Nove anos: jovens de SV embarcam em cruzeiros e mudam de vida

Jovens que participaram da primeira turma do Tripulantes do Futuro falam da carreira e da vida nova

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22 MAI 2017Por Diário do Litoral10h30
Diego (esq.), Luiz Carlos (blusa preta), Camila (centro), Nayara (dir.) e Gustavo (dir.) participaram da primeira turma do projeto social Tripulantes do Futuro, lançado em 2008Diego (esq.), Luiz Carlos (blusa preta), Camila (centro), Nayara (dir.) e Gustavo (dir.) participaram da primeira turma do projeto social Tripulantes do Futuro, lançado em 2008Foto: Matheus Tagé/DL

Conhecer diversos países era um sonho para Gustavo, Diego, Luiz Carlos, Camila e Nayara. De famílias humildes, os jovens moradores da periferia de São Vicente viram no então novo projeto social lançado pela Prefeitura, em 2008, o Tripulantes do Futuro, a chance de mudar de vida e ajudar os pais. Após a realização de um curso totalmente gratuito tiveram a oportunidade de ingressar em cruzeiros marítimos e iniciar carreira em empresas do setor. Hoje, quase 10 anos depois, além das histórias eles colecionam sucesso.

“Minha vida mudou completamente. Lembro o dia que vi o folheto informando sobre a palestra do projeto. Na época tinha 23 anos e já tinha terminado a faculdade de Turismo e Hotelaria. Achei que era a oportunidade de conhecer o mundo. Consegui entrar no curso. No meu primeiro contrato fiquei quase um ano embarcado. Me apaixonei pela a vida a bordo. Só voltei para casa porque precisava de férias”, disse Gustavo Gouvea, de 33 anos, que na época morava com os pais no bairro Vila São Jorge.

Gustavo foi da primeira turma do projeto. Após o primeiro contrato ele nunca mais deixou a vida a bordo. Atualmente é especialista em joias e relógios e atua como vendedor nas lojas internas dos navios de passageiros. “Deu para ganhar muito dinheiro. Não é fácil, é um sacrifício deixar a família e os entes queridos, mas é preciso quebrar a rotina e sair da zona de conforto. Conheço todos os continentes”, afirmou o tripulante, que está de férias aguardando o próximo embarque.

Foi a bordo de um cruzeiro que Gustavo conheceu a esposa. “Conheci ela dentro do navio. Hoje só trabalhamos juntos. Moramos em Florianópolis, em uma casa na praia. Vamos comprar mais uma casa. Estamos muito bem. O Tripulantes foi a oportunidade da vida. Mudou a minha vida de um jeito que eu nunca imaginei”, destacou.

Supermercado

Luiz Carlos Lacerda Filho, de 27 anos, foi da segunda turma do projeto. Participou do curso aos 18 anos.

Aos 19 anos assinou seu primeiro contrato e ingressou no navio. “Fiquei sabendo por cartazes na rua. Não sabia direito o que era. Só sabia que era para trabalhar em navio. Sempre tive o sonho de conhecer o mundo, mas de família muito humilde e pobre seria muito difícil. Fui me inscrever sem pretensão alguma. Apenas tentar”, afirmou.

O jovem trabalhava na época como operador de caixa em uma rede de supermercados. Conseguiu a vaga para o curso e, após selecionado para ingressar no navio, pediu demissão do emprego. “Embarquei como mensageiro em um navio da MSC, mas logo subi de cargo. Trabalhei como vendedor de loja. O primeiro contrato foi de 11 meses e a empresa pediu para estender. Entrei no navio não falava nada de inglês, somente o básico. Um ano depois já estava fluente no inglês”, contou Luiz Carlos, que hoje também fala italiano e espanhol.

Luiz Carlos conseguiu juntar R$ 40 mil. Com o dinheiro, ajudou o pai a se aposentar. “Ele precisava pagar uma quantia para se aposentar. Com o dinheiro que dei para ele conseguiu. Pudemos mudar para uma casa melhor, no Parque Bitaru mesmo, mas melhor. Consegui ajudar a minha família”.

