Cotidiano
No sul da Bahia, a cidade que já foi sinônimo de riqueza no ciclo do cacau agora vive uma nova ambição: produzir e sustentar o tÃtulo de melhor chocolate do mundo
O aroma intenso do cacau fresco invade as fazendas históricas de Ilhéus antes mesmo de o chocolate ganhar forma / Freepik
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O aroma intenso do cacau fresco invade as fazendas históricas de Ilhéus antes mesmo de o chocolate ganhar forma. No sul da Bahia, a cidade que já foi sinônimo de riqueza no ciclo do cacau agora vive uma nova ambição: produzir — e sustentar — o tÃtulo de melhor chocolate do mundo.
Depois de quase sucumbir à crise provocada pela vassoura-de-bruxa nos anos 1990, Ilhéus reinventou sua economia apostando no chocolate de origem. O modelo 'bean-to-bar', em que toda a produção acontece na própria fazenda, transformou antigos latifúndios em laboratórios de excelência gastronômica.
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Hoje, a Costa do Cacau reúne mais de 200 marcas artesanais. Algumas já acumulam prêmios no Salão do Chocolate de Paris e de Londres — vitrine global para produtores que disputam paladar, técnica e identidade territorial.
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No inÃcio do século XX, Ilhéus era a maior produtora de cacau do planeta. A riqueza financiou palacetes, teatros e inspirou romances de Jorge Amado. A monocultura, porém, deixou a região vulnerável. Quando a praga atingiu as lavouras, milhares de produtores faliram.
A resposta veio com qualidade em vez de volume. O sistema cabruca — cultivo sombreado sob a Mata Atlântica — preserva biodiversidade e melhora o perfil sensorial das amêndoas. O resultado são chocolates com notas frutadas, florais e amadeiradas, reconhecidos em competições internacionais.
Mais do que produzir, Ilhéus passou a contar histórias em cada barra: do terror úmido do litoral ao manejo sustentável que diferencia o cacau baiano no mercado premium.
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Ao longo dos 43 quilômetros da Estrada do Chocolate, entre Ilhéus e Uruçuca, visitantes acompanham o processo do fruto ao tablete. Caminham entre cacaueiros centenários, provam mel de cacau direto da polpa e observam a torra e a conchagem que definem aroma e textura.
Fazendas como Yrerê, Riachuelo e Provisão abriram as porteiras ao turismo, apostando na experiência sensorial como diferencial competitivo. Degustações guiadas explicam porcentagem de cacau, tempo de fermentação e origem genética das amêndoas — detalhes que colocam o produto baiano na mesma prateleira de chocolates consagrados da Europa.
Enquanto a indústria internacional domina a produção em larga escala, Ilhéus aposta na singularidade. Pequenos lotes, rastreabilidade e controle artesanal permitem explorar caracterÃsticas que variam de acordo com o solo e o clima tropical úmido.
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O mercado internacional começa a olhar para o sul da Bahia não apenas como fornecedor de matéria-prima, mas como produtor final de excelência. O cacau que antes era exportado cru agora retorna ao mundo como produto sofisticado e premiado.
Ilhéus não vende apenas chocolate. Vende superação. O fruto que quase levou a economia local ao colapso tornou-se emblema de inovação sustentável.
Entre praias extensas e casarões históricos, a cidade baiana constrói reputação que vai além do turismo literário e do litoral paradisÃaco. Na disputa global pelo melhor chocolate do mundo, Ilhéus quer que o sabor do seu cacau fale mais alto — intenso, autêntico e com identidade própria.
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