Tragédia anunciada na Vila Alemoa, que fica às margens da Via Anchieta. Famílias inteiras, incluindo dezenas de crianças, estão sob risco de ficar sob escombros por conta da retirada, sem planejamento, das palafitas, que não só abrigavam pessoas, mas ajudavam a reter a maré que, agora, vem removendo a terra sob as casas de alvenaria existentes no lugar e que podem desabar a qualquer momento. Segundo moradores, tudo começou após o início das obras da Nova Entrada de Santos, realizado pela Prefeitura de Santos e Companhia de Habitação da Baixada Santista, Cohab Santista.
A Reportagem esteve no local, acompanhada do presidente da Associação Biblioteca Comunitária Contêiner, José Givanildo Batista, uma das lideranças da Alemoa. Lá, se deparou com dois técnicos da Prefeitura, que não quiseram falar com o DL. Até agora, a Administração retirou 120 das 566 famílias, todas foram transferidas para o Conjunto Habitacional Caneleira Quatro. Suas humildes moradias estariam obstruindo a passagem do Rio Furado.
“Com a retirada das palafitas, a água passou a subir ainda mais e ocupar espaços sob as casas de alvenaria, retirando a sua sustentação. A renovação dos dutos das avenidas Nossa Senhora de Fátima, Boris Kaufmann e Ana Santos está levando a água ao chamado canal da Dersa, que corta a comunidade e termina no Rio São Jorge. Qualquer chuva ou pico de maré causa pânico nas travessas Gema Rabelo, São Jorge e Vila Nova”, relata Givanildo Batista.
Segundo a liderança, não existe projeto para a Alemoa, mas sim, um intenso trabalho de desocupação da área para beneficiar empresários do ramo portuário. “Querem unir áreas de armazenamento de contêineres. A Defesa Civil e a Subprefeitura marcam as casas e alertam os moradores a procurar a Cohab. Muitos não conseguem pagar as prestações, demais despesas, abandonam os apartamentos e voltam para a Alemoa. Ninguém respeita o povo pobre”, dispara.
Morador da Travessa São Jorge, Osman Santos Bastos está temendo que sua casa caia. “Depois das obras, a água começou a subir e está retirando a terra que sustenta minha casa, que pode cair no canal. Me disseram que em três anos não cai. Dá para confiar. E meus filhos?”, indaga.
Maria de Lurdes dos Santos, da Travessa Gema Rabelo, teve sua casa marcada e já perdeu tudo. “O chão e as paredes estão apodrecendo. Não tenho dinheiro. Trabalho com reciclagem e tenho uma filha deficiente”, reclama.
Néia Bastos diz que a Cohab não se manifesta. As casas balançam e, com as chuvas, estão cedendo. Ninguém consegue dormir. As casas de alvenaria podem desabar a qualquer momento. É uma tragédia anunciada”, garante, acompanhada de Dener de Melo, que chegou do serviço e se deparou com seu casebre arrancado. “Só deixaram o chão. Perdi tudo e ninguém dá conta de minhas coisas”, completa.
A Zona Noroeste fica abaixo do nível do mar e tem importantes rios cortando os bairros: Rio dos Bugres, Rio Saboó (parcialmente canalizado e coberto), Rio Lenheiros (um dos braços do Rio Saboó, canalizado durante a construção do Conjunto Habitacional Mário Covas) e Rio São Jorge (canalizado, desaguando no Rio Casqueiro).
Os rios passam por períodos de cheias e transbordam, seja pelo aumento do nível da maré, chuva forte, assoreamento (areia acumulada no fundo) ou lixo jogado irregularmente. A maré mais alta em Santos chega a 1,70m e aquela região fica a aproximadamente 1,30m.
A primeira etapa do Programa Nova Entrada de Santos – que prevê soluções viárias e de drenagem para problemas crônicos na Zona Noroeste – já foi concluída. Ela incluiu pavimentação, calçadas, drenagem e 18 quilômetros de corredores de ônibus e outros. Para esta etapa foram investidos pela Prefeitura R$ 48 milhões. No total, a Prefeitura investirá no Programa R$ 290 milhões e conta com a parceria do Governo do Estado, investindo o total de R$ 270 milhões.
PREFEITURA
A Prefeitura de Santos informa o que está ocorrendo é a remoção de moradias subnormais, de forma manual, que ocupavam o leito do Rio Furado e impediam o escoamento das águas, causando impacto na drenagem ainda insuficiente, da região dos bairros da Vila Haddad, Chico de Paula e da própria Vila Alemoa.
Os impactos de inundações das áreas que margeiam o Rio Furado se deram por chuvas intensas recentes, com índices superiores a 200 milímetros em curto espaço de tempo e com a alta da maré.
A obra que aumentará a vazão da drenagem para o local ainda não foi executada e demanda a travessia de drenagem sob a pista da marginal direita da Via Anchieta.
A Prefeitura de Santos reitera que as remoções não prejudicam as demais que ficaram no local, pois as que lá permanecerem estão em áreas menos inundáveis e em menor risco, com base em estudos técnicos das vistorias executadas pelos órgãos competentes. A Prefeitura aplicará todas as medidas para a garantia da segurança das moradias que permaneceram no local.