Atualmente, Luiz Carlos não trabalha mais a bordo. Deixou o navio para estudar. Estuda Gestão Portuária na Fatec e com a experiência obtida nos cruzeiros conseguiu emprego de recepcionista em um dos mais conhecidos hotéis de Santos. “Assim que terminar a faculdade vou avaliar se volto para o navio. Consegui esse emprego por causa da experiência internacional e dos idiomas que falo. Sou muito grato pela oportunidade do Tripulantes do Futuro. Se não fosse ele não seria metade do que sou hoje. Na época não tinha perspectiva. Só sabia que gostava de trabalhar e isso me bastava”, afirmou.

Diego Nascimento dos Santos, de 27 anos, também trabalhava como operador de caixa quando ingressou no Tripulantes do Futuro. Tinha 18 anos na época. “Passei a noite na fila para conseguir a vaga. Fui da primeira turma. A inscrição era lá no Fundo Social. Tinha acabado de ser promovido a padeiro no mercado. Fiz o curso e um dia meu telefone toca na padaria. Era uma vaga para embarcar no MSC Orquestra para assistente de garçom. Pedi demissão e embarquei”, afirmou.

Ele falava pouco o inglês e também teve de se virar. Ficou um ano e dois meses dentro do navio. Um problema de saúde fez com deixasse a rotina de cruzeiros por um tempo. Após o segundo contrato, surgiu proposta para trabalhar em um dos melhores hotéis de São Paulo. “Decidi ficar em terra para trabalhar no hotel. Com o dinheiro que ganhei no navio comprei computador, máquina fotográfica, ajudei a minha mãe, ampliamos a casa onde morávamos. A renda dos meus pais é de alugueis e ajudei na reforma. Fui morar na Irlanda e fiz a travessia depois como passageiro”, destacou Diego, que conheceu 27 países. “Quando um jovem da Vila Margarida, que trabalhava como caixa de supermercado, poderia viver essa realidade?”, questionou.

Casamento

Camila Araujo, de 31 anos, também é da segunda turma do projeto. A moradora da Vila Margarida tinha 20 anos quando ingressou no curso. Após oito contratos, a jovem agora se prepara para casar.

“Desembarquei faz um mês. Estava em Miami. O meu primeiro contrato foi pela Europa. Fui como assistente de garçom. Falava um pouco de inglês. Agora falo espanhol fluente e um pouco de francês e alemão. Sempre tive curiosidade de trabalhar a bordo. A minha prima já tinha ido e resolvi tentar”, afirmou.

Na época, Camila já namorava com o atual noivo. Ele não gostou da ideia. Ela o convenceu a ir. “Falei se você não for comigo não vamos dar certo. Inscrevi ele em um curso particular e embarcamos juntos no primeiro contrato. Juntamos dinheiro, compramos a nossa casa, estamos pagando o nosso casamento e agora vamos comprar a nossa segunda casa. Casamos em setembro, se não engravidar até outubro, voltamos para o navio”, destacou a jovem que agora trabalha como garçonete nas embarcações.

Questionada sobre o projeto, Camila agradece. “Oportunidade única. Tivemos todo o respaldo. Todo mundo era jovem. Fomos com a cara e a coragem. Vencemos”.

De tripulante à dona do próprio negócio

As mudanças na vida de Nayara Andrade, de 27 anos, foram além do que esperava. A jovem ingressou aos 19 anos na primeira turma do projeto Tripulantes do Futuro. A moradora do Jóquei Clube ajudava o pai, que na época tinha um mercadinho. Enfrentou fila para realizar o sonho. A experiência a bordo lhe rendeu conhecimento para, em terra, abrir seu próprio negócio. Atualmente é profissional reconhecida no ramo da fotografia e com agenda lotada.

“Só tinha homens na fila. Era tudo novo para mim. Eu queria viajar, ter experiência nova. Sabia que se não fosse assim eu jamais conseguiria. Fui selecionada para o curso. Falava pouco de inglês, mas queria embarcar como recreação. Me inscrevi em um curso de italiano. Até gravei um vídeo de humor para mostrar o que queria”, lembrou Nayara.

A oportunidade surgiu inesperadamente. Duas vagas para fotografo na Costa Cruzeiros. “Tinha feito um ano de faculdade de Publicidade, mas não gostava de fotografia. Não sabia nem ligar a câmera. Mas fui. Foi difícil até chegar ao navio. Fomos e eu e a Bruna, que também era do projeto e foi selecionada, para o Rio de Janeiro. Tínhamos 19 anos. Fomos sem dinheiro, só com os papeis de embarque e vestida com o uniforme que eles pediram. Chegando lá tivemos que fazer exame em um laboratório, quase perdemos o navio”, disse.

