Número de farmácias na Baixada Santista cresce quase 40%

Academias também acompanham ritmo. Para antropólogo, comportamento da sociedade influencia os setores

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27 JUN 2017Por Vanessa Pimentel10h00
No paradoxo entre saúde e doença, uma imagem representa bem essa relação: um prédio de esquina abriga no térreo uma farmácia e no andar de cima, uma academiaFoto: Matheus Tagé/DL

O número de farmácias que têm sido abertas na Baixada Santista tem chamado a atenção, tanto que já virou piada nas redes sociais, conversas informais nos bares caiçaras e filas de banco. O papo tem razão de ser: segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), existiam em 2012 na Região, 4.607 farmácias. Em 2016, esse número subiu para 6.409, um aumento de quase 40%.

Segundo a RD – empresa que administra as marcas Droga Raia e Drogasil, maior rede do setor farmacêutico no país, a qualidade das lojas - locadas em bons pontos e com amplos estacionamentos - estrutura logística e produtos que vão além de remédios, são fatores que impulsionam o crescimento e atraem mais clientes. Só na Baixada Santista, já são 28 lojas Droga Raia e 19 unidades da Drogasil.

Sem crise para o setor, quem caminha pela Avenida Presidente Wilson, em São Vicente, nota isso facilmente. Em um trecho da via citada de pouco mais de 900 metros, a Reportagem contou oito farmácias - se incluirmos as que são visíveis pelo entorno, sobe para 11.

Mas, por que será que mesmo com a economia balançada dos últimos anos, o nicho se expande sem dificuldade?  Para o antropólogo Darrell Champlin, o comportamento da sociedade atual é um dos fatores que mais influencia nesse cenário. “Você conhece alguém que para curar uma dor de cabeça toma um banho alongado ou faz 20 minutos de meditação? É mais fácil tomar um Advil”, explica.

Darrell acredita que a busca pelas soluções instantâneas para os problemas da vida faz crescer o conceito de farmácia. “Você vai ao médico e ele olha para o resultado dos exames e não para o paciente. E aí vem uma caixinha que resolve tudo de forma rápida e se encontra em cada esquina. Tem fórmula para tudo”, justifica o antropólogo.

A internet também seria responsável por esta mudança no comportamento humano. Segundo ele, a velocidade com que as coisas acontecem no mundo virtual acaba sendo comparada com o tempo que as coisas levam na vida real, por isso, a busca por soluções rápidas, como tomar um remédio ao invés de analisar o que está causando determinado desconforto, principalmente quando os sintomas são psicológicos, ganha cada vez mais adeptos.

Academias

Outro setor que parece estar acompanhando o ritmo de crescimento das farmácias são as academias. De acordo com um estudo do Sebrae realizado há dois anos, o Brasil é o segundo país com o maior número de academias de ginástica no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Novamente, na Avenida Presidente Wilson, é possível ver, de fato, que o mercado fitness cresce sem medo da concorrência. No mesmo trecho citado da referida via no início do texto, somam-se cinco academias – mais quatro em ruas paralelas.

No paradoxo entre saúde e doença, uma imagem representa bem essa relação: um prédio de esquina abriga no térreo uma farmácia e no andar de cima, uma academia.

Para Maricene Zogbi, gerente da academia Just Fit em São Vicente, o desenvolvimento do mercado fitness é resultado da busca pela saúde e não mais pelo corpo perfeito, apenas. “Hoje em dia as academias não são só locais para fazer exercícios. Existe o envolvimento e a indicação de diversos profissionais da área da saúde, do nutricionista ao cardiologista”, explica.  

Para se destacar em meio à concorrência, ela diz que investe na qualidade do atendimento e no treinamento personalizado de acordo com a faixa etária do cliente. “Ser simpático, atencioso e acompanhar o desenvolvimento do aluno gera um clima de amizade. Eles se apegam aos professores e daí não trocam mais”, brinca ela.  

Já para Darrell, a busca pelo corpo perfeito, aliada a pressão imposta pela indústria da beleza são os verdadeiros motivos do crescimento do setor fitness.

“Ao contrário das soluções em curto prazo vendidas nas farmácias, a academia vende um serviço que precisa de mais tempo para mostrar resultados. Porém, em algum momento, os dois nichos se encontram já que os mais ansiosos tomam substâncias para acelerar o processo de torneamento do corpo. O consumo dessas substâncias afeta o rim, o fígado e aí entram os remédios. É um ciclo que começa pela venda da perfeição na internet”, explica.

Para ele, o argumento de que as academias crescem devido à busca pela saúde é fraco. “Com certeza existem aqueles que se exercitam para melhorar a saúde, mas a maioria está lá para ter um corpo que a sociedade obriga, para ser aceito e se aceitar, não é uma relação tão saudável assim e passa longe do que é ter saúde”, explica.

Sobre as academias que ficam abertas 24 horas, Darrell diz que o hábito diminui a qualidade do padrão do sono. “Como esse fenômeno é comportamental, há demanda para o mercado e os empresários já notaram, por isso oferecem esse serviço. Mas, quem busca hábitos que melhorem a qualidade de vida sabe que dormir bem é um dos principais. Se você agita o corpo na hora em que deveria relaxar, consequentemente dormirá mal. Dormir mal traz sintomas de ansiedade, baixa produtividade no trabalho e até depressão. E aí um mercado puxa o outro”, diz.

O antropólogo cita também que é preciso tomar cuidado quando processos naturais do corpo começam a se tornar problemas na busca pela perfeição. Um exemplo seria um perfume que disfarça o odor da menstruação ou dos gases. “Precisa disso? É um processo natural do corpo humano”, exclama.

Cuidar das emoções pode ajudar a melhorar a saúde

Para quem procura achar o equilíbrio entre saúde e doença de forma mais leve, as práticas que integram mente e corpo têm ganhado cada vez mais adeptos. Uma delas conhecida como Mindfulness vem crescendo nos Estados Unidos e conquistando o Brasil, segundo Champlin.

“Ela se baseia na ­meditação e nas descobertas reveladas através da conexão do ser com ele mesmo. Dessa forma, entendemos como as emoções influenciam na nossa saúde e passamos a cuidar melhor delas. Consequentemente, a saúde melhora”, afirma.

Otimista, Darrell acredita que cada vez mais pessoas se darão conta que para serem saudáveis precisam cuidar dos pensamentos primeiro. “Já é possível notar que cada vez mais pessoas se aceitam como são. Esse movimento está ­acontecendo porque tem gente que já percebeu que a sociedade está doente. É uma mudança gradual, mas está caminhando”, declara.