Na profissão há mais de 35 anos, coveiro afirma: ‘Tenho medo é das contas’

Coveiro migrante nordestino, jovem zelador e a vendedora de flores mais antiga falam sobre a vida entre os jazigos do Cemitério da Areia Branca

20 de dezembro de 1980. Era véspera de Natal quando o jovem sergipano de Itaporanga D’Ajuda José Carlos Matos da Silva, após uma viagem de quatro dias, chegava a Santos para iniciar uma vida nova. Foi trabalhar como pedreiro em uma obra particular e, logo depois, ingressou na Prefeitura. De lá para cá já são quase 36 anos que o migrante nordestino atua como coveiro no Cemitério da Areia Branca, local onde fez vários amigos e enterrou entes queridos.

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“Vim para Santos no sentido de melhorar de situação. Naquela época não era tão fácil arrumar emprego na minha cidade. Comecei como pedreiro e depois aprendi a função de coveiro. Adoro o que faço. Quando digo que sou coveiro as pessoas perguntam se eu não tenho medo. Eu digo que tenho medo das contas que chegam para pagar. Inclusive estou indo pagar algumas agora na hora do almoço”, disse Silva bem humorado.

O coveiro, que tem 55 anos, aponta para a Reportagem a urna onde estão os restos mortais de seu padrasto Afonso e o telhado da casa da mãe. A residência fica próxima ao muro lateral do cemitério.

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“Meu padrasto trabalhou 40 anos aqui no Areia Branca como coveiro. Eu tenho tempo para aposentar, mas vou continuar trabalhando enquanto Deus estiver dando forças”, destacou.
Questionado sobre as histórias que já viu e ouviu no cemitério, Silva disse: “Quem morre não faz medo a ninguém. Precisa apenas de oração para a alma não sofrer. O medo está entre os ­vivos”.

História

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O Cemitério da Areia Branca foi inaugurado em 29 de agosto de 1953 e o primeiro sepultamento foi de um natimorto. Ele foi instalado em uma área de 48 mil metros quadrados. O espaço é o único dos três municipais do gênero que realiza o sepultamento de indigentes.

“Realizamos de oito a 10 sepultamentos por dia. Com o trabalho de zeladoria que a nova coordenadoria vem realizando nos cemitérios aumentou a procura pelo Areia Branca, que é o que tem mais vagas hoje em Santos”, disse Jocelma dos Santos Barbosa, chefe do cemitério.

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No Areia Branca os jazigos de três crianças chamam atenção de pessoas que atribuem a eles milagres: menino Onofre, menina Dulcinéia e menina Condília. Nele também estão localizados os mausoléus do Soldado Constitucionalista e o da Polícia Militar. Um cruzeiro no centro do cemitério é utilizado pelos visitantes para o depósito de flores e velas.

Uma característica do Areia Branca é o sino, cujas badaladas anunciam os sepultamentos e o anoitecer às 18 horas.

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O destino do jovem zelador

O rapaz de cabelos encaracolados está com um balde na mão com ­destino à torneira onde vai buscar água para finalizar a limpeza de uma das 16 sepulturas que zela no Cemitério da Areia Branca, quando é abordado pela Reportagem. Kawe Lafrata Camargo, de 27 anos, há três trabalha cuidando de jazigos.

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“Eu e a minha esposa vendia água para as pessoas que vinham ao velório lá na frente do cemitério. A gente também já teve banca de flores. Foram surgindo os clientes para a limpeza das campas e já faz três anos que eu só faço isso”, disse Camargo, que mora no Jardim Rádio Clube com a esposa.

O jovem não revelou quanto ganha por mês, mas disse que não é muito, pois o movimento caiu e as pessoas não dão mais valor a este trabalho.

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“Ofereço para limpar, mas as pessoas acham caro, mas o material está caro (mostra a lata de produto utilizado na limpeza de bronze) e a responsabilidade de manter conservado também é grande. Não dá para ganhar muito”, destacou. Ele trabalha todos os dias, principalmente aos domingos.

Apesar do lucro não ser muito, Kawe não pretende deixar o trabalho no cemitério. “Cada um tem o seu destino e ninguém sabe o dia de amanhã. Estou tão apegado aqui que não me vejo longe. Você cria uma família. O que a gente percebe também é que a morte já não tem mais importância como antigamente. A pessoa morreu hoje e amanhã já esqueceram”, afirmou.

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Simpatia na banca de velas e flores

“Há 40 anos trabalho aqui”. Assim a Reportagem do Diário do Litoral foi recebida por Irinete Francisco Fernando, a Nete. A senhora simpática de 66 anos é a mais antiga vendedora de flores e velas das bancas de madeira localizadas em frente ao Cemitério da Areia Branca. Herdou da mãe ao trabalho aos 26 anos.

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“A barraca era da minha mãe. Dos 23 aos 26 anos eu trabalhei com ela. Quando ela faleceu eu assumi a banca. Aqui é mais minha casa do que a minha própria casa”, disse Nete.

A vendedora disse que o movimento caiu muito nos últimos anos. Que as melhores datas para as vendas é o Dia das Mães e Finados. “Antigamente as senhoras vinham com os seus filhos e netos. Hoje não nem os filhos nem ninguém. Pelos menos umas 10 pessoas que sempre compravam comigo viraram evangélicas e não compram mais essas coisas”, afirmou.

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Dos mistérios que cercam a vida e a morte, Nete revelou uma experiência que viveu nesses 40 anos: “Trabalhava com a minha mãe e a gente fazia muitos vasos a noite. Fui com um balde buscar água no cemitério e escutei alguém chamar Nete. Olhei e não vi ninguém. Achei que fosse algum coveiro. Coloquei o balde na cabeça e quando ia saindo ouço de novo chamar o meu nome. O balde caiu e eu sai correndo. Não olhei para trás para ver o que era. Mas não tenho medo de morto não. Tenho medo dos vivos. Quando tenho dor de cabeça vou dar uma volta lá dentro e volto melhor”.