Na contramão da dignidade

Em Santos, centenas de pessoas vivem em condições físicas precárias, em moradias divididas em cômodos alugados e sem acesso pleno à instalações sanitárias

Comentar
Compartilhar
13 FEV 2017Por Rafaella Martinez09h57
Último levantamento da Sedurb apontou que existem 221 cortiços no Centro; cada residência abriga até 40 famíliasÚltimo levantamento da Sedurb apontou que existem 221 cortiços no Centro; cada residência abriga até 40 famíliasFoto: Rodrigo Montaldi/DL

“Você me desculpe estar mostrando essa realidade para vocês”. Samara Faustino, presidente da Associação de Cortiços do Centro de Santos, estava parada ao lado de uma das portas de arquitetura clássica que também serve de entrada para uma realidade distante da Santos dos prédios de alto padrão da orla. A realidade do local é indigesta.

Os cortiços, diferentemente das favelas e de outras moradias precárias, quase não são visíveis na paisagem urbana, uma vez que são edificações com áreas externas normais, utilizadas em seu interior como moradias para diversas famílias. E é dentro de muitos casarões do Centro – alguns considerados patrimônios artísticos e culturais – que cerca de centenas de pessoas vivem em moradias divididas em cômodos alugados informalmente, com condições físicas precárias e uso coletivo das instalações sanitárias.

De acordo com o último levantamento da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb), atualmente existem 221 cortiços no Centro. Em cada uma dessas residências chegam a morar até 40 famílias.

Privacidade.

A palavra não existe no vocabulário de quem vive em cortiços. Compartilhando a mesma cozinha e o mesmo banheiro, boa parte das famílias mora em espaços limitados,  em ambientes com falta de ventilação e iluminação, muitos deles com instalações de esgoto danificadas. A cozinha unitária constantemente está repleta de restos de comida e louças sujas, o que contribui para a proliferação de animais como ratos e baratas. O Diário do Litoral esteve em alguns deles. Na primeira moradia visitada, o quintal abrigava – somente no térreo – 16 quartos improvisados, feitos de madeira e ­cimento.

Em um deles, uma senhora de 90 anos assistia televisão. O odor forte do quarto atraía moscas ao local. Questionada sobre familiares, Lucia afirmou que vivia sozinha. Morava no local pois não tinha como alugar um outro tipo de moradia na atual fase da vida.

“Cuido dela, ajudo no banho e faço comida. Ela foi abandonada pela família. É triste, pois era uma senhora elegante, mas o tempo passou e a deixou para trás. Ninguém merece passar o fim da vida em um cortiço.

Ninguém merece viver da forma que a gente vive aqui, mas é o que conseguimos ter. Com o preço que já paguei de aluguel já poderia ter a minha casinha. Mas as coisas são complicadas, né?”, desabafa Cicera Maria, mãe de três filhos e moradora de cortiços há mais de duas décadas.

Boa parte dos chefes de famílias que moram em cortiços possuem salários insuficientes para acessarem moradias adequadas. Outro fator para a permanência de famílias nesses ambientes é a dificuldade em comprovação de renda, geralmente oriunda de trabalhos informais. Essas características e a impossibilidade de obter garantias para firmar contratos de aluguel no mercado imobiliário formal justificavam a opção pelos cortiços na maior parte das situações encontradas pela ­Reportagem.

“Você precisa morar em algum lugar, precisa de um teto para criar os filhos ou para viver uma vida independente, mas não tem como comprovar renda, não tem renda suficiente ou não tem fiador. A rua é uma opção cruel, em muitos casos o cortiço é a melhor saída”, aponta Nay Faustino, secretária da ACC e que participa com a mãe, Samara, das audiências e interlocuções com o poder público.

Samara é uma mulher de características marcantes. Tem a pele negra e o rosto emoldurado por uma cabelereira cacheada. Naquela quinta-feira usava pesados e grandes brincos rosa. Com simplicidade, sua fala passeia por assuntos simples e complexos: fala sobre o drama de famílias devastadas e imbróglios legislativos, com a experiência de quem transita pelas duas esferas há muito tempo.

Há 20 anos é figura recorrente em audiências, manifestações, congressos e premiações. A mulher que batalha para que famílias tenham direito a condições mais dignas de moradia ainda vive em um cortiço.

“Dizem que a capitã é a última a abandonar o barco, né?”, fala sorrindo.

A palavra mais presente no vocabulário de Samara é ‘sonho’. Fala repetidas vezes sobre a importância de não deixar de acreditar. “Eu vejo algumas pessoas que acompanho há anos seguindo por caminhos errados. É muito triste, pois todas foram crianças que tinham seus sonhos. A realidade é dura algumas vezes. Ela machuca. Algumas vezes o sonho se transforma em pesadelo, mas não podemos deixar de sonhar e lutar por uma vida mais digna”, ­finaliza.

Histórias escondidas no ‘encortiçamento’ dos casarões

Limitações

Quando a pesada porta de madeira se abre, a primeira impressão é que o único caminho a seguir é subir os degraus íngremes da escala que exala um forte odor de mofo. Uma pequena abertura à direita, no entanto, revela que ali também existem moradias informais, repletas de famílias. A presença de felinos nos acompanhou por boa parte do tempo. O caminho estreito rumo a essas moradias passa por uma área com esgoto, onde só foi possível passar pisando em tijolos colocados pelos moradores.

