 3 a 5 vezes superior à atual.
  • No caminho atual, baseado nas promessas climáticas em vigor (cerca de 2,7 °C), o mundo perderia aproximadamente 3.000 geleiras por ano entre 2040 e 2060.

Regiões com geleiras menores, como os Alpes, os Andes e o Norte da Ásia, serão as primeiras a sofrer perdas massivas, podendo ver mais da metade de seus glaciares desaparecerem nas próximas duas décadas. Já áreas com grandes mantos de gelo, como a Gronelândia, terão um pico mais tardio.

O especialista Eric Rignot, professor de ciência do sistema terrestre da Universidade da Califórnia em Irvine e não envolvido no estudo, ressalta a irreversibilidade do processo: “É um ponto sem retorno, porque a reformação de uma geleira levaria décadas, se não séculos”.

As implicações vão além do simbólico. Geleiras são fontes vitais de água para comunidades, base de economias locais ligadas ao turismo e ao esqui, e possuem profundo significado cultural. Com 2,7 °C de aquecimento, apenas 20% das geleiras atuais devem persistir até 2100. Num mundo 4 °C mais quente, caminha-se para uma perda quase total.

“Elas são ícones visíveis das mudanças climáticas”, afirma Harry Zekollari. “Enquanto um aumento de 2 graus na temperatura pode parecer abstrato, o desaparecimento de uma geleira é uma imagem clara e incontestável da transformação do planeta.”

A escolha, portanto, ainda é nossa. Entre um futuro com paisagens glaciais reduzidas, porém presentes, ou a progressiva e acelerada erradicação dessas gigantes de gelo, e de tudo o que elas sustentam.