Mulher entrega bilhetes para tentar conseguir emprego em São Vicente

Sem retorno dos currículos que entregou, Edna passou a oferecer seus serviços de casa em casa

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05 ABR 2017Por Vanessa Pimentel10h30
Daniela (à esq) é irmã de Edna e também está desempregada. Elas acreditam que a atitude valerá a penaFoto: Matheus Tagé/DL

“Oi, estou desempregada e faço faxina para pagar as minhas contas. Se precisar me ligue, diga quanto pode me pagar, pode confiar, ligue e confira! Qualquer serviço honesto já iria me ajudar muito. Agradeço se puder me ajudar”.

As palavras acima foram escritas à mão em folhas de caderno e distribuídas em bilhetes pelos quintais de algumas casas em São Vicente. A autora é Edna Alves Irmão, de 42 anos, desempregada há um ano.

Em época de currículos online, a atitude gerou curiosidade e acabou compartilhada em uma rede social. “Optei por pedir emprego dessa forma porque já entreguei muitos currículos e não tive resposta. Pelo bilhete eu acho que o contato fica mais fácil”, justifica.

A ideia partiu da irmã de 19 anos, Daniela Alves Irmão, também desempregada. “Como Edna está procurando emprego comecei a escrever os bilhetes pra ela também. Tem o meu telefone e o dela e quem conseguir faxina primeiro, ajuda a outra”, conta Daniela.

O pedido em forma de carta começou a ser entregue pelos bairros Cidade Náutica e Tancredo Neves há menos de um mês, mas elas ainda não receberam nenhum chamado.

Desemprego

Edna mora sozinha, mas tem a companhia de oito cachorros em uma casa na Vila Margarida. É mais uma brasileira que conseguiu estudar até o Ensino Médio e desde então trabalhou em diversos empregos. Já foi cuidadora de idosos, de crianças, fez limpeza em casa de família e atendente em lanchonete. Antes de o desemprego bater em sua porta de vez, Edna cuidava de um senhor cujo filho não tinha tempo de cuidar. “Só que com a crise ele perdeu o emprego e me mandou embora”, explica.

Nos dias em que a situação piora, ela sai para pegar latinhas e com a venda consegue ganhar de R$50 a R$60 por dia. Quando não acha material apela para a mãe que lhe ajuda com comida. Para alimentar os oito cachorros, divide o que ganha com eles. “Em casa eu não tenho luz há quase dois anos, é só luz de velas mesmo”, relata Edna. Sem dinheiro suficiente, não conseguiu mais pagar pelo serviço.

A irmã, Daniela, também concluiu o Ensino Médio, ainda mora com a mãe e segundo ela, não sente falta dos serviços básicos porque a mãe é costureira e consegue obter renda através da venda dos produtos. Porém, diz que precisa trabalhar para ajudar em casa e porque deseja voltar a estudar. “Eu fazia um curso de gestão empresarial, mas tive que parar porque não tinha mais como pagar”, explica.

O esperado salário também será usado para pagar uma consulta ao Oftalmologista. Daniela tem uma alteração ainda não diagnosticada no olho esquerdo que gera brincadeiras de mau gosto e fortes dores de cabeça. “Eu já fui a um oculista de graça, mas ele não falou o que eu tinha, então quero ir em outro pra ver se dá para fazer alguma coisa”, diz.

Oportunidade

As duas não especificaram quanto cobram pela faxina porque o valor é de acordo com o tamanho da casa ou da situação do cliente. “Eu sei que precisamos valorizar nosso trabalho, mas, às vezes, a pessoa não pode pagar muito, então cobramos de acordo com a situação dela”, diz Daniela.  Edna garante que manda bem na faxina e segue esperando uma oportunidade.

Caso haja interesse, os telefones para contato são (13) 9 9188 3107 / 3463 2654. A entrevista aconteceu na Praça Barão do Rio Branco, uma das principais do município.

Ao final da conversa, elas se despediram dizendo que como estavam pelo Centro, entregariam os 100 bilhetes, que demoraram quatro dias para serem escritos, pelas casas dali. A confecção é demorada porque envolve capricho – não há rasuras e todos são dobrados da mesma forma.

Desemprego sobe e atinge 13,5 milhões de pessoas

Edna e Daniela fazem parte dos números sobre o desemprego divulgados na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levantados através da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad Contínua).

Os dados mostraram que a taxa de desocupação do País fechou o trimestre móvel de dezembro do ano passado a fevereiro deste ano em 13,2%, alta de 1,3 ponto percentual frente ao trimestre móvel anterior. Com o resultado, a população desempregada do país chegou a 13,5 milhões de trabalhadores, um novo recorde tanto da taxa quanto da população desocupada de toda a série histórica iniciada em 2012.

Tiago optou pela carreira artística e hoje se apresenta por ruas e bares, sem mais depender de carteira assinada (Foto: Matheus Tagé/DL)

Gisele dos Santos, 28 anos é mais uma que completa a estatística. Desempregada há dois anos, foi vista pela Reportagem entregando currículo em um local onde futuramente, abrigará uma loja de cosméticos, em São Vicente.

“Queria trabalhar por mim mesma vendendo roupas. No início deu certo, o problema foi na hora de cobrar os clientes”, conta ela. Como alguns não pagaram o que deviam, o prejuízo fez com que ela desistisse de seguir como autônoma.

A busca por empregos na Praça Barão do Rio Branco é embalada pela música do cantor e compositor Tiago Teron, de 37 anos. Com um repertório rico em música brasileira, Tiago faz a trilha sonora de quem passa ou trabalha por ali.

Ele diz que já trabalhou com carteira assinada em uma empresa de telefonia, mas não conta mais com este tipo de emprego para se sustentar. “Trabalho com música há 20 anos e decidi tocar na rua há dois. Amo fazer o que faço”, declara, com uma tranquilidade de quem já não depende mais do atual sistema empregatício.