Já embarcada, Nayara teria o desafio de aprender a fotografar e a falar os idiomas. “Fui aprendendo na raça. Eu era a que mais rendia. Fazia graça e conseguia fotografar. As pessoas quando embarcam não fazem foto. Logo chamei atenção e começaram a me treinar. Virei retratista. Mas me mudaram de navio.

Sai de um navio gigante e fui parar em um navio pequeno”, ­destacou.

Nesta embarcação, que era excursionista, Nayara conheceu 19 países, visitou o deserto do Líbano e 11 vezes as pirâmides do Egito. “Foi nas pirâmides que vi algo muito parecido com o Brasil. Crianças que pediam dinheiro. Fotografei 40 crianças, revelei as fotos e dei para elas. Elas nunca haviam se visto. Não entendiam como o corpo delas estavam impressos naquele papel”, afirmou.
 

Nayara ganhava 980 euros por mês. Entre os dois navios foram 10 meses. Conheceu um italiano com quem iniciou namoro no navio. Após desembarcar terminaram o relacionamento. Ele a procurou no Brasil.

“Disse que veio conhecer meus pais. Entramos em um acordo que não íamos mais embarcar. Casei. Ele veio para cá. Hoje estou separada. Na época não era moda tirar foto em festa. Com uma câmera profissional, comecei a fazer festa e casamento”, destacou.

Nayara montou uma empresa de fotografia e sua equipe percorre todo o Brasil. “Tenho 57 casamentos agendados e mais 32 para o ano que vem. Queria ser recreadora e acabei fotógrafa com currículo internacional. A oportunidade do Tripulantes significa tudo para mim. Espero que as nossas histórias sirvam para mostrar o que foi o esse projeto e o que ele fez para tantas vidas”, afirmou.

Parceria na gestão Tercio é lembrada

O Tripulantes do Futuro nasceu em 2008 na segunda gestão do então prefeito Tercio Garcia (PSB), falecido em dezembro do ano passado. Era um dos principais projetos sociais de seu mandato. Feito em parceria com a empresa Fatto Brazil, que na época era uma das únicas que atuava na capacitação de mão de obra para cruzeiros marítimos, a iniciativa atendeu milhares de jovens de 18 a 29 anos.

“A primeira turma contava com 150 vagas, mas foram 800 inscritos. Eu era um jovem iniciante empresário. Queria muito ter sucesso e queria que as minhas ideias dessem certo. E por mais que a gente queira isso, a gente nunca imagina a proporção desse ‘dar certo’. O sucesso é saber que hoje eles estão bem, que são cidadãos que sabem planejar o futuro e que ajudaram os seus pais. É transformador”, afirmou João Fabricio de Brito.

Fabricio era o proprietário da empresa Fatto Brazil, que formou mais de 12 mil tripulantes. Após empreender, levou a ideia do projeto para algumas prefeituras, mas apenas São Vicente teve interesse.

“Três meses depois da Fatto aberta, e já dando certo, a Itália pedindo tripulantes, tentei levar a ideia para as prefeituras da região, ninguém quis. A ideia inicial sempre foi Santos, porque tinha o porto e seria muito bom para a cidade. Quando trouxe a ideia para São Vicente, a dona Marcia, esposa do Tercio, visionária, abraçou. Em menos de 15 dias ela sentou e disse vamos transformar em um projeto social bacana’. Foi um trabalho de parceria. A Fatto trouxe a ideia e a única que poderia executar o projeto tecnicamente naquele momento”, destacou.

Em 2013, com o governo do prefeito Luis Cláudio Bili, o projeto ganhou outro nome. A iniciativa seguiu até 2015.

Atualmente, a Prefeitura de São Vicente reforma o prédio que abrigava os cursos do Tripulantes do Futuro.

O imóvel será cedido ao Governo do Estado para a realização de cursos profissionalizantes em parceria com o Centro Paula Souza. As capacitações não serão focadas apenas para cruzeiros marítimos, segundo a Administração Municipal, e deve formar mão de obra para o ‘potencial da região’.