‘Na cartinha ela pedia a avó de volta, que já havia falecido’. Com lágrimas nos olhos e tomado de emoção, Wilson Cedismondi (68), conhecido como ‘Wilson Noel”, relembrou histórias marcantes destes oito anos em que trabalha como Papai Noel.
No shopping Brisamar, em São Vicente, ele atende a crinças, jovens e adultos. Tira fotos, abraça, conversa, recebe cartinhas e esbanja carisma. Tanto que, na maior parte do tempo, há fila para interagir com o bom velhinho.
“A barba é natural”, diz ele à Reportagem do DL, enquanto se prepara em uma sala para entrar em cena dali a alguns minutos, tocando seu sininho, caminhando e acenando para as pessoas até chegar ao seu trono decorado.
Confira abaixo a entrevista completa com o Papai Noel:
DL – Como você se tornou Noel? Concilia com outros trabalhos?
Wilson – Fazem oito anos que atuo como Papai Noel. Sou de São Paulo e fui incentivado por familiares e amigos a trabalhar com isso. Como sou professor de gestão de pessoas, gosto dessa interação. Consigo observar cada criança que vem falar comigo e moldar minha abordagem para a realidade dela. Mas, como disse, sou professor. Noel só neste período.
DL – Sempre trabalhou em shoppings? Como é este mercado para Papai Noel?
Wilson – Não. Já trabalhei em empresas, trio elétrico, fiz muita rua, visitando locais e tudo mais. Normalmente são agências que te contratam. Elas recebem os pedidos e nos procuram para executar a função. Aliás, há muitos agenciamentos neste sentido, e eu, particularmente, não me prendo a nenhuma delas. Sou fiel ao papel que desempenho. Se a oferta se encaixar nisso, eu aceito e faço o meu melhor.
DL – Ser Papai Noel te transformou como pessoa?
Wilson – Bastante. Você conhece muitas histórias e isso te agrega como pessoa. São situações diferentes, inesperadas, que acabam por me ensinar muito a cada dia.
DL – Você aprende mais com crianças ou com adultos?
Wilson – Com as crianças, sem dúvida. Elas são inocentes, não veem maldade e essa pureza sempre tem muito a nos ensinar.
DL – Se recorda de alguma situação marcante com elas?
Wilson – Sim. Certa vez fui contratado para as festas natalinas de um condomínio e uma menina, de cerca de oito anos, me entregou uma cartinha. Nela ela pedia a avó de volta; queria ela ao seu lado. Então eu disse para ela conversar com os pais e eles a levarem até a avó. Foi então que a mãe dela me informou que ela tinha falecido. É muito triste isso, sabe?! Você na hora não sabe o que dizer, te pega de surpresa… (Wilson começa a chorar e fica muito emocionado).

Wilson ‘Noel’ recebe dezenas de cartinhas todos os dias
DL – … mas você chegou a dizer alguma coisa? Conseguiu?
Wilson – Sim. Disse que ela havia descansado e que estava em um lugar muito melhor. E que, um dia, haveria este reencontro delas. Foi a única coisa que consegui dizer.
DL – É normal, então, algumas crianças não pedirem brinquedos, mas sim trazerem essas questões?
Wilson – Muito. Algumas pedem o pai de volta, mas não por questão de morte, mas, sim, de separação, e ele acaba largando a criança e esquecendo que ela continua sendo sua filha. É terrível quando isso acontece. Imagine: para a criança chegar ao ponto de desabafar sobre isso com você, qual o tamanho do sofrimento dentro dela?
DL – A imagem do Papai Noel ser uma ‘criatura’ mágica colabora com isso? Seria a última esperança delas?
Wilson – Eu acredito que sim. Elas acreditam que alguma magia poderá acabar com este sofrimento ou trazer alguém que já partiu de volta. Elas carregam essa confiança no Noel e acabam abrindo o coração e desabafando com a gente.
DL – Essa geração atual ainda pede muitos brinquedos ou já partem para celulares e outras tecnologias?
Wilson – Pedem muitos celulares. Mas digo que eu e meus ajudantes não sabemos fabricá-los; que nossa habilidade é a de fabricar brinquedos. Quero manter essa magia do brincar dentro delas, e não que elas fiquem presas à um aparelho logo cedo, pois isso vicia. Criança precisa brincar para crescer de forma saudável.
DL – Sua barba é natural?
Wilson – Sim, natural. Após o dia 25 eu tiro ela toda e, até abril, mais ou menos, vou mantendo-a curta. De abril em diante já a deixo crescer, pensando no mês de dezembro. E muita gente elogia o fato de ela ser assim, natural, pois passa mais credibilidade de um Papai Noel de verdade.
Para encerrar a conversa, Wilson Noel diz que nada é mais importante na vida do que o amor, e deixa um recado para este Natal.
“Que as pessoas possam entender que o amor ao próximo transforma. A empatia transforma. Vamos amar ao próximo, pois isso nos coloca mais perto da tão sonhada felicidade. Jesus deixou isso como legado. E é isso que o Natal representa”, finaliza.
