‘Não vejo deputados comprando nossas brigas’

A vereadora de Praia Grande, Janaina Ballaris, se mostra insatisfeita com a falta de representatividade e de atenção dada por lideranças aos quadros da própria legenda na região

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19 MAR 2018Por Carlos Ratton09h50
A pré-candidata a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT)e vereadora de Praia Grande, Janaina BallarisFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Pré-candidata a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT), a vereadora de Praia Grande Janaina Ballaris se mostra insatisfeita com a falta de representatividade e de atenção dada por lideranças aos quadros da própria legenda na região. Ela afirma, em entrevista, que muitas até preferem orquestrar ‘dobradinhas políticas’ com lideranças de outros partidos. Confira os principais trechos da entrevista: 

Diário – Você decidiu quando lançar a pré-candidatura?
Janaina Ballaris –
Depois que muitas pessoas em Praia Grande e até da região, quando me encontravam, perguntavam se eu não teria pretensão de ser deputada. Algumas lideranças até de outros partidos. E aí, a ideia começou a ser construída. Eu já visitei 39 cidades para conhecer as realidades e as principais reivindicações da população. Esse projeto (pré-candidatura) começou a ser construído comigo, coisa que meu partido nunca fez. 

Diário – Você está magoada por isso?
Janaina –
Sim, mas eu não saio do PT. Seja pré-candidata estadual ou federal, vou pela legenda. Não sinto apoio do partido para a Baixada Santista e isso é culpa de nossas lideranças e elas foram ‘morrendo’. Telma de Souza, nossa principal liderança regional, deveria abraçar as novas lideranças, mas eu não me sinto acolhida politicamente por ela. Eu já pedia ajuda para juntas construirmos um projeto político, mas ela prefere abraçar a Carina Vitral (PC do B), uma pessoa de outro partido, e até chamá-la de sua herdeira política. Nós temos o candidato ao governo do Estado e o PC do B tem outro. Ou seja, não estaremos no mesmo palanque.         

Diário – A senhora é vereadora há seis anos. No que o Estado peca?
Janaina –
Eu já fiz várias visitas às escolas estaduais e descobri como elas estão sucateadas. Fui até proibida de entrar pela antiga delegada regional de ensino em função disso. Ela alegava que sendo do Estado, eu não tinha competência para fiscalizar. Ocorre que os alunos são de Praia Grande. Nas minhas andanças, não vi nenhum deputado fiscalizando e cobrando providências do Governo. Estão caindo aos pedaços e ninguém fala nada. 

Diário – Em Peruíbe, quase o prefeito rompeu com o Estado por conta da merenda?
Janaina –
Exato. Em Praia Grande, a Prefeitura é que fornece a merenda para as escolas estaduais e ainda faz a manutenção. Eu comecei a estudar as contas públicas e descobri que o Governo Geraldo Alckmin não repassou R$ 700 milhões para a Educação da Baixada. O consultor Rodolfo Amaral já apresentou vários números sobre essa e outras ­áreas. 

Diário – Você acredita que terá facilidade na Assembleia ou Câmara?
Janaina –
As prerrogativas são as mesmas do vereador, só que em maior escala. Fiscalizar, propor leis, votar o orçamento, enfim. Eu não vejo isso ­ocorrer.

Diário – Quais são seus projetos para a Baixada?
Janaina –
Precisamos melhorar muito a questão da saúde. Em Praia Grande, por exemplo, exames e cirurgias nas áreas de especialidades são de responsabilidade do Estado. Não existe quantidade de leitos suficiente. A Cidade acabou assumindo o atendimento da maternidade de todo o Litoral Sul. Já cheguei a denunciar várias vezes a falta de repasses para o Hospital Irmã Dulce. São R$ 400 milhões por ano a menos para a região. Esse dinheiro poderia ajudar a manter hospitais. Não temos uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) Pediátrica. Alguém tem que cobrar. O Governo do Estado está de costas para a Baixada.

Diário – Falta mulheres nos ­legislativos?
Janaina –
São 10%. Mais de 50% da população brasileira é formada por mulheres. Isso significa que mulher não está votando em mulher. Não sei se há preconceito, enfim. As mulheres são fundamentais no parlamento porque são intuitivas, emocionais, sensíveis às causas sociais de forma geral. Falta o dedo feminino para que as mudanças, realmente, ocorram. 

Diário – A Baixada comprando brigas relacionadas ao Meio Ambiente. Termoelétrica em Peruíbe e, agora, transposição do Rio Itapanhaú, em ­Bertioga? 
Janaina –
E não vejo deputados da região comprando nossas brigas. Estive com o deputado Nilto Tato (PT) falando sobre essa questão (Itapanhaú) e vai propor uma frente parlamentar para discutir essa questão, pois a população, os vereadores e até o prefeito de Bertioga são contra. Também não vejo cobrança dos deputados e dos municípios da região com relação ao mau serviço prestado pela Sabesp. Cerca de 50% de Praia Grande não possui saneamento e, no entanto, 99% da cidade tem asfalto. Ou seja, quebram o asfalto e, depois que colocam a tubulação, fecham de qualquer jeito. Isso precisa mudar.

Diário – Travessia de balsas deveria ser uma questão prioritária?
Janaina –
Só inauguram maquete. Uma hora e ponte e outra é túnel. Eu estive numa comitiva e ouvi do vice-governador Márcio França que, quando assumir o governo, vai providenciar mais recursos para a Baixada. Apesar de eu não ter visto ele (França) trazer recursos até agora. Acho que o vice não tem poder. Então, quem sabe quando se tornar governador a situação muda. 

Diário – Praia Grande está bem administrada?
Janaina –
Mourão (Alberto) é um bom administrador, mas peca na questão da regularização fundiária e no déficit habitacional, questões que ele já está revendo. Paga-se mil reais de aluguel de um ônibus por dia e uma atendente de creche não ganha o mesmo por mês. Falta um olhar mais social, falta investir em pessoas. O aeroporto, por exemplo, foi um acerto, até pela geração de ­empregos.

Diário – O Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista (Condesb) funciona?
Janaina –
É um órgão muito político. Mourão tentou mudar isso e não conseguiu porque os prefeitos não abraçaram a causa. Ele fazia reuniões com secretários e não com os prefeitos. Eu sou crítica ao governo Mourão, mas sei reconhecer quando ele acerta.