Número de pessoas em situação de rua dobra em cinco anos em Santos; entenda

De janeiro a março, 96 pessoas foram recambiadas para suas cidades de origem. Somente no ano passado, foram 400

Atualmente, existem 1.542 pessoas em situação de rua em Santos

Atualmente, existem 1.542 pessoas em situação de rua em Santos | Nair Bueno/DL

Um orçamento de R$ 115 milhões e uma equipe na ponta da linha formada por 16 funcionários para atender 1.542 pessoas em situação de rua em Santos. Em 2019, último levantamento realizado pela Prefeitura em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), eram 868 pessoas vivendo nas ruas da Cidade.

O Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), a principal iniciativa do Município que resgata pessoas e fica no bairro Vila Nova, região de grande vulnerabilidade social e concentração de pessoas em situação de rua, somente nos meses de janeiro e fevereiro, fez 1.958 atendimentos.

De janeiro a março, 96 pessoas foram recambiadas para suas cidades de origem. Somente no ano passado, foram 400.

Praticamente foram essas as principais informações obtidas por dezenas de santistas que foram pessoalmente e participaram online da audiência pública, de quatro horas de duração, realizada na noite da última quarta-feira (2), pela Câmara de Vereadores, sob o comando do vereador Sérgio Santana (PL).

O único saldo positivo do encontro, que foi revelado pelo secretário de Desenvolvimento Social Elias Júnior, representante do Executivo e principal personagem da noite, ao ser questionado sobre a redução de alimentação nos abrigos da cidade, foi que o Município terá em breve um banco de alimentos, proposto pela ex-vereadora Telma de Souza (PT).

Audiência pública durou quatro horas e foi realizada na noite da última quarta-feira (2)Audiência pública durou quatro horas e foi realizada na noite da última quarta-feira (2) / Carlos Ratton/DL

O banco foi rejeitado pela Administração que, agora, resolveu voltar atrás e implantar. Elias Júnior não deu data de início, local e nem detalhes de como funcionaria o equipamento.

Júnior anotou todos os questionamentos e disse que responderia nos próximos dias, por escrito, a todos os vereadores e todos que se inscreveram para falar na audiência, que contou com a presença do promotor público Carlos Cabral Cabreira.

Vale lembrar que Elias Júnior foi denunciado no Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) por manter uma quantidade mínima de alimentos que não é a recomendada pela Seção de Nutrição da própria Secretaria. Ele negou a diminuição.

No MP-SP, a denúncia de redução de alimentos nos abrigos se encontra na 18ª Promotoria (Saúde Pública e Inclusão Social). A Promotoria foi alertada que Elias Júnior deu “ordem expressa” para que cortassem 50% da alimentação.  

Sem respostas

Além das falta de respostas de Elias Júnior, quem participou da audiência teve outra frustração: embora informe sempre o contrário, Santos não trabalha de forma integrada no atendimento às pessoas em situação de rua.

Apesar de convidados à audiência, o secretário de Saúde, Fábio Lopez e a secretária de Segurança, Raquel Gallinati não compareceram. Nem a atual vice prefeita Audrey Kleys, que antecedeu Elias Júnior na Secretaria de Desenvolvimento Social (Seds), participou.  

O secretário de Prefeituras Regionais, Rivaldo Santos, denunciado por comandar a Força Delegada, formada por funcionários públicos e policiais militares, com objetivo de dificultar a vida das pessoas em situação de rua na Cidade, também não compareceu.

O que foi lamentado pela coordenadora do Movimento Nacional de Luta e Defesa da População em Situação de Rua, Laureci Elias Dias, a Laura Dias, que queria respostas sobre a questão denunciada com exclusividade pelo Diário do Litoral.

Vale lembrar que a Secretaria de Rivaldo Santos tem foco na zeladoria e atendimento aos munícipes nos bairros, como questões de poda das árvores, limpeza e manutenção. Nada pode fazer em relação às pessoas vulnerabilidade social, bem como, a Polícia Militar, cujo representante, o tenente-coronel Fábio Nakaharada, informou que atendimento a pessoas em situação de rua não é função da polícia.

O vereador Sérgio Santana também não obteve resposta sobre Santos, com mais de 400 mil habitantes, ainda não possuir um CAPS AD 24 horas – serviço de saúde pública que oferece atendimento integral e contínuo, inclusive finais de semana e feriados a pessoas que sofrem com o uso de álcool e outras drogas. “Cidades com 70 mil habitantes podem ter o equipamento”, disse inconformado.      

Outro que também não obteve respostas de Elias Júnior foi o vereador Rui de Rosis Júnior (PL). Ele questionou os imóveis alugados sem uso, como o da Avenida Afonso Pena, 185, ao custo de mais de R$ 19 mil por mês, que iria abrigar o Centro Dia para Pessoas Idosas. A denúncia foi feita na Câmara pelo vereador Sérgio Santana, que coordenou a audiência.

Assédio moral

Elias Júnior também não respondeu o questionamento feito pelo vereador Chico Nogueira (PT), sobre suposto assédio moral contra funcionários de sua secretaria. O caso também será encaminhado por Nogueira ao MP-SP.

Além da situação envolvendo os abrigos, os funcionários revelaram ao Diário que Elias promove uso equivocado de imóveis públicos, remanejamento inadequado de equipes técnicas e cortes de não pagamento das horas extras para além das 20 horas aos servidores de plantão nos abrigos abertos 24 horas, sugerindo banco de horas.

A vereadora Débora Camilo (Psol) questionou o secretário porque não existe trabalho em rede, porque o número 153 não funciona (situação também questionada por munícipes), porque a falta de banheiros públicos e bebedouros e porque o não aumento do orçamento para a Seds não ter sido aprovado pelo prefeito Rogério Santos (Republicanos). “O resultado desta audiência foi ruim. Muitos questionamentos e nenhuma resposta”, disse Débora ao final da audiência.

Além de representantes de bairro e alguns comerciantes, também estiveram na audiência os vereadores (as) Allison Sales (PL); Benedito Furtado (PSB); Cacá Teixeira (PSDB); Cláudia Alonso (Podemos); Marcos Caseiro (PT); Paulo Miyasiro (Republicanos); Renata Bravo (PSD).