Novo relatório da ONU aponta avanço do mar nunca antes visto e litoral brasileiro já sente os efeitos

Com dados alarmantes sobre o avanço das marés, estudo global mostra como cidades turísticas e grandes portos brasileiros entraram na linha de frente do clima

É diante dessa informação que os riscos de uma catástrofe aumentam e preocupam autoridades

Na Baixada Santista, onde o maior porto da América Latina divide espaço com ecossistemas diversos, o tempo para agir começou a correr

O motor azul do planeta está mudando em uma velocidade alarmante, e os primeiros impactos já atingiram a costa. Um novo e crucial relatório da Organização das Nações Unidas, a ONU, acendeu o sinal vermelho para o litoral paulista.

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Na Baixada Santista, onde o maior porto da América Latina divide espaço com ecossistemas diversos, o tempo para agir começou a correr.

Uma força-tarefa global com DNA brasileiro

O veredito está no 3º Relatório Mundial sobre a Situação do Oceano, uma verdadeira autópsia dos mares que levou cinco anos para ser concluída.

Essa força-tarefa reuniu mais de 550 cientistas de 86 países para mapear os pontos de inflexão do planeta.

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Na linha de frente desse estudo está o professor Ronaldo Christofoletti, do Instituto do Mar da Unifesp, em Santos.

Ele liderou a investigação sobre os ecossistemas mais vulneráveis da nossa costa e provou que as ameaças globais já batem à nossa porta.

O mar sobe em ritmo duplicado

Até 2015, a elevação do nível do mar era de menos de dois milímetros por ano. Porém novos dados da ONU surpreenderam o mundo da ciência: o aumento saltou para 4,3 milímetros por ano.

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Pode parecer pouco na régua, mas para a engenharia urbana, essa aceleração é uma bomba-relógio.

O avanço implacável da água potencializa a erosão, sabota os sistemas de drenagem e aumenta o poder de destruição das grandes ressacas.

Em uma Baixada Santista que historicamente luta contra enchentes, o perigo é imediato.

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“O dado do aumento do nível do mar e das soluções baseadas na natureza talvez seja o mais urgente para a Baixada”, alerta Christofoletti, apontando a necessidade de reescrever o planejamento das cidades.

O custo do clima no turismo

As praias paulistas são mais do que paisagens exuberantes, sendo o coração financeiro da região. Cidades como Santos, Guarujá, Praia Grande e todo o litoral sul recebem milhões de visitantes que movimentam bilhões de reais todos os anos.

A conta dos eventos extremos

Com o avanço da erosão e a fúria das ressacas, a infraestrutura turística entra na linha de fogo.

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A elevação na frequência de eventos climáticos extremos significa que as prefeituras gastarão cada vez mais com reconstrução e manutenção urbana, transformando o clima em um desafio econômico sem precedentes.

A grande migração subaquática e o colapso da pesca

O aquecimento global e o derretimento acelerado das geleiras polares estão provocando um desequilíbrio nas correntes marinhas. O resultado é um êxodo em massa sob as ondas.

O desequilíbrio nos estoques pesqueiros

Peixes e crustáceos estão abandonando suas áreas tradicionais e migrando em busca de águas mais frias. Para os pescadores e para a indústria pesqueira de São Paulo, isso significa redes vazias e custos operacionais nas alturas.

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O relatório da ONU confirma que a pesca sustentável está perdendo terreno no mundo inteiro. “Quando se retira mais do que o ambiente repõe, estamos comprometendo o futuro”, explica Christofoletti.

O avanço dos microplásticos e a nova poluição

O diagnóstico da poluição marinha revela um cenário assustador. Em apenas quatro anos, o número de espécies marinhas com microplásticos detectados no organismo simplesmente triplicou.

Essas partículas nocivas já colonizaram desde peixes costeiros até as fossas abissais do oceano.

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O desafio dos contaminantes emergentes

O perigo se tornou ainda mais complexo com os chamados contaminantes emergentes, que são resíduos de remédios, hormônios e cosméticos que passam intactos pelos métodos convencionais de tratamento de esgoto.

O alerta ganha escala crítica na Baixada Santista durante o verão, quando a população explode com o turismo e sobrecarrega o saneamento.

Manguezais lideram a resistência

No meio de um diagnóstico preocupante, os cientistas encontraram um bolsão de esperança nos mangues. Dados de satélite revelaram que o desmatamento de manguezais desacelerou ao redor do mundo.

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Os manguezais são verdadeiras usinas de sobrevivência visto que eles estocam carbono, servem de berço para a vida marinha e funcionam como amortecedores naturais contra a força das marés.

Na Baixada Santista, preservar cada metro quadrado de manguezal é a defesa mais barata e eficiente contra as ressacas e as inundações provocadas pela crise climática.

O oceano como a próxima fronteira médica

Apesar das ameaças, o relatório da ONU revela um território repleto de oportunidades na chamada economia azul.

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A grande aposta da década é a biotecnologia marinha.

Organismos que vivem sob condições extremas no oceano produzem compostos químicos únicos, capazes de originar a próxima geração de antibióticos e tratamentos contra o câncer.

“O oceano pode ser a nossa próxima farmácia”, resume Christofoletti.

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Esse tesouro biológico permanece praticamente intocado, já que apenas 27% do fundo do mar global foi mapeado em detalhes pela ciência.

O parecer médico da Terra

O documento da ONU funciona como um exame clínico de emergência para o planeta. Ele não dita regras, mas entrega as evidências para que governos e a sociedade civil iniciem uma corrida contra o tempo.

Para a Baixada Santista, o plano de ação envolve blindar o saneamento, recuperar barreiras naturais, monitorar poluentes e repensar a infraestrutura das cidades.

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“Os países precisam olhar para a sua realidade e pensar no que podem fazer melhor. Esse é o parecer médico do momento do planeta”, conclui Christofoletti. Para o litoral de São Paulo, proteger o oceano não é mais uma escolha ecológica, é a única estratégia de sobrevivência.