Cotidiano
Partido ao meio por um torpedo alemão durante a Segunda Guerra, o navio tornou-se um santuário histórico a metros de profundidade
A descoberta ocorreu após uma série de mergulhos técnicos entre Peruíbe e Iguape, onde foi possível constatar que a embarcação está partida ao meio / Foto: Divulgação/Maurício Carvalho
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Um grupo de mergulhadores identificou, no litoral sul de São Paulo, os destroços do navio Tutoya, cargueiro brasileiro torpedeado por um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial.
A descoberta ocorreu após uma série de mergulhos técnicos entre Peruíbe e Iguape, onde foi possível constatar que a embarcação está partida ao meio, indício de que afundou exatamente na posição em que foi atingida.
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A equipe responsável pela identificação já havia comprovado outros dois naufrágios históricos na região, próximos à Ilha da Queimada Grande, reforçando o litoral paulista como um dos principais cenários submersos da história naval brasileira.
‘A gente mergulhou nesse segundo da história que foi congelado. Um cargueiro brasileiro, torpedeado na Segunda Guerra Mundial por um submarino alemão’, relata a mergulhadora e pesquisadora de naufrágios, Tatiana Mello. Para ela, cada naufrágio funciona como uma cápsula do tempo. ‘O navio guarda um momento da nossa história: hábitos, tecnologia, tudo está preservado lá embaixo.’
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O mergulhador e pesquisador Maurício Carvalho reforça: ‘O Brasil é um grande lugar para isso. Temos uma história marítima riquíssima ainda pouco conhecida’.
A identificação do Tutoya foi precedida por uma pesquisa detalhada em bancos oficiais, como o Sistema de Informação de Naufrágios (SINAU). Os registros indicavam que o cargueiro havia sido atacado em 1º de julho de 1943. Moradores da região também já sabiam da existência dos destroços — o local é conhecido por práticas como a pesca esportiva.
As coordenadas exatas foram repassadas pelo marinheiro Clayton Aloise, permitindo que a equipe realizasse o mapeamento da área, incluindo profundidade e relevo do fundo do mar. A tecnologia de sonar, que utiliza ondas sonoras para detectar objetos submersos, confirmou uma anomalia no fundo.
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‘Marcava um relevo diferente. Fomos nos aproximando até o momento em que eu passei em cima dele’, lembra Tatiana. A equipe ancorou o barco e iniciou o primeiro mergulho, com duração de cerca de 35 minutos.
Logo na descida, a equipe caiu praticamente sobre a praça de máquinas. ‘Já fiz as medidas logo no começo do mergulho para garantir os dados técnicos’, relata Maurício. Motores, guindastes de carga e o leme foram identificados.
De volta à superfície, veio a confirmação: as medidas coincidiam exatamente com as especificações históricas do Tutoya. A equipe então realizou um segundo mergulho, mais detalhado.
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Foi nessa nova inspeção que surgiu a principal revelação. Durante a navegação subaquática, partes do navio ‘desapareciam’ sob a areia.
‘Depois de uns 15 a 20 metros, comecei a ver uma mancha escura… e era a proa do navio’, conta Tatiana. A conclusão foi inevitável: o Tutoya está partido ao meio.
‘Atingido próximo à cabine de comando, ele literalmente quebrou e afundou pelo meio’, explica. O achado confirma os relatos históricos dos sobreviventes do ataque.
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No naufrágio, sete tripulantes morreram. ‘Ali no fundo foi muito emocionante. Foi onde o torpedo entrou, onde sete pessoas perderam a vida’, relembra a pesquisadora.
O Tutoya era um navio cargueiro a vapor de aço, construído em 1913, na Inglaterra, inicialmente com o nome Mitcham. Dez anos depois, foi vendido ao Lloyd Brasileiro e rebatizado como Uno. Em 1929, recebeu o nome Tutoya, em homenagem a uma cidade do Maranhão.
Mesmo durante a guerra, a embarcação seguia operando dentro das normas internacionais. ‘O Brasil dependia desses navios. Remédios, alimentos, todo tipo de carga circulava por eles’, explica Tatiana.
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Na madrugada do ataque, apesar de estar com luzes acesas e devidamente identificado, o Tutoya foi atingido por um submarino alemão que atuava na costa brasileira. Apenas 30 tripulantes sobreviveram para contar a história.
Apesar da relevância histórica, o navio não pode ser removido. Segundo Maurício, a legislação brasileira considera o Tutoya um sítio arqueológico subaquático.
‘Não pode retirar nenhuma peça, nem fazer intervenção. Nossa visita é contemplativa: mergulhamos, estudamos, fotografamos e filmamos, mas não tocamos em nada’, afirma.
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A identificação do Tutoya acrescenta um novo capítulo à memória da Segunda Guerra no Brasil e transforma o fundo do mar paulista em um arquivo vivo da história, preservado pelo silêncio e pela areia do oceano.