Nutricionista santista faz a volta ao mundo em 10 anos pela profissão

Profissional é uma das duas únicas profissionais de Santos; vocação custou milhares de quilômetros

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13 MAI 2019Por Marcus Vinicius Batista07h20
A ayurveda é uma linha filosófica de origem indiana, por vezes associada somente à alimentação, principalmente a vegetarianaFoto: Nair Bueno/DL

Soraya Costa e Phileas Fogg nunca se conheceram. Ela é uma nutricionista de 40 anos, completados na semana passada. Ele, se estivesse vivo, passaria dos 120 anos. Soraya sempre teve pouco dinheiro, mas conheceu boa parte do mundo. Ele, um homem muito rico, viajou o planeta em exatos 80 dias. 

Soraya e Phileas pouco se parecem em suas biografias, mas tem duas fortes características em comum que me permitiriam imaginá-los a conversar num café em qualquer canto. Primeiro, jamais tiveram medo de arriscar a própria reputação.

Ambos estão sempre insatisfeitos com o comodismo. Depois, caminharam numa única direção, mesmo que por trajetos variados, para derrubar todas as previsões de fracasso e encontrar a si próprios.

Soraya é uma nutricionista ayurveda, uma das duas profissionais desta linha de base indiana, em Santos. Phileas Fogg é o personagem principal do romance “A Volta do Mundo em 80 Dias”, de Julio Verne. A nutricionista só levou mais tempo: 10 anos.     

Soraya descobriu a ayurveda durante uma pesquisa quando ainda estava na faculdade, na metade da década passada. “Eu estava insatisfeita com meu rumo na nutrição. Queria muito mais do que contar calorias nos alimentos.” 

Vida e conhecimento

A ayurveda é uma linha filosófica de origem indiana, por vezes associada somente à alimentação, principalmente a vegetariana. Ayur quer dizer vida e Veda, conhecimento, no idioma sânscrito. É a ciência medicinal praticada na Índia há pelo menos cinco mil anos e que vê o ser humano como um ser integral, ou seja, biológico, emocional, social e espiritual. 

A educação no catolicismo talvez – de forma inconsciente – explique que nenhum caminho para ela é limpo, sem pedras. Sofrimento e conquistas sempre estiveram presentes nas mudanças na vida de Soraya, nas escolhas dela. “É nessa origem que moram minhas culpas, minha rigidez”. 

Aos 19 anos, Soraya desenvolveu bulimia, logo que saiu de casa pela primeira vez, quando foi estudar Hotelaria, em Águas de São Pedro. Por trás, uma preocupação excessiva com o corpo. “Lá, eu me sentia muito ansiosa e não gostava do curso. Tive muitos conflitos que geraram compulsão alimentar feia. Um ano depois, minha mãe faleceu, o que piorou o quadro. Inconscientemente, penso que a bulimia me levou para a Nutrição. Hoje, estudo as causas reais disso.”  

Em 2006, depois de formada em Nutrição, Soraya seguiu a estrada dos novatos: a cozinha industrial. Insatisfeita, resolveu mudar de rota novamente e tomou um navio, mas não para a Índia. A nutricionista foi trabalhar como garçonete nos cruzeiros da Royal Caribean, incluindo o Hemisfério Norte. Eram jornadas diárias de 12 horas, durante sete meses, sem folga.

Petróleo e Panamá 

Soraya juntou dinheiro suficiente para pagar um curso de pós-graduação, com duração de dois anos, em Terapia Ayurveda. Formada em 2009, a nutricionista pegou outro navio, que também não a levaria à Índia. Outra vez, a cozinha industrial, só que de um navio de prospecção de petróleo. Mais dois anos embarcada, alternando 14 dias de trabalho com 14 de folga. 

A vida no mar deu a ela outro desvio no caminho para a Índia. No navio, por causa dos ambientes fechados e do isolamento da terra firme, Soraya desenvolveu Síndrome do Pânico. Lá, conheceu um amor panamenho. Acabou morando no Panamá por seis meses. “Era dona-de-casa, estudava espanhol. Me arrependi. Não gostei do país, do excesso de calor, do excesso de machismo.”

O ano era 2012 e, da América Central, com a bússola corrigida, Soraya viajou, parando somente em escalas aéreas, direto para a Índia. Passou um mês sozinha, outro com um grupo de brasileiros, colegas da pós-graduação, e mais um em viagem solitária.

Enfim, o consultório 

Na volta ao Brasil, outros dois anos em cozinha industrial antes de entrar em definitivo no universo ayurveda via consultório. Só em 2015, ela começou a atender dentro da filosofia indiana. Neste tempo, cursou outra pós-graduação, em Nutrição Clínica Funcional. 

Uma consulta com a nutricionista dura até duas horas e meia. “Preciso entender quem é o paciente.” É o cartão de visita dela, que simboliza um olhar integrado a fim de respeitar a individualidade. Neste sentido, a nutricionista trabalha comportamento alimentar, por meio também da meditação e de técnicas de respiração. “As pessoas, muitas vezes, querem a pílula mágica. Elas querem ser emagrecidas, e não emagrecer.”

A postura da nutricionista inclui respeito ao dosha, a constituição física do paciente, além do afastamento de produtos diet, light e industrializados em geral. Ser vegetariano não é prerrogativa, como muitos associam à alimentação ayurveda.

Soraya é vegetariana há três anos, quando parou de comer peixe, mas não entende como um processo irreversível. “Acabei me afastando de alguns ativistas por causa da agressividade.”

O atendimento em consultório acontece duas vezes por semana. O espaço, que fica no bairro do Embaré, em Santos, é dividido com outras quatro nutricionistas, cada uma especializada numa área do conhecimento, da oncologia ao tratamento infantil.

Um dia é reservado para acompanhamento online de pacientes, outro para a produção de conteúdo em redes sociais e mais um para estudos. Desta vez, um curso de Formação em Psicanálise. “Como o olhar é de integração, é natural procurar respostas no interior do ser humano. Não sigo nada 100%, nem a Ayurveda.”

A Índia, irresistível

A inquietude cutucou Soraya de novo em fevereiro do ano passado. Ela voltou à Índia, onde permaneceu um mês, em rodadas diárias de Satsang, um ciclo de palestras com gurus espirituais, intercalado com períodos de meditação. “Não tenho bens. Meu único bem, aliás, é minha bicicleta. Gasto meu dinheiro em cursos e viagens.” Agora, ela junta dinheiro para retornar; se possível, no próximo ano. 

Viciados em sair pelo mundo, Soraya Costa e Phileas Fogg passaram pelos mesmos endereços e poderiam ter se encontrado, se não fosse mais de um século de diferença. Talvez identificassem mais semelhanças entre eles, como a ânsia de conhecer e a eterna volta para casa. Talvez sejam mais parecidos do que a própria ficção, um guru indiano ou o próprio Julio Verne fossem capazes de imaginar.  

 

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