Foi em um dos quartos desse cortiço que conhecemos Maria. A menina diagnosticada com macrocefalia vive com os pais e a avó materna em um quarto de pouco mais de 4 m². Sem ventilação e com as paredes de madeira, o quarto abriga ao mesmo tempo dois colchões, roupas, varais, um fogão e um botijão de gás.

A janta da família estava sendo preparada em uma panela de pressão enquanto Cláudia conversava com a Reportagem. A criança faz tratamento regular na rede de saúde de Santos, mas carece de ajuda com fraldas e alguns medicamentos. O marido de Cláudia faz ‘bicos’ para conseguir arcar com o aluguel de R$ 400 do quarto.

Mudança de rota

Patrícia Santos sabe como poucos o quanto a vida pode ser difícil. Abusada pelo padrasto aos 11 anos de idade, foi expulsa de casa pela mãe, que acreditou que a menina se insinuava para o cônjuge. Na rua conheceu o crack e a cocaína. Aos 16 anos, quando engravidou do primeiro filho, percebeu que era hora de repensar a vida. Conseguiu se livrar das drogas. Desde o dia em que saiu de casa mora em cortiços pelo Centro da cidade. Com ­dificuldades financeiras, já foi despejada cinco vezes junto com os outros quatro filhos. Uma das crianças faz tratamento psiquiátrico e usa remédios controlados. Há dois meses, Patrícia conseguiu alugar um quarto maior, com cozinha, para morar com os filhos, o pai e os dois gatos de ­estimação.

“Sei que vivemos uma realidade difícil, mas conto a minha própria história para que, acima de tudo, os meus filhos saibam que é mais fácil seguir o caminho do bem. Cuido para que eles não fiquem na rua e saibam o quanto o mundo pode ser cruel quando a gente tem a cabeça fraca. Sei que hoje é isso que posso oferecer a eles, mas não desisto. Eu cai, confesso. Mas não tenho vergonha alguma de contar minha história, pois ela evidencia que muitas vezes só é preciso ter força de vontade. Somente um amor muito grande por alguma coisa ou por alguém consegue te dar forças para lutar”, afirma.

Vanguarda: atrás de seu tempo

Ao final da Rua General Câmara, quase dentro da área do maior porto da América Latina, um amplo terreno chama a atenção de quem passa pelo local. Da área externa não é possível enxergar a construção parcialmente concluída, mas que devido aos impedimentos administrativos, a morosidade do governo e a ação do tempo, já apresenta pontos significativos de limo.

“Algumas vezes o sonho se transforma em pesadelo, mas esse não será o caso enquanto ainda tivermos voz para falar”. A frase foi dita pela primeira vez no interior da obra inacabada do Conjunto Vanguarda. Ali, junto com o mato alto e os cinco cachorros que auxiliam na segurança do local, repousa também o sonho de 181 famílias que continuam instaladas em moradias precárias nos cortiços de Santos.

Sem previsão para serem retomadas, as obras do Conjunto Vanguarda (cujo nome significa estar na frente, à dianteira de um movimento) teve início em 2013, dentro do programa ‘Minha Casa, Minha Vida – Crédito Solidário’, do Governo Federal. Localizado em uma área cedida pela União, a construção do conjunto teve a participação dos moradores que seriam contemplados com as moradias, dentro de um plano elaborado pela Associação de Cortiços do Centro (ACC).

Passados quase quatro anos, a edificação abandonada não apresenta sinais de ser retomada e muitas são as justificativas para a paralisação da obra.

Questionada, a Prefeitura de Santos disse apenas que a obra do Conjunto Vanguarda é de responsabilidade da Associação dos Cortiços do Centro, com recursos do Governo Federal. Em 2012, a Cohab Santista foi procurada pela ACC a fim de colaborar para que a obra fosse finalizada e provisionou, sob aprovação do Conselho Municipal de Habitação, o repasse, por meio do Fundo de Incentivo a Construção de Habitação Popular (Fincohap). Em virtude de vistorias realizadas, a Cohab detectou-se a paralisação das obras pela ACC e somente disponibilizou parte dos recursos.  Sobre o conjunto Vanguarda 2, não há previsão de repasse de verbas municipais, já que ainda não há ordem de serviço da União para que a construção seja iniciada.

A Caixa Econômica Federal informou, por meio de nota, que as obras do Conjunto Vanguarda I e II fazem parte do Programa Minha Casa Minha Vida Entidades, no qual o processo de contratação ocorre por meio de habilitação prévia da Entidade Organizadora e seleção prévia de propostas pelo Ministério das Cidades.

A Caixa esclarece também que o repasse dos recursos são liberados pela entidade para produção das unidades habitacionais. Este contrato prevê a construção de 181 unidades residenciais e as obras estão paralisadas devido à falta de cumprimento dos requisitos pela entidade responsável. Questionada em contato telefônico quais requisitos foram descumpridos pela ACC, a Caixa disse que as informações deveriam ser solicitadas junto ao Ministério das Cidades.

Já o Ministério das Cidades informou, também em contato telefônico, que todas as demandas sobre a liberação de verba para o Vanguarda deveriam ser encaminhadas para a  Caixa.

Questionada, a Associação de Cortiços do Centro (ACC) disse que todos os documentos solicitados pela Caixa Econômica Federal foram entregues, tais como laudos técnicos, orçamentos e planilhas e que desde a última reunião com o órgão, que aconteceu no dia 3 de novembro do ano passado, aguarda retorno para o andamento da regularização e consequente retomada dos trabalhos.