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Cotidiano

'Não usar o passado para justificar pequenas derrotas'

APESAR DO RISCO SOCIAL. Brendol Freire e Valdemir Marques conseguem tirar 940 e 980 em redação no ENEM

Valdemir obteve nota 980 e Brendol 940 na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) / Paolo Perillo/DL

A frase resume bem a história de Valdemir Gomes Marques , 19 anos, e Brendol Alexandre Assis Freire, 18 anos, que, apesar de serem jovens enquadrados no grupo de pessoas sob risco social - quando o indivíduo deixa de ter condições de usufruir dos mesmos direitos e deveres dos outros cidadãos, devido ao desequilíbrio socioeconômico - conseguiram um feito invejável: Valdemir obteve nota 980 e Brendol 940 na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O Diário conversou com ambos. Confira os principais trechos da entrevista neste Papo de Domingo.

Diário do Litoral – Foi necessário muito esforço para obter a nota, principalmente se for levada em consideração a vida difícil de vocês?

Valdemir Marques – Eu me dediquei bastante. Nós fazíamos Ensino Médio na Escola Estadual Olga Cury de manhã, técnico na Etec Aristóteles Ferreira à tarde e, à noite, o curso popular Cardume, no Campus Baixada da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), para jovens que, por falta de recursos, não conseguem ter acesso a cursos preparatórios em escolas particulares e que precisam de reforço para participar do ENEM.

DL – Esse curso, o Cardume, é gratuito e as inscrições começam no dia 1º de fevereiro. Ele foi importante para vocês?

Valdemir – Sim. A grade nas escolas é direcionada para que você tenha nota e passar de ano. Já o Cardume visa te oferecer conhecimento antes de tudo. Ele é direcionado a jovens e adultos que já concluíram o ensino médio, ou o farão durante o ano de 2016. O objetivo é oferecer acesso ao ensino superior por meio do Enem, prioritariamente para alunos que não têm condições de pagar por um cursinho preparatório tradicional.

DL – Valdemir, você teve que ‘se virar’ muito cedo, com seis anos. Conta um pouco sobre isso.

Valdemir – Sim. Passei dois anos na rua junto com um irmão. Depois, internado em entidades assistenciais até poder morar com meu avô, aos 12 anos, que foi minha grande influência. Ele que me dizia que estudar e ser honesto valia a pena. Ele morreu quando eu completei 16 anos. Na rua, tive acesso a um mundo difícil. Passei fome e era pressionado a entrar para o crime. Resisti a tudo graças aos conselhos de meu avô, às boas amizades e o foco nos estudos.

DL – Como você sobrevive hoje?

Valdemir – Moro com um irmão. Alugamos um pequeno cômodo, mas vivemos graças a pequenos trabalhos, como carregar malas para passageiros de navios do Porto de Santos. Ganhamos R$ 30,00 por dia. Quando recebemos gorjeta, o valor chega a R$ 100,00. Meu irmão também trabalha em um lava-rápido. Gostaria de ter um emprego fixo, pois minha nota possibilita cursar Políticas Públicas ou Direito. Vou precisar me alimentar e garantir o aluguel do cômodo.

DL – Brendol, sua situação não é muito diferente, não é?

Brendol Freire – Vivo hoje com minha mãe e meu padrasto. Como o Val, também estudei no Olga e na Etec. Fizemos eletrotécnico e o momento mais difícil foi na elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), que juntou com a preparação para o Enem. Eu também fiz Cardume. Eu saía de casa às cinco da madrugada e voltava por volta da meia noite, todos os dias. Foi difícil driblar o sono. Dormia no máximo seis horas por dia.

DL – Como vocês se alimentavam. Faltava ‘grana’ para lanche, por exemplo?

Brendol – Tínhamos lanche no Olga e almoço na Etec. No meu caso, minha mãe dividia comigo o vale-refeição dela. Agora, como Val, gostaria de ter emprego, pois pretendo cursar Engenharia ou Economia. Estou mandando currículos. Quem sabe eu consigo uma vaga.

DL – Qual o segredo da superação diária?

Valdemir – Não pensar no passado e nem se pegar nele para justificar as pequenas derrotas. O importante, para mim, sempre foi seguir em frente, lutando. Não adianta olhar para trás. O foco é o presente. Eu tinha que lavar roupa, louça, fazer comida e limpar a casa, além de estudar e trabalhar carregando malas. Se eu não me organizasse, não conseguiria.

DL – O que falta para minimizar a luta de jovens como vocês?

Brendol – Investir na base escolar. Transporte totalmente gratuito também ajudaria muito. Meia passagem ainda sai caro para jovens como nós. Eu moro em Vicente de Carvalho. Atravessava de catraia, pegava a condução para ir para o Olga. Na volta, para economizar, percorria a pé da Unifesp até o terminal das catraias. Também seria importante uma ajuda de custo para, por exemplo, alimentação. Eu chegava em casa e podia jantar. O Val, nem sempre. Tem pessoas que olham para o estudante e o criticam quando não passa numa prova ou tira nota baixa por acreditar que foi preguiça. Mas, muitas vezes, é cansaço e fome.

DL – Como vocês avaliam o sistema de cotas?

Valdemir – Sou a favor. As escolas privadas ainda proporcionam melhor acesso ao conhecimento do que as públicas. Logo, a disputa só fica igual quando há um esforço tremendo por parte do aluno mais carente. Eu participei de uma semana gratuita numa escola particular e fiquei surpreso com a quantidade de livros e a tecnologia oferecida aos alunos. Aluno de escola pública ainda não recebe estímulo suficiente para estudar. As escolas públicas possuem excelentes professores, mas eles mesmo têm dificuldades por conta da falta de estrutura. Até o material de apoio é inferior ao oferecido na escola privada. E estamos falando do estado de São Paulo.

Brendol – Também sou a favor, mas acredito que por um tempo determinado, até que o ensino público seja igual ao privado. Política de cotas é a prova que o ensino no país ainda possui um desnível grande. O Governo precisa, urgentemente, melhorar o ensino público. Meritocracia só será válida quando os dois ensinos estiverem no mesmo patamar. É óbvio que quem estuda em escola privada tem uma estrutura socioeconômica superior a quem estuda em escola pública.

 

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